quarta-feira, 1 de março de 2017

Trinta

E, de repente, muda o algarismo da casa das dezenas. O contador parece não saber quando parar. De repente todos te começam a perguntar se não está na altura de assentares, teres filhos, uma casa, um cão, um carro; volta a idade dos porquês: o porquê de estares solteiro; o porquê de ainda partilhares casa com amigos; o porquê de não  ires mais longe. E, por momentos, talvez penses que tens de deixar de ser rebelde, tens de deixar de fugir ao status quo, tens de deixar de fugir ao que o mundo espera de ti. O contador marca trinta. Já não tens vinte anos. Já não tens idade para rir, para saltar, para estares a escrever à uma da madrugada. Mas depois voltas a pensar - deitado na cama da casa que acabaste de comprar, e que partilhas com amigos - que talvez o mundo esteja enganado. Talvez o contador esteja estragado. Os cabelos brancos, as rugas, as ressacas de dois dias são apenas uma piada engraçada que o teu corpo te conta. E o mundo talvez possa esperar por ti mais um pouco. Talvez a vida não seja uma linha recta. Talvez possas tomar liberdades. Talvez possas ser quem és: sem pressões de terceiros, sem seguir ideias pré-concebidas. Talvez o mundo possa esperar, e tu também. Ninguém te obriga a apanhar a primeira onda. Cheguei há pouco aos trinta e ainda não lhes tomei o sabor. Uma coisa é certa, a cera das velas sabe ao mesmo, os olhos continuam a precisar dos mesmos óculos e a escrita parece continuar batida sem artrite. Não creio ter de percorrer as mesmas estradas que todos os outros. Talvez apanhe um atalho, quem sabe. Ainda agora aqui cheguei. O mundo que espere um pouco por mim. 



PedRodrigues

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Desabafo (2)

Tenho a cabeça na almofada, a luz apagada, o silêncio ligado entre a aparelhagem citadina. É a esta hora que os fantasmas acordam, não é? É a esta hora que eles se soltam dos espaços onde se escondiam para nos atormentar, não é? É a esta hora que bate aquela saudade, não é? Deve ser, porque sinto a cabeça a girar. Dever ser, porque o sono não me adormece e teimo em repetir filmes que já estão gastos de tanto uso. Gostava de estalar os dedos e o mundo parar por instantes. Ter um tempo para mim, onde pudesse gritar, espernear, pontapear violentamente o ar e tudo à minha volta, esmurrar a almofada, gritar novamente “estúpido, estúpido, estúpido”, largar a raiva, os medos, as perguntas idiotas “podia ter feito mais?”; “porquê?”; e o medo de mão dada com os fantasmas, porque talvez tivesse sido a minha última hipótese de felicidade, porque não se sabe se será assim para sempre, se temos a tristeza e a desilusão a funcionarem num ciclo, e por mais que transformemos os desgostos e as desilusões em poesia, chega um dia em que nos cansamos, olhamo-nos ao espelho e sentimo-nos gastos, como um fantoche velho, atirado para o chão; e ninguém nunca nos vai querer; ninguém nunca vai quebrar este ciclo e a tristeza continuará a vir sempre depois, a ir e vir, como o inverno, ou outra estação qualquer. E talvez haja beleza no meio da destruição, talvez seja a tristeza um motivo para a construção, a criação de algo belo: a melhor arte nasce dos corações magoados. E, sabes, se não morreste de todas as outras vezes, de todas as outras dores, de todos os outros prantos e lamentos, hoje também não vais morrer. Uma coisa boa da vida é que ela avança. Vai-nos empurrando para a frente. E, quando olhamos para trás, para todas as marcas na estrada que temos percorrido, percebemos que são apenas isso: marcas. Nada mais. A vida avança e ninguém tem o direito de te fazer parar. Ninguém que te faça pensar dessa forma te merece. Não devemos construir a felicidade debaixo de telhados alheios; devemos ser felizes por conta própria. Cada qual com o seu telhado, no seu espaço. Porque quando dependemos de alguém para sermos felizes, algo está mal. E não podemos atirar sempre as culpas para cima do amor. Ele não pode ser sempre o bode expiatório. E talvez não seja assim tão difícil sermos felizes por nossa conta. Talvez a poesia também possa nascer de corações felizes. Talvez a lição número um seja simples, uma fórmula gasta, um cliché, sei lá: ama-te primeiro. E depois: lembra-te da lição número um quando amares alguém. Talvez não valha a pena deixar algo tão importante, como a nossa felicidade, em mãos alheias. E depois? Depois o amor - sim, o amor - há-de efectivamente chegar. Alguém há-de aparecer para te fazer esquecer tudo o que te trouxe até aqui. E na verdade talvez não esqueças, mas deixarás de viver consumido por isso. A vida avança. Deixa-a avançar. Caça os fantasmas todos: guarda-os numa caixa, e atira-a para longe. E sê feliz: é a melhor vingança, o melhor remédio. 


PedRodrigues

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Exame de Optometria

Às vezes, os olhos

não chegam para veres

o que precisas

de ver.

(Fecha-os)



PedRodrigues