segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Páginas

O livro aberto numa página aleatória

Riscaste algumas frases, 
como quem marca
o terreno por onde passa
com medo de se perder
e não saber o caminho de volta
Ou talvez fosse apenas um apelo,
um pedido aos meus olhos
“estou aqui, vê se me encontras”
e eu vasculhava com atenção
como um detective privado
em busca da solução de um caso complicado

Entre as folhas o teu cheiro,
algumas lágrimas a esborratarem 
as palavras, e eu sem saber
o teu paradeiro.
Não sou um bom detective, amor
Deixaste-me as pistas,
mas eu não as consegui ler
Se puderes, segue as linhas
que riscaste. 

Prometo-te que ainda não virei a página.


PedRodrigues

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Nem às paredes confesso (?)

Um dia sentas-te para escrever, mas nada parece fluir. Nem o sangue parece querer abandonar o coração; nem a luz do candeeiro parece querer iluminar as folhas amarelas do caderno; nem a música parece querer fazer a mão dançar. E olhas para o imenso vazio da parede à tua frente, como que pedindo algum tipo de ajuda. Ela não te responde porque, ao que parece, as paredes são peritas em guardar segredos. 
A lista de reprodução continua a avançar, e algumas músicas fazem-te recordar outros tempos: a memória é uma coisa danada, e por mais caixas que feches, por mais portas que tranques, há sempre algo que se escapa, algum fragmento que acaba por percorrer todo o teu corpo, e às vezes é chorado, ou gritado para as paredes. 
Do lado de fora a cidade continua a seguir o seu ritmo citadino, com barulhos de ambulâncias, e outras coisas urgentes. As árvores preparam as suas copas para a tempestade. Não a parecem temer. Sabem que têm raízes fundas que as prendem ao chão. E por mais agreste que o Inverno seja, acabarão por florir na Primavera. Talvez seja esta a metáfora que precisava para entender este sorvedouro que trago por dentro. Tenho de aprender a viver na tempestade, como as árvores. Sem medo. Mesmo que o passado. Mesmo que os fantasmas, ou os estilhaços de outros amores. Mesmo que o mundo. E as paredes sabem a área certa do meu sorriso. O segredo é esse: no silêncio, todas as vozes se destacam. 


PedRodrigues

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Ela [2017]

Disse-lhe: “as melhores pessoas são as que falam sem filtros, as que dizem o que pensam, as que gritam as tripas para fora”. São as espontâneas, porque a mentira necessita de tempo. São as que estão partidas por dentro, mas não esperam que alguém as repare. São os relógios que não dão a hora certa - porque não há hora certa para amar; não há hora certa para ser feliz; não há hora certa para fugir, ou chegar. As melhores pessoas são essas: as que não necessitam de reparação, de acertos, de filtros na garganta. São as que não se demoram em explicações ou histórias. São as que não nos pedem para apagar ou esquecer o passado, mas que nos ensinam a aceitá-lo, como parte das nossas fundações. São as que não nos exigem um futuro, por saberem que o depois tem muitas portas - e todos devemos ter o direito de escolher qual queremos abrir. São as que percebem que nem sempre o horizonte é uma linha recta. E que no infinito todas as linhas acabam por se encontrar. São as que se perdem nos nossos olhos, como se contassem constelações e pudessem inventar galáxias. São as que brilham nessas noites longas, que por vezes parecem não terminar. São essas as pessoas que me fascinam. Ela era uma dessas pessoas.


PedRodrigues