sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Conversa (estranha) com a minha confusão

 
-Não sei o que se passa comigo.
No espelho a minha imagem fragmentada entre os pingos de água gelada. As rugas e as olheiras das noites mal dormidas. Tantas dores perpetuadas nessas rugas e nessas olheiras. No espelho, eu. Aqui, diante do espelho, eu.
 
-Juro-te que não entendo o que se passa comigo. Há três noites que sonho com ela. Três noites em que acordo e sinto o vazio dela ao meu lado na cama. E o pior não é o vazio que ela deixou. São as imagens com que tento preencher esse vazio. Os cheiros que carregam essas imagens. Tudo. Tudo me lembra que um dia ela e eu, eu e ela fomos a primeira pessoa do plural.
 
(-Tens saudades dela? É isso?)
 
-Não sei. A verdade é que nesta coisa dos amores feridos mortalmente eu sou apenas mais uma vítima. Aqui me estendo. Aqui fiquei. Sabes, acho que por vezes confundimos as coisas – por vezes? Tantas vezes... Às vezes confundimos a saudade daquele amor que um dia partilhámos com aquela pessoa, a pessoa que julgávamos ser a metade certa, com o medo de vivermos o resto da nossa vida sem encontrarmos essa metade certa. Se me perguntasses, há um ano, se tinha saudades de algum dos meus amores passados dir-te-ia, com toda a firmeza do mundo, que não. Naquele momento, nenhum amor interessava a não ser aquele amor. Naquele momento tudo fazia sentido.
 
(-E hoje?)
 
-Hoje nada faz sentido. Hoje penso se um dia encontrarei alguém que compreenda a minha confusão. Ou que, pelo menos, não tenha receio de a partilhar comigo. Neste momento penso se haverá alguém que encaixe em todas as minhas imperfeições. Que entenda as cores do meu arco-íris. Que seja bela, como ela era, e ao mesmo tempo desafiante. Ainda há pouco ouvia a Spanish Sahara dos Foals e me lembrava dela. Foi ela que me mostrou a música pela primeira vez. Nesse momento em que os primeiros acordes começaram a tocar consegui vê-la debruçada sobre o meu computador, as luzes do quarto apagadas e os olhos dela a brilharem com a luz do ecrã. Consegui sentir o cheiro do champô dela. Juro que consegui.
 
(-Será que já a esqueceste, realmente?)
 
-Se te disser que a vejo em todo o lado, acreditas? Até as sobrancelhas desalinhadas eu consigo ver. Sim, que ela tinha aquela mania irritante de as arrancar compulsivamente com os dedos. Lembras-te?
 
(-Claro que me lembro...)
 
-Gostava de te poder dizer que, de facto, já a esqueci. Durante algum tempo julguei que sim. Mas acho que é bom que ela continue viva no meu pensamento. É algo que, apesar de parecer paradoxal, me dá alento. Uma lembrança de que um dia fui feliz ao lado de alguém, e que um dia poderei voltar a sê-lo.
 
(-Mas não tens medo que isso venha a ser apenas uma lembrança para o resto da tua vida? Não tens medo que essa tenha sido a tua última hipótese de seres feliz?)
 
 -Sabes, uma das coisas que mais me fascina na nossa vida é esta imprevisibilidade dos factos: o que hoje parece eterno, amanhã já acabou. É fascinante e ao mesmo tempo apavorante e trágico. É esta adrenalina de não saber o meu lugar no mundo, de não saber o plano que me está reservado, e ao mesmo tempo esta esperança, este crer, esta fé que tenho em encontrar a minha tempestade perfeita, que me faz continuar de sorriso no rosto.
(-Mesmo quando te lembras que há um ano estavas muito mais feliz que hoje?)
 
-Mesmo nesses momentos. Mais nesses momentos. Reinvento-me, descubro-me, entendo-me. Sou um ser em construção – como todos somos. Tenho os meus objectivos. As minhas batalhas particulares. Talvez daqui a um ano esteja feliz - bastante mais feliz. Talvez daqui a um ano esta fase seja só mais um capítulo de um livro. E eu sonho escrever livros, tu sabes disso.
 
(-Sei.)
Passo novamente as mãos pela cara. A minha imagem continua reflectida no espelho. Sorrio.
 
-Obrigado por me ouvires.
 
(-Lembra-te: nem quando estás sozinho, estás totalmente sozinho.)
 
A nossa busca pela tempestade perfeita, a metade certa, continua.
Onde quer que estejas, nós estamos aqui.
 
PedRodrigues

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Acerca de tanto escrever sobre o amor


-É como viveres uma vida inteira à procura de algo que nunca irás encontrar...

E a verdade é que ela tinha razão. Há coisas que procuramos uma vida inteira, coisas às quais dedicamos os nossos dias e as horas dos nossos dias, mas que, no final das contas, não encontramos. Há viagens sem rumo: talvez esta seja a minha. Talvez esta seja a minha tragédia pessoal. Todos temos as nossas tragédias pessoais. Todos partilhamos essas tragédias pessoais

-Quando partilho a minha tragédia ela parece-me menos grega

Somos como a chuva que se despenha no chão. Caímos e estilhaçamo-nos uns nos outros. Acontecemos uns nos outros ao acaso

-Tive a sorte de te conhecer

É um acto caricato, a nossa vida. Agimos e somos porque agimos. Agimos e conhecemo-nos porque agimos. Viver é um acto caricato. É uma sucessão de encontros casuais com o que nos rodeia. Somos ao acaso, mas não ficamos nas vidas uns dos outros por acaso. Quem fica sabe qual a razão de ficar. Somos como pingos de chuva numa poça: caímos uns nos outros aleatoriamente: uns de nós vão ficando, outros vão-se evaporando.

-Lembras-te de como nos conhecemos?

Ele lembrava-se perfeitamente: um amigo tinha-os apresentado por acaso. Ela achava-o demasiado sonhador. Ele achava-a demasiado céptica. Naquele momento podiam ter seguido cada um o seu caminho, mas não o fizeram. Ficaram, ficaram, ficaram e ficaram. Algo os obrigava a ficar. Algo lhe dizia que ela fazia parte da tragédia dele. Apesar de tudo o que os separava, havia algo que os unia. Essa era a busca dele. Essa era a viagem

-Por que razão escreves tanto sobre o amor?

-Porque não o entendo.

-Há assim tanto para entender?

Na verdade havia, há e continuará a haver muito para entender. O amor é um bicho de sete cabeças, é um anão com manias de gigante, – ou um gigante com manias de anão – é vilão e herói - no mesmo filme e na mesma cena. Como explicar o amor? Por que razão não escrever sobre o amor? Por que razão não lhe dedicar uma vida?

-É como procurares algo que sabes que nunca vais encontrar...

Mas, pelo menos, não posso dizer que não tento: todos os dias, a todas as horas, entre tantos outros assuntos, ele está lá e eu estou lá com ele. Amo o amor e odeio o amor – às vezes ao mesmo tempo. Talvez por isso

“Take the thing you love and make it your life”

Eu perca uma vida a tornar-me repetitivo, ou a andar às voltas. Na verdade, nem eu sei de onde um dia parti, ou onde um dia chegarei. Há viagens sem rumo: o amor é uma delas.


(E é um prazer partilhar convosco as crónicas desta viagem.)


PedRodrigues

sábado, 12 de janeiro de 2013

Poema sem número, nem título

Se partires, parte depressa.
Se ficares, demora-te por aqui.

 
Não é assim tão surpreendente
Não é assim tão absurdo.

 
Se me procurares, encontra-me.
Se me encontrares, surpreende-me.
Se me vires triste, abraça-me.
Se me abraçares, abraça-me com força.

 
Se puderes, continua.
Se for difícil, luta.
Se lutares, luta até te faltarem as forças.
Se te cansares, assegura-te que sabes para aonde vais.

 
Olha para ti. Olha bem para ti. És o produto daquilo que acontece.
Faz acontecer.

 
Se errares, volta a tentar.
Se tentares, obriga-te a vencer.
Se venceres, não te percas em orgulhos.

 
Continua a tentar.
Continua a vencer.
Segue em frente.
Não pares.
Quando lá chegares
Reinventa-te
Recomeça.

 
Recomeça comigo
Recomeça ao meu lado

 
Não é assim tão absurdo.

 

PedRodrigues