quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Croniquinha feita de dúvidas


Não consigo. Juro que não consigo. Aliás, não entendo. Juro que não entendo. Que queres que faça? Queres que sorria? Que queres que te diga? Preferes que te minta? Não consigo. Apetece-me escrever e não consigo. Apetece-me dormir e dou voltas na cama até adormecer por segundos e acordar sobressaltado com um barulho qualquer. Que queres que faça? Tento apagar-te. Tento apagar-nos. Está tudo bem. É tudo muito bonito. Acabámos, é um facto. Cada um para seu lado. Cada um estilhaçado para o seu lado. Cada um no seu canto a lamber as suas feridas. Ninguém nos pode tirar o mérito. Tentámos. Levámos as coisas até onde pudemos. Caminhámos lado a lado e fomos construindo o nosso caminho. Fizemos a nossa cama e deitámo-nos nela. A vida foi bonita enquanto estivemos bem. A vida continua bonita agora que não estamos. Cabe a cada um de nós abrir os olhos. Cabe a cada um de nós acordar. A vida continua bonita mesmo quando não estás comigo. Mas que queres que faça? Continua bonita, só isso. Continua a passar por mim e continuo a vê-la passar cá do meu canto. Sinto-me indestrutível por dentro, enquanto o mundo se desmorona lá fora. A verdade é que me sinto feito de ferro. A verdade é que até o mais forte dos ferros acaba por vergar com o tempo. O tempo pesa, mas o tempo demora. E neste momento tu ainda dóis bastante. Bastante, mesmo. Juro que não entendo como seguiste em frente sem mim. No meu canto o tempo passa com os segundos, e os segundos duram eternidades – que o digam os minutos. Não consigo. Juro que não consigo. Ainda tentei escrever algo alegre, mas é difícil esquecer os males que nos atormentam. Especialmente quando esses males dormem connosco, jantam connosco, almoçam connosco. É difícil. Não sei como conseguiste seguir em frente. Não sei se o tempo acelera quando lhe pedes. Um dia julguei que eras tu que controlavas o tempo. E nesse dia senti-nos indestrutíveis, enquanto o mundo teimava em desmoronar-se à nossa volta.

PedRodrigues

sábado, 1 de setembro de 2012

O que fazer quando tudo acaba?


Passou pela loja e comprou uma garrafa de whiskey barato. Tirou a gravata e desapertou o botão do colarinho. Deixou-se ficar no carro a ver o sol esconder-se atrás do mar, afogando os minutos em goles incansáveis. Os últimos turistas saíam da praia de sorriso rasgado no rosto e isso inquietava-o. A felicidade deles inquietava-o.
Não se julgava com pressa de chegar a casa. Aliás não se julgava com pressa de nada. Ainda conseguia ouvir as palavras do patrão

-Sente-se, sente-se. Quer tomar alguma coisa?

Ao entrar no gabinete. Em vinte e tal anos de serviço nunca havia sido chamado uma vez sequer. Nem uma mancha no currículo. Tudo sobre rodas, tudo nos conformes: entrava às nove, saía às cinco, ao almoço comia a correr e às vezes nem almoçava, se fosse preciso. Nunca havia sido chamado por coisa alguma até àquele fatídico dia.

-Lamento informá-lo…

Nada de bom é dito com tais palavras. A última vez que as ouvira, a mulher tinha sofrido um acidente de carro e estava em coma no hospital. Nada de bom poderia resultar dali. Sentia o ar a ser-lhe sugado lentamente dos pulmões. Ninguém sabia do seu sofrimento constante. Da sua batalha incansável com os dias. Era uma pessoa calada, não fazia amigos com facilidade - não procurava fazê-los. Sempre se sentira preso numa máquina de criar solidão. Todos aqueles que o amavam acabavam por desaparecer, de maneira que se escondia do mundo com medo que o mundo lhe fosse roubado. A vida é assim, pensava ele. E que vida era aquela. A única coisa que o impedia de se autodestruir acabara de lhe ser retirada. Desde os vinte anos que trabalhava ali.

-Espero que tudo corra pelo melhor.

Mas que poderá correr melhor quando tudo está destinado a correr mal? Não há subidas quando a vida é a descer. Que faria ele? A mulher em coma no hospital, nem um sinal que iria acordar. Vivia todos os dias com medo que

-Lamento informá-lo, mas a sua mulher não vai acordar

Ela desaparecesse por completo. O sol começava a apagar-se atrás do mar. As ondas desmanchavam-se de bruços na areia e ele sentia-se feito de ar a cada gole na garrafa. No pontão um pescador lutava com a cana de anzóis vazios. A vida acabava-se lá fora a cada segundo que passava. Desligou o telemóvel e deixou-se ficar na vontade de desaparecer com o sol. Fechou os olhos por um instante à procura de respostas entre os espectros de luz no meio da escuridão. No meio do silêncio da orquestra da beira-mar conseguia ouvir uma voz desdenhosa

-Lamento informá-lo, mas…

O pescador olhava-o atrás do vidro. E de cigarro a bailar nos lábios, com um balde vergado pelo peso dos peixes, continuou

-Acho que chegou ao fim da estrada.

Não é que tinha razão?

PedRodrigues

(Crónica do mês de Setembro na revista Algarve Mais)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Cem metros a falar em ti


Andei cerca de cem metros. A rua estava deserta e ao olhar para trás conseguia ver-me a caminhar vazio na minha direção. Urgentemente todos caminhamos sem rumo. Urgentemente todos temos pressa de viver. Acreditamos na velocidade das coisas: ainda hoje nos conhecemos e já queremos envelhecer juntos. Vivemos à velocidade do sol: nascemos com ele e desaparecemos com ele. Os nossos sentimentos seguem os nossos passos. Um dia todos nos amámos uns aos outros. Um dia todos amámos. Um dia todos fomos felizes. Mas nesta pressa que temos de viver, acabamos por não entender nada. Demoramos uma eternidade a andar em frente, mas não damos conta disso. Naquele dia não demorei cem minutos, nem cem horas, nem cem segundos a falar em ti. Naquele dia não me demorei nas pausas, nem me apressei nas explicações. Olhei em frente e continuei sem rumo. Andei cem metros e nesses cem metros tu viveste em mim. Parece que ainda ontem te conheci. Parece que ainda ontem te mandei a primeira mensagem, ou escrevi o primeiro texto. Ainda ontem envelhecia ao teu lado. E na verdade envelheci mesmo. Passei trezentos e trinta e quatro dias a envelhecer ao teu lado. Uma eternidade, diria eu. Senti essa eternidade e vivi agarrado com unhas e dentes a ela. Caminhei cem metros. Caminhei cem metros a falar em ti. Nunca te consegui descrever porque começas a desaparecer aos poucos. Eu tento agarrar-te, juro que tento, mas escapas-me entre os dedos. Nesta urgência que temos de viver, começas a desaparecer. No entanto a cada cem metros continuas a estar viva e isso assusta-me. Ninguém consegue viver para sempre em cem metros. Há escalas que precisam de ser vencidas. Há amores que acabam todos os dias. E não chega envelhecermos juntos, se não soubermos viver juntos - num só. A vida não caminha para sempre desenfreada. Basta encontrarmos aquilo que nos une e carregar no botão de stop. Acredita que quando queremos vivemos devagar no coração de quem amamos. Acredita que quando nos permitimos vivemos devagar no coração de quem nos ama. E naqueles últimos cem metros tu viveste parada em mim.

PedRodrigues