No
outro dia enquanto mudava os lençóis da minha cama lembrei-me de ti. Lembrei-me
de ti porque vi um fio dos teus cabelos que teimava em incrustar-se no tecido.
Há dois meses que não mudava fosse o que fosse neste quarto. Tinha medo de
mudar-te. Tinha medo de mudar-te de lugar. Tinha medo. Mesmo sabendo que já não
estás. Mesmo sabendo que já não te importas. Mesmo sabendo que não sei o que é
feito de ti. Tinha medo. Mudava os lençóis e o meu coração saltava uma batida.
Mudava a mesinha de cabeceira e o meu coração saltava uma batida. Guardava as
nossas fotografias e o resto dos destroços da nossa relação e tu teimavas em
fazer o meu coração saltar uma batida.
Nesse
dia, ao falar com uma amiga, confessava-lhe
-Namorar
com ela era como andar numa montanha-russa
De
sorriso disfarçado entre as expressões de tristeza e indiferença que todos
evidenciamos nestas alturas. Ela olhava-me com ternura e repreensão. Dizia-me
-Não
sabes se lhe hás-de fazer o luto, ou correr-lhe novamente para os braços
E na
verdade não sabia. Continuo sem saber. Quando julgo que te esqueço, apareces-me
à frente e volta tudo à estaca zero. Tens a mania de te deixar ficar no meu
peito. Tens a mania de te demorar a sair. Tens a mania de me incomodar. Namorar
contigo era como andar numa montanha-russa. Era excitante, eufórico,
vertiginoso e apavorante. Não namorar contigo obriga-me a ressacar por ti. De
maneira que não sei o que será melhor. Não sei se te faça o luto e te enterre
debaixo de sete palmos de entulho amoroso, ou te corra para os braços e te peça
permissão para embarcar numa nova viagem.
-Não
sei que fazer. Juro que não sei que fazer…
A
minha amiga
-Consegues
imaginar uma vida inteira ao lado dela?
Eu,
de sobrolho em riste, a pensar nos prós e nos contras da questão
-As
montanhas-russas também cansam…
Por
muito que quisesse não te conseguia imaginar ao meu lado durante uma vida
inteira. Todos precisamos de estabilidade. Um dia a euforia esgota-se, a
excitação torna-se em cansaço e a vertigem torna-se demasiado grande para ser
suportada. Todos precisamos de um pouco de estabilidade. Todos precisamos de um
factor de equilíbrio. É irónico o amor. Nem sempre aquilo que desejamos é aquilo
que nos faz bem. Nem sempre aquilo que nos fascina é aquilo que nos faz ficar.
-As
montanhas-russas também cansam, e eu estou cansado
O
coração é irónico, tem-me dado o cérebro para equilibrar. Não sei se ainda te
amo, ou se tenho saudades de te amar.
PedRodrigues