sábado, 1 de abril de 2017

Abril



O calendário teima em marcar o dia certo.
É desnecessariamente Abril e o sol parece ter perdido toda a vergonha.

Não sei se por desejo, ou necessidade, teimo em inventar vontades 
com nomes e faces
de gente.
A minha vida teima em ser um terminal de aeroporto
onde as pessoas chegam e partem.

Aprendi que não nos devemos prender demasiado a alguém que não sabe onde ficar
- as despedidas são sempre dolorosas.
Mas é inevitável ser quem sou: gosto de abraçar; 
de abrir a porta para que entrem
e se sentem, a conversar.

(Talvez lhes pergunte: “Queres ficar o resto da tua vida?”)

Devo ter um coração demasiado ansioso, com vontade de se entregar
a mãos que nunca aprenderam a segurar
Ainda não aprendi a limpar os estilhaços
das quedas antigas. E é desnecessariamente Abril, no calendário
E gostava de abrigar no peito toda a primavera: o azul do céu; o canto das aves;
o cheiro de todas as flores. Queria que no meu peito fosse sempre primavera, mas

por mais que regue, por mais que o tempo passe, flores de plástico não crescem. 



PedRodrigues

terça-feira, 28 de março de 2017

17:20

Pensou:
“Não há nada pior que alguém que nos mutile.” - não no sentido físico da palavra; não a carne. Não há nada pior que alguém que nos mutile quem somos, a nossa essência, sabes? Alguém que nos faça sentir não pertencermos; não fazermos parte. Alguém que nos obrigue a mudar, ou a ter atenção com o que dizemos, ou pensamos, como se fossem um perigo dispensável. 
Nem sempre encaixamos.
É inevitável cedermos a alguns caprichos quando gostamos, quando temos vontade de ser. Mas nada é tão triste como usar uma máscara; como inventarmos maneiras de encaixar cilindros no espaço de pirâmides. Ou procurarmos maneiras de cortarmos todas as arestas. Não sei se é o pior de todos os males - talvez não seja. Mas é muito mau; demasiado. 
Talvez o meu corpo esteja reservado para um lugar onde pertença. Talvez eu esteja reservado para esse espaço, também. A solidão é um monstro terrível. Deixa-nos assim, com vontade de pertencer cegamente. Com medo de não voltarmos a encontrar espaço entre alguns dedos onde os nossos dedos possam descansar. O desespero leva às maiores loucuras. Uma delas é acharmos que devemos mudar por alguém. Não é solução. Pertencemos ao lugar onde possamos ser inteiros: com todos os nossos defeitos e virtudes. É isso.


PedRodrigues

terça-feira, 21 de março de 2017

Tu

(No dia mundial da poesia, lembrei-me de ti)

Quis escrever um poema
onde coubessem os teus olhos,
a tua boca, os teus braços, as tuas pernas
Mas não consegui.
És demasiado grande para espaços fechados - e as palavras
demasiado pequenas
Depois olhei a rua da janela,
o sol, as gaivotas com restos de mar
nas suas penas.
E imaginei todos os cantos do teu corpo
onde sonhei escrever poemas
Pousei a caneta e percebi:
nenhum horizonte cabe nas margens do papel.
E o poema encurtou, até caber no meu peito:
"Tu"


PedRodrigues