segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Dois mil e treze


É dia onze de Dezembro e são vinte e uma horas e vinte e quatro minutos. Comecei esta crónica muito antes de me sentar à frente do computador, mas a verdade é que as palavras me pareciam tontas e teimavam em não querer fazer sentido. Continuam a não querer fazer sentido, mas eu teimo em querer escrevê-las. Quando lerem este texto já estaremos num novo ano. Espero ansiosamente pelo momento da viragem. Dois mil e doze foi um ano agridoce. Achei que me tinha encontrado, acabei por me perder novamente e, no meio de todo esse processo, continuei a escrever compulsivamente cada capítulo da minha vida. Há sempre pessoas que teimam em ir e vir, em aparecer e desaparecer, em crescer até se desmancharem como ondas na areia. Há pessoas que ficam e essas é que contam. Sou o produto de uma geração que vive muito depressa – demasiado depressa. Há uma sede inesgotável de conhecer o desconhecido. Há uma vontade que se contrapõe à própria vontade e isso às vezes atrapalha-nos. Foi um ano agridoce a vários níveis, mas foi um ano feliz no papel. Amei, fui amado, continuo a ser amado, tenho uma família que me ama, amigos que me amam e eu amo-os a todos. Sou feliz, mas podia ser ainda mais feliz. Sofro desta ganância saudável de querer mais e melhor. Todos os anos desejo o mesmo: saúde, sucesso e amor. A vida tem sido generosa comigo. O mundo dá-me com uma mão, tira-me com outra e é dessa forma que vou crescendo e tornando-me naquilo que sou. Nem sempre o vento sopra a favor, mas é no meio das adversidades que entendemos o verdadeiro valor das coisas. Às vezes temos de descer ao inferno para melhor compreendermos o céu. É assim que vou sendo aquilo que sou. A escrita tem sido o meu refúgio. Quando escrevo, o mundo deixa de existir nos meus olhos e passa a existir nas palavras. Sou estranho: oiço vozes que mais ninguém ouve, conheço pessoas que mais ninguém conhece. Sou feito de sonhos e vontades. Talvez por isso apenas me sinta completo quando estou no meio das letras. Este ano, naqueles dez segundos que antecedem a tão esperada viragem, vou fechar os olhos e pedir o mesmo que peço todos os anos: saúde, sucesso e amor. Não vou pedir mais, – não tenho esse direito – nem menos. O que tiver de acontecer, acontecerá. Mas nada acontece só por si. Terei de trabalhar como tenho trabalhado até aqui. A ideia será sempre a mesma: ser mais e melhor. Eu acredito ter condições para ser mais e melhor. Todos temos. Que não nos falte o tempo. Que não nos falte o chão para pisar. Que não nos falte a vontade de continuar. Dizem que o mundo poderá acabar daqui a dez dias, mas se isso não acontecer

-Encontramo-nos por aí…

(Feliz ano novo a todos os que me lêem.)

PedRodrigues

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Crónica(?) ao espelho: adeus dois mil e doze, olá dois mil e treze


Onde andaste tu?
Onde andas tu?
Para onde vais?
Qual é o motor que te move?

Falas de tantas coisas. Escreves que te desunhas. Mordes os lábios quando o texto teima em não se formar. Sofres. Sofres tanto.

Que dor é essa?

Acreditas no amor. Acreditas que o amor é a cura para todos os males. Amaste. Amas. Continuarás a amar. Amas mesmo. Amas mais. Lutas até caíres e, quando cais, teimas em levantar-te – sempre. Esmurras o chão, abres o peito, gritas. Gritas até que a voz te falhe, e mesmo sem voz continuas a gritar – mudo. Ouves baladas de amor durante as viagens de carro e de comboio. Olhas pelo vidro e sonhas que o amor é fácil. Iludes-te. É normal. Todos nos iludimos uma vez por outra. Todos sonhamos que os amores nascem nas árvores. Todos sonhamos que podemos plantar o amor, regar o amor, ver o amor crescer. Todos sonhamos - e tu tens tantos sonhos. Sonhas com mulheres. Sonhas com uma mulher no meio de tantas mulheres. Mulheres de lábios vibrantes cor de sangue. Mulheres de olhos hipnotizantes cor de safira. Mulheres de cabelos de seda. Tantas, tão belas.

Onde andaste tu?
Onde andas tu?
Para onde vais?

Procura-te. Encontra-te. Perde-te. Segue de cabeça erguida. Não olhes para trás. O que passou, passou. Segue em frente. Não tenhas medo. Lembra-te: cada queda é uma oportunidade para te levantares. Não tenhas vergonha: todos caímos.

Qual é o motor que te move?

Dá o teu melhor. Dá o teu pior. Dá-te. Ri mais, chora mais, crê mais, ama mais. Sê mais. Deixa que te guiem. Deixa que te digam. Deixa que te oiçam. Permite-te estar no mundo. Sê esse mundo. Sê o mundo de alguém. Permite que alguém seja o teu mundo. Ninguém é especial sozinho – digo-te e repito-te. Somos aquilo que nos permitimos ser. Somos aquilo que nos permitimos ser aos olhos dos outros. Não acredites em olhos que mentem. Não acredites em bocas que falam sem saber. Ouve-te primeiro. Ouve o teu coração primeiro. Nem sempre estamos certos – mas nem sempre estamos errados. Ouve o teu coração. Ouve o coração dos outros. Há tanta coisa que nos escapa. Tantas madrugadas líquidas que se dissipam com as horas. Tantos dias de sol que nos passam despercebidos. Teimamos em deixar a vida passar por nós. Embarca na vida. Não tenhas medo.

Para onde vais?

Vai para onde te leva o amor. Mesmo que esse amor te pareça estranho. Sabes, temos toneladas de amor entre nós. E eu acabo por pensar que o problema é mesmo esse. São estas paredes que construímos com todo esse excesso que acabam por nos separar. O amor é esta coisa estranha. Em demasia pode matar e em escassez pode levar à loucura. Mas, na quantidade certa, é capaz de te fazer mover montanhas. Vai para onde te leva o amor.

Onde andaste tu?

Atravessaste o deserto onde te deixaram. Hoje estás mais maduro. Hoje estás mais feliz. Hoje estás a caminho das estrelas.

Segue em frente. Não olhes para trás.
Permite-te
Dá-te
Transforma-te
E, quando olhares para dentro de ti, serás o melhor que podes ser.
Acredita!

PedRodrigues


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Dez minutos para o fim do mundo


Estavam os dois sentados à beira do precipício e olhavam-se, cúmplices, como se tivessem vivido o suficiente para saberem todos os segredos um do outro. O mundo desmoronava-se a cada minuto que passava. Caía: uma pedra de cada vez, uma montanha de cada vez, uma pessoa de cada vez, um coração de cada vez. Faltavam dez minutos para o fim do mundo. Dez minutos para que tudo terminasse. Uma vida, um amor, uma jornada: em dez minutos tudo isso seria nada e todo esse nada não seria mais que esquecimento. O universo continuaria sem eles. O universo continuaria sem o amor deles. E como podia o universo continuar sem o motor que o movia? Um dia eles julgaram que o amor deles fazia continuar o universo. E talvez fosse realmente o amor deles - e o amor dos corações que amam - que continuava o universo. Naquele momento tudo o que ficou para trás sabia a pouco. Tudo o que fizeram sabia a pouco. Tudo o que ele queria

-Continuar-me

Tudo o que ela queria

-Continuar-me contigo

Tudo isso parecia pouco. Tudo isso era nada – ou viria a ser nada. Ali estavam eles: na beira do mundo, prestes a tornarem-se em esquecimento. Quem se iria lembrar deles? Quem se iria lembrar que um dia o amor deles existiu? Será que as memórias ficam gravadas nas estrelas? Seriam eles as próprias estrelas? Tantas perguntas. Tanta coisa que ficou por saber, por dizer, por descobrir, por inventar. Acabar com o mundo.

-Os amores deviam ser eternos, não deviam?

(Ela a aninhar-se no ombro dele. A sussurrar entre os cabelos.)

-Quem te garante que os amores não são eternos?

Na cabeça dele a pergunta dela não fazia sentido. Ele não acreditava na eternidade. Acreditava que tudo durava até um dia, mas acreditava também que as coisas são feitas da pequena eternidade que duram. Há eternidades nos segundos: o segundo de um beijo é eterno; o segundo de um amor é eterno. Tudo acaba um dia, mas tudo o que vale a pena, tudo o que nos faz realmente felizes, dura o tempo suficiente para nos parecer uma eternidade.

-Eras capaz de morrer por amor?

Ele

-Todos morremos por amor…

Eis a grande verdade do mundo e das coisas que existem no mundo: todos morremos por amor. Há sempre parte de nós que morre por amor - e por vezes essa parte acaba por ser um todo. O mundo rege-se pelas leis deste amor. Do amor que mata, que mutila, que estilhaça. Há corações estilhaçados por amor: mil pedaços perdidos pelo mundo. No segundo em que o mundo acabar, naquele derradeiro segundo, milhares de corações estilhaçados acabarão com ele. Todos morremos por amor. Todos morremos por amor. Todos morremos. Todos amamos. E, talvez por isso, todos tenhamos esta sensação de que somos eternos. Um segundo de amor. Basta um segundo. Somos eternos nesse segundo.

-São dez segundos de queda livre. Dez segundos para morrermos por amor.

Dez segundos separavam-nos da morte que mereciam. O amor deles acabaria ali. Depois do amor deles, acabaria o mundo. Ninguém se lembraria que um dia eles morreram por amor, mas naqueles dez segundos de queda livre, antes dos corpos se despenharem contra as rochas e se estilhaçarem como corações pelo mundo, eles seriam eternos. A memória do amor deles viveria até ao último segundo. Até ao último milésimo de segundo. Depois disso, o negro do universo encarregar-se-ia de os esquecer.

-Quanto tempo dura o amor?

(Ele apertou-lhe a mão com força, antes de se lançarem.)

-Por ti? Uma vida e dez segundos.

Acredito que, se a eternidade existisse, o amor deles seria eterno.

PedRodrigues