No
telemóvel nem uma mensagem. Nem uma chamada perdida, ou outra coisa qualquer.
Um vazio no ecrã, um vazio por aí. Perco-me de razões com as chamadas que não
me fazes, com as mensagens que não me envias, com o desprezo com que me deixas
aqui. Tanto tempo que demos um ao outro, tantas vezes que te disse
-Amo-te
Que
lhes perco a conta. Não tenho dedos que cheguem para contar todas as vezes que
te amei em palavras. Podia multiplicar as mãos, ou os pés, elevar tudo ao
máximo expoente possível e mesmo assim não conseguiria dar-te uma resposta
concreta. Não te conseguiria dar mais. Nem mais, nem menos. Não que me
arrependa. Claro que não me arrependo. Continuo a amar-te porque ninguém
desliga os sentimentos no interruptor do coração. Não há uma borracha que
apague o que vivemos. Vivemos e ficamos marcados. Somos o produto de todas
essas marcas: das boas e das menos boas. No meio daquilo que fizemos e daquilo
que deixámos por fazer a única coisa que me custa é o teu silêncio. Custa-me
imenso. Não dizes nada, não me dizes nada. Pego no telemóvel de cinco em cinco
minutos à tua procura no ecrã: nem uma mensagem, nem uma chamada. Poiso-o
novamente e enfio a cara na almofada. Respiro da apneia do coração. Recordo os
nossos melhores momentos. Recordo-te a olhar-me entre o brilho elétrico da
ternura nos teus olhos, da pele de galinha dos teus braços quando te beijava os
ombros despidos, das conversas incessantes até ao amanhecer. Recordo-te a
amar-me com todas as tuas forças e recordo-me a amar-te com todas as minhas
forças. Fomos bons juntos, ainda somos bons juntos – penso. Se te dissesse
-Amo-te
Esperaria
que me retribuísses com um
-Também
te amo
Era
capaz de ficar a amar-te até o sol se pôr. Era capaz de amar-te até depois do
sol nascer. Não sei se o que é bom dura para sempre. Acredito que não dure para
sempre. Nada dura para sempre. A verdade é que continuo aqui a esperar-te:
todos os dias, a todas as horas. O que é feito de ti? O que é feito da música
da tua voz? Onde deixaste o brilho elétrico dos teus olhos? Seguiste sem mim.
Seguiste a tua vida sem mim, enquanto eu por aqui fico à espera de uma mensagem
tua, ou outra coisa qualquer. Um sinal de que ainda existes na minha vida. Algo
que me lembre daquilo que um dia fomos. Que ainda somos esse algo que um dia
fomos. Acredito que não me esqueceste, porque não se esquece quem se ama. Como
viverei eu sem aquele
-Amo-te
Ao
amanhecer. Ou aquele
-Ficas
comigo para sempre?
Ao
adormecer. E que será feito de mim agora que adormeço sem ti? O telemóvel toca,
mas não és tu. O que esconderá o teu silêncio? Por que razão te escondes no teu
silêncio? Custa-me o mundo esse silêncio. Acredita quando digo
-Ainda
te amo
A
meio de uma mensagem. Um dia fomos imensos. Um dia fomos fantásticos. Um dia
fomos quase eternos. No entanto, as coisas boas também acabam - um dia.