sexta-feira, 22 de março de 2013

Ana Isabel


É daquelas coisas que acontecem. Daquelas coisas que não têm explicação. Às vezes olhamos o mundo pela janela e tudo nos parece demasiado pequeno, demasiado fora do contexto mas, quem sabe, o universo tem um plano para nós. Há pessoas que nos surpreendem. Pessoas que aparecem sem aviso e que são uma lufada de ar fresco. Ela é uma dessas pessoas. É a brisa que teima em refrescar os dias mais mórbidos. É o sorriso pela manhã ao acordar. E o sorriso à noite ao adormecer. Apareceu. Ficou. Entranhou-se. É linda. Não tenho dúvidas que é.

 (-Ouviste? Não tenho dúvidas que és linda).

É feita de virtudes e defeitos. É humana, como todos devemos ser. É a peça que faltava – ou tardava em faltar. Está. E não é fácil estar. Acreditem que não é fácil. Nem sempre estamos onde somos precisos - às vezes somos tão precisos. Se pensar, posso dizer que é estranho. Mas a vida ensinou-me que o estranho é algo de bom. O estranho é melhor que o usual. Sempre abominei o usual. Gostar de alguém é um ato de ousadia. Gostar realmente de alguém requer muita coragem. É uma missão de sacrifício. Chamem-me mártir. Chamem-me masoquista. Chamem-me o que quiserem. Já não me interessa. Já não me diz rigorosamente nada. Não tenho dúvidas que às vezes tropeçamos no amor sem darmos conta. É, talvez, uma das coisas mais engraçadas da vida, esta imprevisibilidade dos factos. Li há pouco que um homem só é maior que o chapéu na sua cabeça quando está de braços no ar, e isso normalmente significa que está feliz – algo deste género. Chamem-me louco por andar de braços levantados. Chamem-me palerma, pateta, estúpido… Chamem-me o que quiserem, mas deixem-me ser feliz. Eu e ela podemos não estar juntos. Podemos até ser demasiado pequenos para sermos vistos do céu. Mas acreditem quando vos digo que, quando estivermos juntos, haverá fogo-de-artifício. Acreditem quando vos digo que eu e ela - juntos - podemos ser maiores que o próprio céu. É isto que separa os loucos, os estranhos, os que não sabem o que dizem ou pensam, de todos os outros. Nós somos mais felizes. Nós acreditamos num mundo feito de amor.

És linda
És vida
És assim
És um mundo
És tudo
E eu gosto muito de ti

(Já acreditas em mim?)

PedRodrigues

sexta-feira, 15 de março de 2013

Crónica desinspirada


É esta teimosia tua em aparecer quando não deves; esta vontade de me atormentares sem aviso prévio; este ressuscitar sem convite. É tudo isso que me faz ferver o sangue. Ando mais magro, nervoso e irritadiço. Quando julgo que te esqueci, apareces vinda sei lá de onde. Às vezes numa fotografia que andava perdida pelo computador, outras vezes nas atualizações das tuas amigas. Apareces sempre a sorrir – o habitual em ti. Apareces linda: de lábios vibrantes e iluminada por uma luz hipnotizante. Dou por mim a lamentar-me

-Já me esqueceu…

Fechado em copas a olhar-te à lupa. À procura de não sei muito bem o quê. Ao que parece já me esqueceste – e estás no teu direito. Há meses que não te vejo: desde que tudo terminou naquela tarde de Agosto. Minto: vi-te uma vez, à noite, em Setembro. Andavas no teu jeito habitual: a cambalear nas incertezas da calçada – e do destino. A vida tem o condão de separar aqueles que não têm força suficiente para seguirem juntos a sua corrente. Acho que nós não conseguimos fugir  à regra. Lutámos, sei que lutámos, mas acabámos por perecer. Sempre fomos uma espécie de bombas relógio, cada um à sua maneira. Não me lembro do momento exacto em que explodimos, mas o facto é que aqui estamos: estilhaçados, partidos, mutilados, cada um no seu canto.
Hoje, neste momento

-Sou apenas uma memória…

Apenas uma memória. Estranhamente não me importo se sou uma boa memória ou uma má memória. Sou uma memória, ponto final. Acho que é isso que me irrita. Irrita-me pensar que já não faço parte do teu dia a dia. Irrita-me pensar que as minhas fotografias, ao contrário das tuas, não teimam em aparecer do nada. Irrita-me este ligeiro egoísmo que sinto sempre que te imagino a partilhar os olhares, as carícias, as palavras com outra pessoa. Irrita-me tudo o que me leva a ti, porque, no final das contas, és um caminho sem saída. Uma estrada que vai dar a lugar nenhum. Irrita-me que depois de tudo o que passei ainda me faça confusão imaginar as tuas gargalhadas. Irrita-me que me irrites, isso sim. Até porque já chega de seres esse monstro no armário que teima em sair quando eu teimo em não adormecer. Já chega de seres o alerta amarelo e laranja e vermelho que me abala os nervos. Já chega.
E é talvez por sentir que já estou farto deste cabo das tormentas que começo a navegar para novos mares. Começo a redescobrir o caminho para a Índia do meu coração. A verdadeira Índia do meu coração. É talvez por isso que diga

-Estou apaixonado

Alto e em bom som, para que todo o meu corpo oiça. É talvez por isso que me encontro numa nova jornada. Uma jornada em que o amor é a única resposta. A única resposta. É este o lado poético da vida: a cada falsa partida, há uma nova oportunidade. Deve ser por isso que ainda vou sorrindo estupidamente. Talvez um dia a memória sejas tu. Acho que hoje a memória és mesmo tu.

(Deixa-me gritar bem alto
-Estou apaixonado!)

PedRodrigues

quinta-feira, 7 de março de 2013

Croniquinha dos dias de chuva


Os dias de chuva têm destas coisas: quando estamos sozinhos parecem-nos infinitamente deprimentes, quando os partilhamos com alguém parecem a coisa mais romântica do mundo. Talvez sejam mesmo a coisa mais romântica do mundo. Partilhar os dias de chuva não é algo que se faça de ânimo leve. É preciso coragem, dedicação, paciência, carinho, ternura. Tudo isto em doses industriais. Nunca em pequenas quantidades. Atravessar tempestades – juntos – não é para todos. Deveria ser, mas não é. Ainda me lembro desses dias em que a chuva fazia sentido. Hoje, nem por isso. Hoje estou para aqui sozinho a recordar. Acho que acordei sem cor – como o tempo. Faltam-me os abraços, os sorrisos, o calor. Há lá coisa mais romântica que os dias de chuva partilhados com alguém que se ama? Há lá silêncio mais reconfortante que o dos olhares partilhados ao ritmo de cada pingo? Adoro e odeio estes dias de chuva. Adoro e odeio quando recordo outros dias de chuva. Talvez por isso esteja para aqui a sorrir estupidamente enquanto vou sentindo uma dor fininha no peito. Os dias de chuva têm destas coisas. Hoje, são dias confusos. São dias de tempestades interiores. O que vale é que depois da tempestade costuma vir a bonança. Quem me garante que amanhã não será um dia de sol?

PedRodrigues