sábado, 29 de julho de 2017

Elogio à individualidade

Deixei há algum tempo de seguir os caminhos que outros me apontam. Talvez porque cada mão aponte um caminho diferente - e eu só posso seguir um, de cada vez. Sempre me disseram que é impossível agradar a gregos e troianos: o que sempre tomei como uma verdade fundamental. Se escolho seguir pela direita, dizem-me ser maluco por não ter optado pela esquerda; se é a esquerda que escolho, criticam-me por não ter escolhido a direita; se avanço, devia ter ficado parado; se fico parado, devia ter avançado. Haverá sempre vozes de contestação, qualquer que seja a escolha. E portanto deixei de me preocupar com as opiniões de terceiros, com as vuvuzelas alheias que só servem para diminuir a minha voz. Sou dono das minhas escolhas. Se cair, terei de aprender a levantar-me; se chegar a um beco sem saída, terei de aprender a trepar. A vida será sempre um corredor com várias portas. Cabe a mim - só a mim - escolher a próxima a abrir. Mesmo que as críticas acabem por chegar. Chegarão sempre. Há tantas opiniões quanto cabeças e, portanto, será impossível agradar a todas. No entanto, ninguém cai com as minhas pernas; ninguém sorri com a minha boca. Neste mundo de dedos incriminatórios e vozes derrotistas, sigo o meu caminho assobiando, ouvindo e seguindo a voz que trago por dentro.


PedRodrigues

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Sem título, a caneta

Não tinha onde te escrever, 
a não ser
               nos limites destas páginas
a tinta permanente
A vida é uma máquina de fazer
passados. Avançamos por ela
como pilotos de carros de corrida,
fugindo ao tempo; a vida é mesmo 
assim e ninguém consegue parar
as imagens que se tornam borrões
de luz fina à nossa passagem

Não tinha como travar o avanço
do tempo; a pele estava a desfazer-se
em memórias de antigas carícias 
                                                  de amor
Sei lá eu o infortúnio das primeiras
chuvas; na água tudo se dissolve
até a tua imagem.
Não serei para sempre 
o tempo dos teus beijos

A vida encarregar-se-á de te fazer
passado. Não tenho braços que 
te façam minha para sempre - ou depois.

Serás memória, mesmo antes 
de me aperceber se foste minha
ao mesmo tempo que fui teu
Amor, meu amor.

Escrevi-te a tinta permanente 
só no caso do tempo se esquecer
que tudo o que é eterno 
não tem pressa de ser.



PedRodrigues

domingo, 16 de julho de 2017

Uma canção para um coração partido

Disseste-me adeus diz-se aos mortos, mas que querias que dissesse a não ser um adeus? Não tinha mais que dizer. Não que quisesse matar-te no meu coração, a tiro de revólver. Nada disso. Só queria que deixasses de doer por dentro. Que deixasses de ser essa memória que me atormenta nas noites de insónias. Não tinha mais que dizer. Não tinha como desligar a tua voz na minha cabeça a repetir o meu nome. Porque o pior das tempestades vem depois, quando tudo são destroços e nada parece pertencer ao seu lugar. O depois é incerto, como a letra de uma música que cantamos, sem acertarmos as palavras. Nada pertence. Nada encaixa. Mas acabamos por embalar na melodia e abanar a cabeça, gastando toda essa energia, toda essa força de lágrimas e ais. Não queria dizer-te adeus, mas tive de o fazer. Porque a canção, como tu, também acaba. A canção, como tu, também teve o seu tempo. Não queria matar-te no meu coração, juro. Apenas desligar-te um pouco. Um pouco; um pouco; um pouco. Apagar as tuas fotografias, o teu número de telemóvel, afogar-te em seis copos de um vinho de uma boa casta, uns copos de gim: queria que a tua memória acabasse por ficar dormente. Convidar-te a sair. Adeus, mesmo tendo vontade de dizer um até logo. A minha vontade era essa: soltar um adeus com o som de um até logo. Não sei como podemos amar tanto o que nos destrói. Mas também não me imagino a ser um marinheiro de mares calmos. Sempre me apaixonei pelas tempestades. Mesmo que o depois. Mesmo que depois… E a nossa música continua a tocar. Comigo aqui. Contigo algures pelo mundo. Espero que ainda saibas a letra. Eu continuo a cantá-la e a dançá-la entre os destroços de um coração partido. 


PedRodrigues