Um dia sentas-te para escrever, mas nada parece fluir. Nem o sangue parece querer abandonar o coração; nem a luz do candeeiro parece querer iluminar as folhas amarelas do caderno; nem a música parece querer fazer a mão dançar. E olhas para o imenso vazio da parede à tua frente, como que pedindo algum tipo de ajuda. Ela não te responde porque, ao que parece, as paredes são peritas em guardar segredos.
A lista de reprodução continua a avançar, e algumas músicas fazem-te recordar outros tempos: a memória é uma coisa danada, e por mais caixas que feches, por mais portas que tranques, há sempre algo que se escapa, algum fragmento que acaba por percorrer todo o teu corpo, e às vezes é chorado, ou gritado para as paredes.
Do lado de fora a cidade continua a seguir o seu ritmo citadino, com barulhos de ambulâncias, e outras coisas urgentes. As árvores preparam as suas copas para a tempestade. Não a parecem temer. Sabem que têm raízes fundas que as prendem ao chão. E por mais agreste que o Inverno seja, acabarão por florir na Primavera. Talvez seja esta a metáfora que precisava para entender este sorvedouro que trago por dentro. Tenho de aprender a viver na tempestade, como as árvores. Sem medo. Mesmo que o passado. Mesmo que os fantasmas, ou os estilhaços de outros amores. Mesmo que o mundo. E as paredes sabem a área certa do meu sorriso. O segredo é esse: no silêncio, todas as vozes se destacam.
PedRodrigues
