domingo, 9 de setembro de 2012

Breve introdução ao fim das coisas


Eventualmente tudo acaba. Nada fica como um dia foi porque tudo está sujeito a uma mudança. Tudo nos parece passageiro, porque tudo é passageiro. Um dia deixámos de ser dois estranhos e passámos a ser dois conhecidos. Um dia passámos a ser mais que conhecidos: fomos amantes, cúmplices, compinchas, comparsas, companheiros de crimes de cabeceira. Hoje somos o pó que sobrou dessa luta. Tudo se transforma, a verdade é essa. No dia em que as coisas acabam rastejamos cada um para o seu lado conscientes que temos toda a razão do mundo. Esperneamos, esbracejamos, berramos bem alto, choramos de raiva. As coisas acabam, mas nunca acabam por nossa culpa. Passamos a batata quente para o outro lado. Não queremos saber de nada, nem de ninguém. Fechamo-nos em insultos vãos. Achamos que estamos melhor assim, mas nunca estamos.  Temos medo. Não temos medo de ficar sozinhos. Não temos. O nosso medo é o medo da superação. Temos medo que avancem sem nós. Encaramos a situação como um jogo e como bons jogadores que somos, temos medo de perder. Mas há coisas que vão ficando connosco e não nos deixam avançar. Mudamos o nome da lista telefónica, esperançosos que isso nos ajude nessa jornada. O que um dia foi a alcunha amorosa, hoje é o simples nome: seco, sem chama, mortiço. As mensagens que um dia foram o motivo de maior orgulho, hoje são apenas recordações dolorosas. Apagamos tudo, mas nem tudo permanece apagado. Há marcas que continuam vibrantes na carne, há roupas que teimam em aparecer nas gavetas, há tudo aquilo que sobra daqueles dias em que o sol brilhava e a lua era cor de pérola. Há essas coisas e aquilo que fomos nessas coisas. E a verdade é que quando a poeira assenta nós temos saudades de tudo. Temos saudades das roupas, das marcas, dos sorrisos, das alcunhas… Temos saudades de tudo porque um dia tivemos tudo. E ninguém está preparado para ficar com nada depois de ter tido tudo. Quando olho para trás consigo ver-me mais feliz que hoje. Quando olho para trás consigo ver-me mais completo. Não ligues a tudo o que digo da boca para fora, ou aos sorrisos que invento na urgência de me mascarar. Sabes, as aparências iludem e aparentemente sou péssimo a disfarçar.

PedRodrigues 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Croniquinha feita de dúvidas


Não consigo. Juro que não consigo. Aliás, não entendo. Juro que não entendo. Que queres que faça? Queres que sorria? Que queres que te diga? Preferes que te minta? Não consigo. Apetece-me escrever e não consigo. Apetece-me dormir e dou voltas na cama até adormecer por segundos e acordar sobressaltado com um barulho qualquer. Que queres que faça? Tento apagar-te. Tento apagar-nos. Está tudo bem. É tudo muito bonito. Acabámos, é um facto. Cada um para seu lado. Cada um estilhaçado para o seu lado. Cada um no seu canto a lamber as suas feridas. Ninguém nos pode tirar o mérito. Tentámos. Levámos as coisas até onde pudemos. Caminhámos lado a lado e fomos construindo o nosso caminho. Fizemos a nossa cama e deitámo-nos nela. A vida foi bonita enquanto estivemos bem. A vida continua bonita agora que não estamos. Cabe a cada um de nós abrir os olhos. Cabe a cada um de nós acordar. A vida continua bonita mesmo quando não estás comigo. Mas que queres que faça? Continua bonita, só isso. Continua a passar por mim e continuo a vê-la passar cá do meu canto. Sinto-me indestrutível por dentro, enquanto o mundo se desmorona lá fora. A verdade é que me sinto feito de ferro. A verdade é que até o mais forte dos ferros acaba por vergar com o tempo. O tempo pesa, mas o tempo demora. E neste momento tu ainda dóis bastante. Bastante, mesmo. Juro que não entendo como seguiste em frente sem mim. No meu canto o tempo passa com os segundos, e os segundos duram eternidades – que o digam os minutos. Não consigo. Juro que não consigo. Ainda tentei escrever algo alegre, mas é difícil esquecer os males que nos atormentam. Especialmente quando esses males dormem connosco, jantam connosco, almoçam connosco. É difícil. Não sei como conseguiste seguir em frente. Não sei se o tempo acelera quando lhe pedes. Um dia julguei que eras tu que controlavas o tempo. E nesse dia senti-nos indestrutíveis, enquanto o mundo teimava em desmoronar-se à nossa volta.

PedRodrigues

sábado, 1 de setembro de 2012

O que fazer quando tudo acaba?


Passou pela loja e comprou uma garrafa de whiskey barato. Tirou a gravata e desapertou o botão do colarinho. Deixou-se ficar no carro a ver o sol esconder-se atrás do mar, afogando os minutos em goles incansáveis. Os últimos turistas saíam da praia de sorriso rasgado no rosto e isso inquietava-o. A felicidade deles inquietava-o.
Não se julgava com pressa de chegar a casa. Aliás não se julgava com pressa de nada. Ainda conseguia ouvir as palavras do patrão

-Sente-se, sente-se. Quer tomar alguma coisa?

Ao entrar no gabinete. Em vinte e tal anos de serviço nunca havia sido chamado uma vez sequer. Nem uma mancha no currículo. Tudo sobre rodas, tudo nos conformes: entrava às nove, saía às cinco, ao almoço comia a correr e às vezes nem almoçava, se fosse preciso. Nunca havia sido chamado por coisa alguma até àquele fatídico dia.

-Lamento informá-lo…

Nada de bom é dito com tais palavras. A última vez que as ouvira, a mulher tinha sofrido um acidente de carro e estava em coma no hospital. Nada de bom poderia resultar dali. Sentia o ar a ser-lhe sugado lentamente dos pulmões. Ninguém sabia do seu sofrimento constante. Da sua batalha incansável com os dias. Era uma pessoa calada, não fazia amigos com facilidade - não procurava fazê-los. Sempre se sentira preso numa máquina de criar solidão. Todos aqueles que o amavam acabavam por desaparecer, de maneira que se escondia do mundo com medo que o mundo lhe fosse roubado. A vida é assim, pensava ele. E que vida era aquela. A única coisa que o impedia de se autodestruir acabara de lhe ser retirada. Desde os vinte anos que trabalhava ali.

-Espero que tudo corra pelo melhor.

Mas que poderá correr melhor quando tudo está destinado a correr mal? Não há subidas quando a vida é a descer. Que faria ele? A mulher em coma no hospital, nem um sinal que iria acordar. Vivia todos os dias com medo que

-Lamento informá-lo, mas a sua mulher não vai acordar

Ela desaparecesse por completo. O sol começava a apagar-se atrás do mar. As ondas desmanchavam-se de bruços na areia e ele sentia-se feito de ar a cada gole na garrafa. No pontão um pescador lutava com a cana de anzóis vazios. A vida acabava-se lá fora a cada segundo que passava. Desligou o telemóvel e deixou-se ficar na vontade de desaparecer com o sol. Fechou os olhos por um instante à procura de respostas entre os espectros de luz no meio da escuridão. No meio do silêncio da orquestra da beira-mar conseguia ouvir uma voz desdenhosa

-Lamento informá-lo, mas…

O pescador olhava-o atrás do vidro. E de cigarro a bailar nos lábios, com um balde vergado pelo peso dos peixes, continuou

-Acho que chegou ao fim da estrada.

Não é que tinha razão?

PedRodrigues

(Crónica do mês de Setembro na revista Algarve Mais)