quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Coisas minhas

Dentro da minha cabeça tudo parece mais poético, mais artístico. Parece que quando as palavras saem, e apanham ar, oxidam, como o ferro escarnado em paredes antigas. Soo muito melhor debaixo da pele, dentro do perímetro craniano. Cá fora tudo se atropela, tudo parece gasto. Era óptimo que as palavras jorrassem para fora do corpo como o sangue quando cortamos uma artéria. Seria um belo e infeliz destino para as palavras: jorrarem do corpo como sangue. Mas é talvez isso que elas sejam: sangue. Algo que corre por dentro num circuito fechado. Talvez.


PedRodrigues

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

C.

É engraçado como algumas coisas começam ao fim do dia. Agora, algum tempo depois, dou por mim a pensar nisso dos começos. Agora, depois, no fim, dou por mim a pensar no ponto de partida: pôr do sol, rio, o céu arroxeado, lindíssimo, o teu rosto meio iluminado, meio protegido pela sombra. Deus, como era óptimo ver-te sorrir. Às vezes a cidade ainda cheira a esse final de tarde; devia ser primavera - tenho a certeza que era primavera: trazia um pulóver cinzento, a camisa por baixo, o calor não abundava (a não ser no teu sorriso). É engraçado como agora me lembro. Acho que, algures, a meio do caminho, alguns pormenores caíram no oblívio da rotina. Foi assim que lhe chamaste: rotina. Uma coisa que se intromete entre duas pessoas e, ao que parece, é como um nevoeiro que se vai adensando até que um não consiga ver o outro. É irónico como a proximidade entre duas pessoas, a partilha constante de momentos, de movimentos, de expressões, se torna numa espécie de distância. Algo que começa como apenas centímetros a separarem dois corpos, - nesse momento, ainda somos o hífen no verbo - até que, quando damos conta, estamos em páginas diferentes, em livros diferentes, em prateleiras diferentes. E o tempo passa e nós olhamos para trás - somos peritos em olhar pelo retrovisor, será que temos medo que o passado nos atropele? Não sei. Sei que vamos escavando da pele ao osso e, por vezes, quando olhamos para cima, estamos no fundo do poço. Escavamo-nos uns nos outros, alguns para procurar abrigo, outros para deixarem espaços vazios. Mas agora isso pouco importa. Quero apenas recordar aquele final de dia em que te conheci: o céu, o sol, o rio, os teus olhos, o teu sorriso de menina. Deus, como ficavas bonita a sorrir. Era primavera. Era, sem dúvida alguma, primavera. 



PedRodrigues

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Mata bicho

Devoro livros
como quem devora
um farto pequeno-almoço
depois de uma extenuante 
noite de son(h)o(s)

O pequeno-almoço é a refeição 
mais importante do dia




PedRodrigues