segunda-feira, 8 de maio de 2017

O mundo era assim:


julgavam todos
ser a certeza que os ligava
E uns e outros esperavam estar certos 
para alguém
Todos se esqueciam que o tempo é inevitável
e que nenhum carro começou a andar
antes de terem inventado a roda.
Descobriram mais tarde
a dolorosa verdade:
não há dois certos que 
permaneçam juntos 
                            na hora errada.

O timing é uma coisa danada.



PedRodrigues

sábado, 6 de maio de 2017

Ela (Maio)



Espero que entendas que nada do que é tragicamente belo mendiga pela tua atenção. A lua nem sempre está cheia; o mar nem sempre se revolta com a areia; os campos voltam a florir na primavera, para nos lembrarem que o inverno não dura para sempre. Então talvez seja melhor parares um pouco e apreciares as cores da lua; talvez seja melhor mergulhares no mar, em vez  de molhares apenas os pés; talvez seja melhor parares de colher todas as flores que encontras nos campos. Nada do que é tragicamente belo é perfeito. Nada do que é tragicamente belo permanece imutável ao longo do tempo. Tudo o que é tragicamente belo precisa de ser visto, tocado, cheirado, provado, ouvido como uma oportunidade única. Ela é tragicamente bela. 


PedRodrigues

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Depois de Coimbra

Não te vou falar no depois. No final, quando tudo acaba, quando rasgas o traje e também rasgas um pouco de ti, um pouco da pele que um dia foi tua. Não te vou falar das noites em que voltas e recordas todos os risos, todas as aventuras, todas as lágrimas choradas porque algo não correu bem, todos os murros na mesa porque algo tinha de mudar. Não te vou falar da saudade. Que durante anos era apenas canção, uma possibilidade remota que um dia talvez chegasse. Não te vou falar nos copos, nas histórias, noutro lugar, noutro fuso horário, sem o sol de Coimbra a queimar-te os poros da pele, a chamar-te para que olhes com atenção o rio, para que decores os traços das pedras, as esquinas de todas as ruas. Não te vou falar do amor às pessoas com quem partilhaste tudo isto, com quem disseste para a vida, mesmo que a vida vos tenha levado para longe, mas que não esqueces e procuras saber se tudo está bem porque durante algum tempo o mundo foi vosso - e continuará a ser. Não te vou falar em serenatas, em choros de guitarras que te correm pelos olhos como um rio que se perpetua ao longo da saudade. Não te vou falar em metamorfoses, em casulos: de todos os miúdos que acabam por ser homens no final, senhores do depois, meninos do agora. Não te vou falar de nada disso. Porque de tudo isso já escrevi. De tudo isso já sangrei pelos dedos em textos à cidade. Em juras de amor eterno a um espaço, a um lugar que para sempre me pertencerá, por ser de mim o que sou, por ser de mim as palavras, os amores, as mágoas. E cujos pés me trouxeram até onde estou, depois desse adeus. Não te vou falar de nada do que vem depois, por não ter o direito de o fazer. Aproveita o momento. Guarda-o com força. Um dia vais perceber, com quantas letras se escreve a saudade. 


PedRodrigues