quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Ela



Ela é demasiado teimosa para não ser livre. Podes ver pela forma como ela se mete em bicos dos pés, a dançar de braços abertos, sem se preocupar com as correntes do mundo. Ela sabe que por dentro somos leves como as penas dos pássaros, e podemos ir para lá do horizonte do olhar. Ela é como os primeiros raios de sol das manhãs teimosas que tentas tapar com as mãos e, mesmo que muito tentes, ela acaba por te entrar pelos olhos sem permissão e ficar a morar em ti.  Ela faz tudo menos seguir as regras: é o doce e o amargo que se espalha pela tua boca até se despenhar no teu centro. Ela é o sorriso do começo, a lágrima do fim, a ferida e a cicatriz que te faz meter em causa todos os futuros. Ela é, no fundo, todas as estações no mesmo dia: pode acordar no verão e adormecer no inverno. Como te disse, ela não segue as regras. E tu vais pensar se será uma sorte ou um azar teres alguém assim. Alguém que, como uma montanha-russa, te leva entre a vertigem do incerto, e a certeza do chão que julgas precisar pisar. Mas ela é mesmo assim e vais acabar por aprender que, como ela, diante do precipício não precisas de olhar para baixo. Como ela, deves aprender a confiar. O céu pertence aos que sabem ter asas de voar. Ela sabe-o. E tu?



PedRodrigues

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Último de Setembro

Foi pouco antes da última vez que te vi. Um amigo meu partilhou comigo uma fotografia tua no meu local favorito, a minha praia, onde tantas vezes fui ver o mesmo mar que olhavas, no mesmo sítio em que estavas, para tentar mitigar os efeitos da tua ausência na minha vida. Foi um pouco antes dessa última vez, numa fotografia aleatória, de um momento aleatório da tua vida que partilhei nas minhas redes sociais umas pequenas frases, escritas há uns anos: “lição nº1: ama-te; lição nº2: lembra-te da lição nº1 quando amares alguém”. Parece que a vida me vai dando estas chapadas com as costas da mão para me acordar. Receio não ser fácil viver das ideias que nos são vendidas. Viver da quase utópica crença de um amor e uma cabana, sem os agentes nefastos do mundo a levantarem furacões que tudo transformem em entulho. O que eu sempre quis foi poder pendurar quadros com alguém numa casa, e ficar. Ficar a acrescentar quadros pelas paredes com imagens de uma vida passada lado a lado. Vestir as paredes vazias e construir uma casa, com memórias felizes que nos aqueçam nos invernos em que tudo se torna mais líquido e menos possível - há estações assim. Mas voltemos à última vez que te vi. Os amigos continuam a apontar-me o caminho do que vem depois - sem ti. Dizem que já tens outra pessoa, e que já fazes outra vida, não coincidente com a minha. Não me preocupa isso. Quero que sejas feliz. Claro que preferia que o fosses comigo - mas as coisas são como são, e cada um tem a sua estrada, a sua contramão. Devo continuar a falar de ti, porque os dias que passámos juntos foram, efectivamente, bons, mas usar-te-ei neste momento como um exemplo para explicar ou enquadrar novas situações. É engraçado como o tempo nos ensina efectivamente a entrar nesse jogo do amor próprio: a lição número 1. Devo amar primeiro os olhos, e depois a imagem que eles vêem. Deve ser assim. E tentar evitar o erro da ondas, que repetem o mesmo movimento de autodestruição ao longo da sua vida: erguem-se com força, até se despenharem estrondosamente na areia. Vou apagar a tua imagem, entretanto. Já tenho o dedo no botão de delete


PedRodrigues

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Catarse

Hoje um dos pássaros do meu pai fugiu da gaiola em que esteve preso a vida toda. Voou para a velha nogueira do quintal dos vizinhos; ou seja, não voou para muito longe, apesar das asas e da liberdade que o vento lhe concedeu. Sempre que olho os pássaros do meu pai, lembro-me de uma mítica frase de Jodorowsky: “pássaros presos em gaiolas, acham que voar é uma doença”. A frase repete-se vezes sem conta dentro da minha cabeça, como se fosse uma mensagem subliminar da vida. Hoje é Setembro e, apesar de não me lembrar bem da data (sou péssimo a decorar datas), sei que fazes anos perto destes dias. Sinto-me como o pássaro, ainda preso a estas memórias, apesar da liberdade de seguir em frente, ou da prisão de o fazer sem te ter ao meu lado. Sou um sádico do caraças, penso. E uso um repertório vasto de asneiras e outras coisas menos boas, para dentro, de forma a não gritar e assustar todos em volta. O tempo tem amenizado a tristeza e as noites dormidas começam a ser mais longas e sem sonhos de ti. Mudei os lençóis da cama, quando partiste. Limpei o ralo da banheira que ainda tinha alguns cabelos teus. Meti a roupa na máquina. Guardei o que te pertencia num lugar onde não pudesse esbarrar com as tuas coisas no decorrer dos dias. Nada disso resultou, no início, e entrei numa espiral de depressão - algo muito comum em mim - com alguns textos tristes e imagens daquilo que fomos e que poderíamos ter sido. O tempo seguiu o seu rumo natural. Eu? Mudei de casa. Mudei de cama. Comprei um colchão ergonómico com medidas suficientes para mim e outra pessoa - ainda a pensar em ti. Quem sabe? Decorei a casa com cores que sei também gostarias de ver. Comprei uma televisão maior que aquilo que os meus olhos podem aguentar, talvez para me fazer companhia nos dias em que a depressão ainda bate à porta. Mudei de freguesia e, como a casa é minha, tive também de mudar de cartão de cidadão. A fotografia continua a ser a de um fugitivo de uma prisão Mexicana (lembras-te de quando te mostrei o meu antigo cartão pela primeira vez e gozaste muito comigo?). Talvez tenha fugido dessa prisão, do outro lado do mundo, mas continuo preso nas memórias. Mesmo que as grades comecem a tornar-se cada vez mais turvas e eu consiga escapar. Talvez voar seja mesmo uma doença, penso. Mas logo dou com a palma da mão na cabeça. Por vezes é preciso partir. Deixar para trás o que não nos faz falta. Ir. Levar o passado na bagagem. Não esquecer. Aprender. Há sempre mais lugares que a velha nogueira: mais longe, com outras cores que ainda não descobrimos. Vai. 



PedRodrigues