segunda-feira, 3 de abril de 2017

Momento certo

Perguntava-lhe pelo momento certo.
Ela pedia-me que adivinhasse, como quem adivinha o som do mar dentro de búzios antigos. Mas eu nunca acreditei em momentos exactos, com horas exactas. Nunca acreditei haver um momento certo do amor; um momento certo de um beijo; um momento certo para prolongar os meus braços até outro corpo que os receba.
[Ela talvez soubesse]
Sempre acreditei na inevitabilidade das coisas; nos movimentos aleatórios de tudo em minha volta. 
Há partículas condenadas a colidirem. Talvez. Nunca me prendi à linearidade com que se tenta explicar a vida. Os significados inventados para justificar as acções. As abstractas certezas de tudo o que acontece. Nunca acreditei. 
Acredito, porém, nos tons garridos das buganvílias em flor, no despertar azul dos jacarandás, no cheiro doce dos antigos pessegueiros dos quintais da minha infância. Em tudo isso eu acredito: na inevitabilidade das coisas, e no destino que teima em fazer-nos colidir uns nos outros, transformando-nos neste momento: presente, e infinitamente possível. 


PedRodrigues

sábado, 1 de abril de 2017

Abril



O calendário teima em marcar o dia certo.
É desnecessariamente Abril e o sol parece ter perdido toda a vergonha.

Não sei se por desejo, ou necessidade, teimo em inventar vontades 
com nomes e faces
de gente.
A minha vida teima em ser um terminal de aeroporto
onde as pessoas chegam e partem.

Aprendi que não nos devemos prender demasiado a alguém que não sabe onde ficar
- as despedidas são sempre dolorosas.
Mas é inevitável ser quem sou: gosto de abraçar; 
de abrir a porta para que entrem
e se sentem, a conversar.

(Talvez lhes pergunte: “Queres ficar o resto da tua vida?”)

Devo ter um coração demasiado ansioso, com vontade de se entregar
a mãos que nunca aprenderam a segurar
Ainda não aprendi a limpar os estilhaços
das quedas antigas. E é desnecessariamente Abril, no calendário
E gostava de abrigar no peito toda a primavera: o azul do céu; o canto das aves;
o cheiro de todas as flores. Queria que no meu peito fosse sempre primavera, mas

por mais que regue, por mais que o tempo passe, flores de plástico não crescem. 



PedRodrigues

terça-feira, 28 de março de 2017

17:20

Pensou:
“Não há nada pior que alguém que nos mutile.” - não no sentido físico da palavra; não a carne. Não há nada pior que alguém que nos mutile quem somos, a nossa essência, sabes? Alguém que nos faça sentir não pertencermos; não fazermos parte. Alguém que nos obrigue a mudar, ou a ter atenção com o que dizemos, ou pensamos, como se fossem um perigo dispensável. 
Nem sempre encaixamos.
É inevitável cedermos a alguns caprichos quando gostamos, quando temos vontade de ser. Mas nada é tão triste como usar uma máscara; como inventarmos maneiras de encaixar cilindros no espaço de pirâmides. Ou procurarmos maneiras de cortarmos todas as arestas. Não sei se é o pior de todos os males - talvez não seja. Mas é muito mau; demasiado. 
Talvez o meu corpo esteja reservado para um lugar onde pertença. Talvez eu esteja reservado para esse espaço, também. A solidão é um monstro terrível. Deixa-nos assim, com vontade de pertencer cegamente. Com medo de não voltarmos a encontrar espaço entre alguns dedos onde os nossos dedos possam descansar. O desespero leva às maiores loucuras. Uma delas é acharmos que devemos mudar por alguém. Não é solução. Pertencemos ao lugar onde possamos ser inteiros: com todos os nossos defeitos e virtudes. É isso.


PedRodrigues