domingo, 25 de dezembro de 2016

Desabafo

E tu carregas no botão, como que tentando retroceder para um lugar que já foi teu, onde julgas ainda pertencer. Acabas sempre por lá voltar, como um pássaro teimoso que, mesmo estando longe muito tempo, acaba sempre por regressar. E mudas de roupa, mudas de casa, mudas de canal, mudas de vida, mudas de supermercado, mudas de código postal, mudas de hora, mudas de mês, mudas de ano… Mas não mudas de coração, não mudas de amor. E ouves músicas no Youtube, que deviam ter a advertência baseada em factos reais, por serem a melodia das tuas tragédias. E na televisão dão filmes em que no final todos vivem felizes e tu chateias-te com os filmes porque são sempre a mesma treta e apetece-te gritar: é tudo mentira. Mas estás tão cansado de tudo e todos que nada dizes: eles que descubram sozinhos. E acabas a pensar que o tempo te azedou, como um vinho fraco. Então olhas para cima, para o tecto, desejando as estrelas, a lua, ou apenas um lugar distante onde pudessem sentir a tua falta. Talvez te escrevam um poema, e quem te ama o leia vezes sem conta, para que possas estar mais uns momentos. Somos tão pouco tempo. E não há botão para retroceder aos lugares onde fomos felizes. A vida é mesmo assim, e entramos nela como quem entra numa rua em sentido contrário, com medo do que vem de frente. E danças ao volante, desviando-te dos perigos. Ou talvez não seja nada disto, e tudo o que precisas é fechar a página, fechar o computador, fechar os olhos, fechar o passado numa gaveta qualquer e ir - simplesmente, ir. Porque no fundo a vida é mesmo assim: vamos indo - eventualmente acabamos por chegar ao nosso destino. 


PedRodrigues

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Teoria da Relatividade para totós



 

E se o tempo é relativo
como explicam os físicos
a morte de Einstein?
Teria, ele, o relógio estragado?

 

PedRodrigues

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Esperança, o último texto de Novembro


Sabes o mais engraçado? No outro dia encontrei o postal de Natal que me deste no ano passado. Estava dentro do “os transparentes” do Ondjaki. Foi uma daquelas coincidências macabras a que muitos chamam destino. Não sei se foi ou não.  Talvez haja realmente uma força dinâmica qualquer que nos empurra uns para os outros e mexe certas peças, em certos momentos. Isso pouco importa. O facto é que ele lá estava, guardado religiosamente dentro daquele livro. Estava lá de forma a recordar-me de ti e da página onde tinha ficado. Passou praticamente um ano. Onze meses e uns dias, para ser mais exacto, que nestas coisas a precisão é importante. Onze meses desde que escreveste “o próximo ano será ainda melhor, porque as pessoas boas merecem ser felizes” (estou a citar-te de memória, por isso posso ter falhado em alguma palavra). No dia em que escreveste esta frase fazias planos de um futuro ao meu lado, um futuro com mais de onze meses, creio. Mas o tempo passa e, pelos vistos, as pessoas cansam-se e desgastam-se. Não sei se deixei de ser bom, ou se o destino, ou a tal força dinâmica, se encarregou de nos afastar para que pudéssemos sentir a falta um do outro. Se assim foi, agradeço que ela acabe com a brincadeira, porque realmente as saudades são imensas e o coração parece apertar cá dentro. Não sei se sentes da mesma forma. Os meus postais, ou as minhas dedicatórias nos teus livros sempre foram frouxas. Talvez tivesse medo que te apaixonasses por elas, pelo Pedro que escreve, o que todas imaginam ser um príncipe encantado, e depois te apercebesses que o Pedro é de carne e osso e muita confusão: com muitos defeitos e algumas virtudes. Embora nunca te tenha dito, escrevi muito para ti, e sobre ti. Como podia não o fazer? A nova versão do livro trará o teu capítulo. A dedicatória que mereces. O teu espaço continua guardado: dentro dos livros e dentro do peito. Já disse e repito: se puderes, não demores.

 

PedRodrigues