terça-feira, 4 de julho de 2017

Janela


É terça-feira, e Julho entrou a correr pela vida adentro, como um convidado que, apesar de esperado, entra pela porta de rompante, deixando a casa em pé de guerra. 
É de noite, e nem os grilos cantam, nem as pessoas conversam na rua. Apenas um avião se sobrepõe ao tecto de minha casa, levando consigo o descanso do silêncio, obrigando-me a olhar para a parede vazia à minha frente. Por mim passa a ideia de te ver à janela, a olhar a rua, perguntando-te por que razão tentamos dar ordem às coisas: sentidos às estradas, nomes aos lugares, coordenadas às estrelas. 
És a coisa mais bonita que já vi, penso. O teu caos ensinou-te a dançar, e tu não te inibiste. Danças sozinha uma música que só tu pareces ouvir e, segundo Nietzsche, talvez todos os outros te julguem maluca. Mas eu não. Eu dou por mim a pensar que talvez seja no teu ouvido que as aves treinam o seu canto. Talvez a tua voz ecoe o som do mar, como um velho búzio deixado a rolar pelas ondas. Os teus olhos lembram-me constelações, cujo nome esqueci porque o espaço é demasiado grande para ser decorado. E é nas ruas do teu corpo que eu procuro me perder, porque não mereces que imponha sentidos, que limite as tuas fronteiras. 
A vida passa por nós como um feixe de luz.
E é por isso que te procuro, pelos dias todos, dos meses todos, de todos os anos da minha vida. Penso em ti sempre que olho este espaço em branco, hipnótico, a pedir que invente frases com o teu nome, que o preencha com as tuas cores. Mas o mar não tem limite, já me diziam antigamente. E tu também não, meu amor. Por isso, onde quer que estejas, acusa-te. É Julho, as ruas estão vazias, o silêncio é teu, a minha janela também. 

Até já, amor
meu amor.


Pedro 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Poesia

E ela tinha poesia na pele, como uma tatuagem que me contava histórias. Não com palavras, com imagens. Tudo me fazia perder nos caminhos do corpo. Nos labirintos que outros julgaram saber percorrer. Durante um tempo tudo isso era meu. Pertencia às minhas mãos, aos meus lábios, à minha língua, aos meus olhos. Tudo isso eu conseguia ver, cheirar, tactear ao de leve, com a inocência de alguém que não sabe aonde irá chegar. A voz dela embalava-me como o som do mar a ecoar dentro de um búzio antigo. Mas não era apenas isso que me prendia a ela. Não era isso que me fazia ficar. Havia algo nos olhos, um brilho estelar, que me fazia sentir único. E o sorriso. O desarme perfeito. Natural. Tudo isso era poesia. Uma bonita poesia. 


PedRodrigues

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Solteirismo

É Junho, estou sozinho em casa a pensar em velhas conversas. Tenho os acordes e a voz melancólica de Cigarettes After Sex a tocarem no computador, enquanto escrevo as palavras à pressa, com medo que me escapem. Quase tudo me relembra outros Junhos, com músicas mais alegres, com mais sol na pele e menos atrás das vidraças. Efectivamente, a vida muda. Nós mudamos com ela e não há como lhe escapar. Mas há coisas que se arrastam, como as pequenas ondas na maré vazia. Cada coração tem o seu ritmo, ao que parece. E o meu tem vindo a debater-se com o passado, sem vontade de dar ao futuro uma face, com nome e apelido. Não sei se por teimosia. Não sei se por medo. Não sei. Sei porém que, de todos os lados me chegam as pressões de avançar, de encontrar a pessoa ideal. Mas eu respondo que não acredito em pessoas ideais; em obrigações sociais de amar alguém para não estar sozinho; em ideias pré-concebidas quando se trata de assuntos do coração. Não sou alheio de imaginar quem corresponda aos limites que invento, mas a vida tem-me ensinado que não vale a pena me prender às amarras impostas. A qualquer momento chega alguém, completamente diferente de tudo aquilo que imaginei e rouba-me o ar, atira-me ao tapete. É como a ideia de gostarmos muito de uma melodia, mas não sabermos a letra: acabamos por cantar palavras que não existem e, no entanto, tudo parece fazer sentido, no fim da canção. Por isso não me condeno por não andar desesperado em busca de um futuro com nome de gente. Eventualmente, acabamos por chegar aos braços certos. 


PedRodrigues