quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Nem às paredes confesso (?)

Um dia sentas-te para escrever, mas nada parece fluir. Nem o sangue parece querer abandonar o coração; nem a luz do candeeiro parece querer iluminar as folhas amarelas do caderno; nem a música parece querer fazer a mão dançar. E olhas para o imenso vazio da parede à tua frente, como que pedindo algum tipo de ajuda. Ela não te responde porque, ao que parece, as paredes são peritas em guardar segredos. 
A lista de reprodução continua a avançar, e algumas músicas fazem-te recordar outros tempos: a memória é uma coisa danada, e por mais caixas que feches, por mais portas que tranques, há sempre algo que se escapa, algum fragmento que acaba por percorrer todo o teu corpo, e às vezes é chorado, ou gritado para as paredes. 
Do lado de fora a cidade continua a seguir o seu ritmo citadino, com barulhos de ambulâncias, e outras coisas urgentes. As árvores preparam as suas copas para a tempestade. Não a parecem temer. Sabem que têm raízes fundas que as prendem ao chão. E por mais agreste que o Inverno seja, acabarão por florir na Primavera. Talvez seja esta a metáfora que precisava para entender este sorvedouro que trago por dentro. Tenho de aprender a viver na tempestade, como as árvores. Sem medo. Mesmo que o passado. Mesmo que os fantasmas, ou os estilhaços de outros amores. Mesmo que o mundo. E as paredes sabem a área certa do meu sorriso. O segredo é esse: no silêncio, todas as vozes se destacam. 


PedRodrigues

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Ela [2017]

Disse-lhe: “as melhores pessoas são as que falam sem filtros, as que dizem o que pensam, as que gritam as tripas para fora”. São as espontâneas, porque a mentira necessita de tempo. São as que estão partidas por dentro, mas não esperam que alguém as repare. São os relógios que não dão a hora certa - porque não há hora certa para amar; não há hora certa para ser feliz; não há hora certa para fugir, ou chegar. As melhores pessoas são essas: as que não necessitam de reparação, de acertos, de filtros na garganta. São as que não se demoram em explicações ou histórias. São as que não nos pedem para apagar ou esquecer o passado, mas que nos ensinam a aceitá-lo, como parte das nossas fundações. São as que não nos exigem um futuro, por saberem que o depois tem muitas portas - e todos devemos ter o direito de escolher qual queremos abrir. São as que percebem que nem sempre o horizonte é uma linha recta. E que no infinito todas as linhas acabam por se encontrar. São as que se perdem nos nossos olhos, como se contassem constelações e pudessem inventar galáxias. São as que brilham nessas noites longas, que por vezes parecem não terminar. São essas as pessoas que me fascinam. Ela era uma dessas pessoas.


PedRodrigues

domingo, 15 de janeiro de 2017

Cartas ao meu avô


São três meses de ausência.
Às vezes penso que foste apenas fazer uma última viagem de barco, e que, eventualmente, acabarás por voltar para mim, para me apertares a mão com força, e me dares um daqueles abraços de esmagar as costelas. Antes das lágrimas caírem há sempre um sorriso, por imaginar que voltarás com mais histórias daquelas que repetias todos os dias à refeição, ou quando estávamos os dois sozinhos na sala, a ver televisão. Não sei onde estás, porque não têm chegado cartas, mas acredito que seja um sítio muito longe e elas se tenham perdido pelo caminho. Acredito que não te tenhas esquecido de mim, porque os melhores amigos não se esquecem uns dos outros. O amor é um bem imaterial, que não segue as leis da física, e portanto não há espaço, nem tempo que nos desligue um do outro. Assim sendo, eu aguardo o teu regresso com saudade, repetindo-te nas palavras que vou escrevendo para o mundo. E guardando em mim todos os anos em que fomos felizes a ouvir as aventuras um do outro.

Com amor,


O teu pombo.