Eventualmente
tudo acaba. Nada fica como um dia foi porque tudo está sujeito a uma mudança.
Tudo nos parece passageiro, porque tudo é passageiro. Um dia deixámos de ser
dois estranhos e passámos a ser dois conhecidos. Um dia passámos a ser mais que
conhecidos: fomos amantes, cúmplices, compinchas, comparsas, companheiros de
crimes de cabeceira. Hoje somos o pó que sobrou dessa luta. Tudo se transforma,
a verdade é essa. No dia em que as coisas acabam rastejamos cada um para o seu
lado conscientes que temos toda a razão do mundo. Esperneamos, esbracejamos, berramos
bem alto, choramos de raiva. As coisas acabam, mas nunca acabam por nossa
culpa. Passamos a batata quente para o outro lado. Não queremos saber de nada,
nem de ninguém. Fechamo-nos em insultos vãos. Achamos que estamos melhor assim,
mas nunca estamos. Temos medo. Não temos
medo de ficar sozinhos. Não temos. O nosso medo é o medo da superação. Temos
medo que avancem sem nós. Encaramos a situação como um jogo e como bons
jogadores que somos, temos medo de perder. Mas há coisas que vão ficando
connosco e não nos deixam avançar. Mudamos o nome da lista telefónica,
esperançosos que isso nos ajude nessa jornada. O que um dia foi a alcunha
amorosa, hoje é o simples nome: seco, sem chama, mortiço. As mensagens que um
dia foram o motivo de maior orgulho, hoje são apenas recordações dolorosas.
Apagamos tudo, mas nem tudo permanece apagado. Há marcas que continuam
vibrantes na carne, há roupas que teimam em aparecer nas gavetas, há tudo
aquilo que sobra daqueles dias em que o sol brilhava e a lua era cor de pérola.
Há essas coisas e aquilo que fomos nessas coisas. E a verdade é que quando a
poeira assenta nós temos saudades de tudo. Temos saudades das roupas, das
marcas, dos sorrisos, das alcunhas… Temos saudades de tudo porque um dia
tivemos tudo. E ninguém está preparado para ficar com nada depois de ter tido tudo. Quando
olho para trás consigo ver-me mais feliz que hoje. Quando olho para trás
consigo ver-me mais completo. Não ligues a tudo o que digo da boca para fora,
ou aos sorrisos que invento na urgência de me mascarar. Sabes, as aparências
iludem e aparentemente sou péssimo a disfarçar.
PedRodrigues