segunda-feira, 10 de julho de 2017

Caprichos do século XXI

Vivemos numa época de caprichos. O que hoje parece eterno, amanhã já está feito em ruínas. Parecemos andar ao sabor do vento, seguindo o caminho que ele decide, sem nos darmos conta dos danos que causamos aos outros. Num mundo cada vez mais preso à imagem, as pessoas começam a perder conta do que cada uma guarda para lá dos rótulos. No outro dia, ouvia uma história de uma rapariga que tinha acabado de ser trocada pelo rapaz com quem namorava. Vivemos numa época de relações fast food. É triste dizê-lo, mas é verdade. Continuamos a buscar a beleza física, os corpos de ginásio, os bronzes de mil dias de verão, os cabelos bem arranjados, e as roupas elegantes: num mundo de fotocópias, não ousamos procurar o original. Vamos na corrente, seguindo o vento, caindo sempre no mesmo erro. Penso ter sido Einstein que disse “loucura é repetir a mesma acção, vezes sem conta, e esperar um resultado diferente”. Vivemos num mundo de loucos, mas não num mundo de loucura saudável: de amor pelas pequenas coisas, pelos pormenores, de amor pela vida, de vício por pessoas extraordinárias. Vivemos num mundo de loucos que cometem repetidamente o mesmo erro, chorando no final porque o desfecho não foi diferente. Vivemos num mundo de caprichos, repito: procuramos o brilho, como os corvos, mas não nos importamos em tentar distinguir se o brilho é de um diamante, ou de um pedaço de vidro. É triste. Preocupamo-nos com a imagem, esquecemos a essência. E consumimos hoje, para metermos de lado amanhã. Já ninguém se apaixona loucamente. Vivemos na era do desinteresse: nada prende. Talvez porque a beleza física seja uma característica fútil: desvanece com o tempo. Não falo do alto de um pedestal, porque a beleza, em qualquer forma me atrai, mas tento escavar até ao osso. Procurar as cidades perdidas que ninguém vê. Tenho o mau costume de me viciar em pessoas incríveis, que me prendam a elas como Saturno prende as suas luas. Isso sim, é bonito: o que não sabemos explicar e que nos prende por dentro, e nos faz pensar dia e noite naquela pessoa. Mais que a simples fachada que não podemos amar de olhos fechados. Num mundo de consumo imediato, e olhos gulosos: pára um pouco, fecha os olhos. Ousa ser original. 


PedRodrigues

terça-feira, 4 de julho de 2017

Janela


É terça-feira, e Julho entrou a correr pela vida adentro, como um convidado que, apesar de esperado, entra pela porta de rompante, deixando a casa em pé de guerra. 
É de noite, e nem os grilos cantam, nem as pessoas conversam na rua. Apenas um avião se sobrepõe ao tecto de minha casa, levando consigo o descanso do silêncio, obrigando-me a olhar para a parede vazia à minha frente. Por mim passa a ideia de te ver à janela, a olhar a rua, perguntando-te por que razão tentamos dar ordem às coisas: sentidos às estradas, nomes aos lugares, coordenadas às estrelas. 
És a coisa mais bonita que já vi, penso. O teu caos ensinou-te a dançar, e tu não te inibiste. Danças sozinha uma música que só tu pareces ouvir e, segundo Nietzsche, talvez todos os outros te julguem maluca. Mas eu não. Eu dou por mim a pensar que talvez seja no teu ouvido que as aves treinam o seu canto. Talvez a tua voz ecoe o som do mar, como um velho búzio deixado a rolar pelas ondas. Os teus olhos lembram-me constelações, cujo nome esqueci porque o espaço é demasiado grande para ser decorado. E é nas ruas do teu corpo que eu procuro me perder, porque não mereces que imponha sentidos, que limite as tuas fronteiras. 
A vida passa por nós como um feixe de luz.
E é por isso que te procuro, pelos dias todos, dos meses todos, de todos os anos da minha vida. Penso em ti sempre que olho este espaço em branco, hipnótico, a pedir que invente frases com o teu nome, que o preencha com as tuas cores. Mas o mar não tem limite, já me diziam antigamente. E tu também não, meu amor. Por isso, onde quer que estejas, acusa-te. É Julho, as ruas estão vazias, o silêncio é teu, a minha janela também. 

Até já, amor
meu amor.


Pedro 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Poesia

E ela tinha poesia na pele, como uma tatuagem que me contava histórias. Não com palavras, com imagens. Tudo me fazia perder nos caminhos do corpo. Nos labirintos que outros julgaram saber percorrer. Durante um tempo tudo isso era meu. Pertencia às minhas mãos, aos meus lábios, à minha língua, aos meus olhos. Tudo isso eu conseguia ver, cheirar, tactear ao de leve, com a inocência de alguém que não sabe aonde irá chegar. A voz dela embalava-me como o som do mar a ecoar dentro de um búzio antigo. Mas não era apenas isso que me prendia a ela. Não era isso que me fazia ficar. Havia algo nos olhos, um brilho estelar, que me fazia sentir único. E o sorriso. O desarme perfeito. Natural. Tudo isso era poesia. Uma bonita poesia. 


PedRodrigues