terça-feira, 28 de março de 2017

17:20

Pensou:
“Não há nada pior que alguém que nos mutile.” - não no sentido físico da palavra; não a carne. Não há nada pior que alguém que nos mutile quem somos, a nossa essência, sabes? Alguém que nos faça sentir não pertencermos; não fazermos parte. Alguém que nos obrigue a mudar, ou a ter atenção com o que dizemos, ou pensamos, como se fossem um perigo dispensável. 
Nem sempre encaixamos.
É inevitável cedermos a alguns caprichos quando gostamos, quando temos vontade de ser. Mas nada é tão triste como usar uma máscara; como inventarmos maneiras de encaixar cilindros no espaço de pirâmides. Ou procurarmos maneiras de cortarmos todas as arestas. Não sei se é o pior de todos os males - talvez não seja. Mas é muito mau; demasiado. 
Talvez o meu corpo esteja reservado para um lugar onde pertença. Talvez eu esteja reservado para esse espaço, também. A solidão é um monstro terrível. Deixa-nos assim, com vontade de pertencer cegamente. Com medo de não voltarmos a encontrar espaço entre alguns dedos onde os nossos dedos possam descansar. O desespero leva às maiores loucuras. Uma delas é acharmos que devemos mudar por alguém. Não é solução. Pertencemos ao lugar onde possamos ser inteiros: com todos os nossos defeitos e virtudes. É isso.


PedRodrigues

terça-feira, 21 de março de 2017

Tu

(No dia mundial da poesia, lembrei-me de ti)

Quis escrever um poema
onde coubessem os teus olhos,
a tua boca, os teus braços, as tuas pernas
Mas não consegui.
És demasiado grande para espaços fechados - e as palavras
demasiado pequenas
Depois olhei a rua da janela,
o sol, as gaivotas com restos de mar
nas suas penas.
E imaginei todos os cantos do teu corpo
onde sonhei escrever poemas
Pousei a caneta e percebi:
nenhum horizonte cabe nas margens do papel.
E o poema encurtou, até caber no meu peito:
"Tu"


PedRodrigues

quinta-feira, 16 de março de 2017

Março

Num mundo em que todos estão preocupados com o Inverno,
em que todos choram pelo Verão
Ela escolheu ser Primavera
Ela sabe que num mundo a preto e branco, alguém precisa de ser cor;
no meio de ilusões constantes, alguém precisa de ser mudança;
na terra onde todos se escondem, alguém precisa de ser flor.
no tempo em que todos desistem, alguém precisa de ser esperança.
As andorinhas não perguntam ao céu se podem voar.

PedRodrigues