segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A síndrome de Peter Pan


Um dia crescemos. Um dia esquecemo-nos dos arco-íris e dos foguetões e das estrelas e dos desenhos-animados que passavam na manhã de Sábado. Guardámos tudo num baú e seguimos em frente com a nossa vida. De repente apareceram as miúdas: o primeiro beijo, as primeiras gargalhadas, as primeiras carícias. Depois as miúdas cresceram e tornaram-se raparigas: vieram os primeiros dramas, os primeiros desgostos, as primeiras vontades suicidas e homicidas que julgamos fazer em nome do amor. Nessa altura julgávamos já ter visto tudo, já ter sentido tudo, já estarmos acima de todas as coisas do passado. O amor não tinha segredos para nós. Amar era tão simples como respirar. Nesses dias o amor passeava-se pelas pedras da calçada: em cada olhar indiscreto, ou em cada saia subida. Os primeiros decotes faziam tanto sentido como o amor. Amávamos como amávamos aqueles decotes. As raparigas eram tão simples, mas tão psicóticas: queriam o amor, mas não queriam os rapazes. Naquele tempo, em que para nós o amor era tão simples, amar no sentido feminino da expressão tornava-se na mais terrível das dores de cabeça. As raparigas não queriam os rapazes. As raparigas sonhavam que os rapazes fossem homens. Enquanto que nós, o lado masculino da coisa, sonhávamos ser os mesmos meninos, reformulo: os mesmos miúdos dos primeiros beijos, ou até do Sábado de manhã no sofá, em frente ao ecrã da televisão. Custa-nos crescer, mas lá vamos crescendo e metendo tudo no mesmo baú. Acabamos por esquecer as miúdas e as raparigas e chegamos à conclusão que precisamos de uma mulher. Por vezes demoramos eternidades, mas ninguém nos pode condenar. Somos bichos teimosos; somos bichos cegos; somos bichos lentos. Sofremos da síndrome dos meninos perdidos da terra do nunca. Mas acreditem em mim quando vos digo que acabamos por crescer. Um dia todos nós precisamos de entender o amor. Um dia todos nós precisamos de uma mulher que nos ensine o que é o amor. As miúdas e as meninas e as raparigas acabam por um dia ficar no baú. É impossível doirar a pílula para sempre. Os primeiros amores são algumas das mais bonitas recordações que guardamos, mas nada chega aos calcanhares de um grande amor. Nada chega aos calcanhares do amor que é para a vida: na saúde e na doença, até ao final. Alguns de nós demoram eternidades a entender isto, mas não nos levem a mal. A nossa bússola amorosa é um instrumento complicado: nem sempre o Norte está no sítio certo. Às vezes julgamos que a felicidade é maior se nos esquecermos do tempo e do mundo e das mulheres. Somos, de facto, um bicho fodido. Mas até o mais fodido dos bichos necessita de amor. Se nos acharem dignos: amem-nos pelo homem que somos – e não pelo menino que julgamos ser. Se realmente formos dignos: amar-vos-emos como se deve amar: com o coração e as tripas de fora. Todos acabamos por crescer. Acreditem. Não tenham pressa em nos amar.

PedRodrigues

sábado, 6 de outubro de 2012

À minha futura namorada...


Não sei quem és. Não sei onde estás. Não sei nada sobre ti. Talvez já te tenha visto por aí. Talvez tenha esbarrado contra ti numa esquina qualquer. Talvez tenhamos partilhado olhares, ou até mesmo um ou outro sorriso. Não sei se já falei contigo, ou se virei a falar contigo brevemente. Quem me garante que nunca te toquei? Quem me garante que nunca olhaste para mim secretamente? Às vezes gostava de poder rever a minha vida. Sinto sempre que me escapou alguma coisa. Vivemos tão depressa. O tempo foge-nos pelos dedos. O mundo aparece e desaparece à nossa volta e não damos conta. Às vezes gostava de parar o tempo. Às vezes sonho que o tempo pára e eu te encontro. Onde estás? Quem és? Quando vens?
Sabes, sou um poço de confusões. Sou profundamente defeituoso. Consigo ser uma catástrofe humana, um parque de diversões psicótico e toda uma panóplia de coisas estranhas que tu talvez não consigas imaginar. Como todos os homens, sou péssimo quando adoeço. Entro em prantos desmedidos quando as gripes me batem à porta e sonho com apendicites agudas quando me dói a barriga. Tenho a mania de falar enquanto durmo, mas felizmente não ressono. Não ligues se às vezes parecer ausente: estou apenas a escutar a vida que me rodeia e as vozes que não se calam na minha cabeça. Detesto que me interrompam enquanto escrevo, mas para ti abrirei uma excepção. Não sei se sabes isto sobre mim, mas adoro escrever sobre aqueles que amo. Um dia, se estiveres disposta, escreverei para ti. Escreverei sobre o nosso amor e aquilo que poderá ser o nosso amor. Nunca censures os meus sentimentos. Gosto de amar com as tripas de fora – aliás, quem ama, ama com as tripas de fora. Gosto de me deixar no papel: em cada letra, em cada vírgula, em cada ponto. Se me permitires, escrevo-te de mãos dadas comigo em todos esses textos. Não te prometo os grandes gestos utópicos dos filmes de Domingo à tarde. Prometo-te os pequenos gestos. Aqueles simples, mas reais e honestos: puxar a cadeira para te sentares, olhar-te sempre com ternura, fazer-te sorrir quando o mundo pede que chores, beijar-te ao adormecer e beijar-te ao acordar. Prometo-te tudo o que posso prometer. E no entretanto entre essa promessa e a realidade, prometo ficar a ver-te crescer em mim, enquanto eu me vou incrustando em ti.
Vou ser sincero contigo: hoje o meu coração está feito em pedaços. Se realmente estiveres disposta a embarcar nesta viagem comigo terás de colar todos os bocadinhos. Não será fácil. Acredita em mim quando te digo: não será fácil. Conheço demasiado bem o meu coração. No entanto, se realmente fores digna, se realmente fores a metade certa, não desistirás de o fazer. Há uma coisa que sempre disse: o amor não foi feito para aqueles que desistem. Aliás, o amor é um sentimento que gera uma sensação de eternidade. E nessa eternidade o mundo pode parecer-nos estranho, mas nós estaremos sempre certos um para o outro.

Quem és?
Onde estás?
Quando vens?

Ainda não te conheço, mas já te escrevo.

Pedro 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O dia em que quis vender o meu coração


No dia em que meti o meu coração à venda percebi que ele vale pouco ou quase nada. Disseram-me que os corações partidos não valem tanto como os outros.

-Quem quer uma coisa partida?

 Mostraram-me as modas atuais: os corações de pedra, os corações de ouro, os corações à prova de bala, e toda uma infinidade de derivados do coração que eu desconhecia totalmente. Expliquei-lhes que o meu não era de ferro, que não era de ouro, que não era à prova de bala e que sangrava como os outros. Riram-se de mim.

-Quem quer uma coisa estragada?

A verdade é que ninguém quer um coração estragado e eu não quero o meu coração. Não o quero. Aleija-me, magoa-me, mói-me, irrita-me. Estou farto do meu coração. Juro que estou farto. Parece que não aprende. Aliás, não aprende mesmo. Bate por tudo e por nada e às vezes acelera sem razão aparente. Acelera, acelera, acelera… Até ao ponto em que fatalmente acaba por se despenhar. Depois estilhaça-se por todo o lado: um bocado ali, outro bocado acolá e eu a apanhar os cacos. A colar tudo de novo. A colar tudo como se desta vez fosse para sempre. Nunca é.
Um dia destes falaram-me de alguém que plantava corações.

-Ninguém planta corações

Todos plantamos corações, mas nem sempre nascem os amores que queremos. Há quem os plante em conjunto e os deixe crescer em conjunto e durante esse processo os corações amam-se. Não há nada mais belo que um coração cheio de amor. Não há nada tão doloroso como um coração partido por amor. Às vezes esquecemo-nos que para dar o nosso coração, temos de receber um coração em troca. Nem todos estamos preparados para ver as coisas como elas são. Mas o mundo está aí, está à vista de todos e mesmo assim teimamos em olhar para ele e não o ver. Os nossos corações são tão cegos como os nossos olhos. Gostamos de acreditar no amor cego. E que amor será mais cego que o amor das coisas belas? O amor que é Amor vem do coração, mesmo dos corações que estão estragados, despedaçados, partidos, ou estilhaçados. O amor vem maior desses corações.

-Quem quer um coração desfeito?

Ninguém quer um coração desfeito, mas a verdade é que o mundo é feito de corações desfeitos. Até os corações de ferro um dia acabam por enferrujar. Um dia o meu coração partido será um coração chagado e nesse dia estarei disposto a deixá-lo acelerar de novo. Hoje estou fulo, irritado, mal-humorado. De maneira que hoje apetece-me vender o meu coração. Ele até pode não valer muito, pode até não valer nada, pode não ser de ferro, ou de ouro, ou outra coisa qualquer, mas não o vendo ao desbarato. O nosso desejo de amor é insaciável, mas nem por sombras ofereço (novamente) o meu coração.

PedRodrigues

(Crónica da edição de Novembro da revista Algarve Mais)