E, de repente, muda o algarismo da casa das dezenas. O contador parece não saber quando parar. De repente todos te começam a perguntar se não está na altura de assentares, teres filhos, uma casa, um cão, um carro; volta a idade dos porquês: o porquê de estares solteiro; o porquê de ainda partilhares casa com amigos; o porquê de não ires mais longe. E, por momentos, talvez penses que tens de deixar de ser rebelde, tens de deixar de fugir ao status quo, tens de deixar de fugir ao que o mundo espera de ti. O contador marca trinta. Já não tens vinte anos. Já não tens idade para rir, para saltar, para estares a escrever à uma da madrugada. Mas depois voltas a pensar - deitado na cama da casa que acabaste de comprar, e que partilhas com amigos - que talvez o mundo esteja enganado. Talvez o contador esteja estragado. Os cabelos brancos, as rugas, as ressacas de dois dias são apenas uma piada engraçada que o teu corpo te conta. E o mundo talvez possa esperar por ti mais um pouco. Talvez a vida não seja uma linha recta. Talvez possas tomar liberdades. Talvez possas ser quem és: sem pressões de terceiros, sem seguir ideias pré-concebidas. Talvez o mundo possa esperar, e tu também. Ninguém te obriga a apanhar a primeira onda. Cheguei há pouco aos trinta e ainda não lhes tomei o sabor. Uma coisa é certa, a cera das velas sabe ao mesmo, os olhos continuam a precisar dos mesmos óculos e a escrita parece continuar batida sem artrite. Não creio ter de percorrer as mesmas estradas que todos os outros. Talvez apanhe um atalho, quem sabe. Ainda agora aqui cheguei. O mundo que espere um pouco por mim.
PedRodrigues