quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

2018

Nas notícias fala-se
dum homem que adivinha
com inusitada exactidão
todas as desgraças 
do mundo.
E as pessoas amedrontam-se
não apenas com o
inevitável futuro,
mas com a 
possibilidade de
alguém o conseguir
ver antes do tempo.
Tudo isso me leva
à conclusão
que andamos todos
aqui ao engano
e ainda não percebemos
a lei da probabilidade. 
É tudo 50/50.
Não é como o joelho
do meu avô
que adivinhava o tempo
Vem aí chuva
e na meteorologia 
nem um pingo
e no dia seguinte
Está de chuva
e a mulher do 
noticiário
Vem aí tempestade.
o joelho do meu avô
já nada sente
Está um sol radiante.
as notícias do mundo
estão todas erradas.

É provável que 
o ano que vem
seja soalheiro,
com alguns aguaceiros 
pelo meio.


PedRodrigues

Destino

Não vou falar do valor
da constante de Planck
na fórmula que determina
a energia dos fotões
que incidem no teu 
rosto de menina.
Não vou dizer nada
tão irracional como
a base de um 
logaritmo (paradoxalmente?)
natural.
Se rodasses numa festa
a dançar, olharia primeiro
para ver se estavas descalça
e depois talvez me lembrasse
das espirais mais complexas
do ADN. Será que a tua 
boca sabe com precisão
o perímetro da minha?
Não vou falar de nada disto.
Apenas da flecha arremessada
que como a promessa falhada
julgamos poder remediar
o destino.
Se eu soubesse como 
construir uma máquina do tempo
falar-te-ia da constante de Planck,
dos logaritmos naturais, 
das espirais do nosso ADN 
misturadas naquele 
último beijo. 



PedRodrigues

sábado, 11 de novembro de 2017

Despedida

E mudei o teu nome na agenda do meu telemóvel. E ao fazê-lo sabia ser uma despedida. Tu já tinhas chorado todas as lágrimas e eu já tinha gasto todas as palavras. Não havia muito mais a fazer. Do eterno ao fim vai apenas um segundo. Sei que havias inventado na tua cabeça que a nossa história de amor seria assim: um dia acabaríamos por nos auto-destruir e procurar um canto onde fosse possível lamber as cicatrizes. Encontraríamos outras pessoas. Tu um homem que te fizesse sorrir e te desse a mão por estares em baixo. Não seria fácil voltar a conquistar-te. Dizias que os meus olhos eram precipícios demasiado fundos para voltares de lá inteira. Mas talvez encontrasses alguém que não te curasse a ferida, mas te cuidasse da cicatriz. Dizias que um dia voltarias, senhora de ti, com roupas caras e jóias mais brilhantes que qualquer estrela, e me tirarias o folgo. Eu estaria à tua espera, sozinho, porque não saberia amar mais ninguém- até certo ponto, tinhas razão. Não sei amar noutras línguas, com outros vocabulários. Sou um ser arcaico. Nunca acreditei em histórias que já fossem outros filmes, ou outras músicas. Acredito que cada um segue a vida à sua maneira, na sua contramão. Temos direito às nossas cenas, à nossa banda sonora. E todo este tempo me achei acima de toda a tempestade. Olhava de cima e escrevia sobre o desamor, novos amores, mulheres de lábios vibrantes que não os teus. E tu ao longe, a seres feliz, a encontrares essa tal pessoa que te levasse em ombros como eu nunca soube levar. Por momentos as tuas fotografias foram uma ideia dolorosa de um futuro que não foi. De um passado que não construímos juntos. Por momentos recordei o último adeus. A linha de comboio, a tua imagem a chorar até eu me tornar demasiado longe para ser o abraço que precisavas. Por momentos achei que fui um parvo, um tosco, um cobarde, ou outra coisa qualquer. Mas depois vi o teu sorriso e o dele. Vi o brilho dos teus olhos, os mares azuis e as areias finas. Vi que estás bem, ao lado de alguém que te rasga o sorriso e te abraça com devoção.  Espero que te demores nesse abraço. Mereces ser feliz.



PedRodrigues