quinta-feira, 8 de março de 2018

Sem título

Levei-te flores. Pousaste-as na jarra, com um sorriso largo.
As flores murcharam ( as pétalas estendidas pela mesa
como corpos numa batalha perdida )
Depois ainda te fiz uns jantares que acabaram
por ir arrefecendo, perdendo o tempero.
Os beijos também começaram a escassear
tornaram-se em gestos maquinais, toques de fugida. 
Os hábitos instalaram-se como a humidade
nas paredes 
A nossa realidade completamente sedada
pelo peso da rotina. 




PedRodrigues

sexta-feira, 2 de março de 2018

Março


E dou por mim a pensar na vida como uma montanha, bastante íngreme, que vamos subindo ao longo do tempo. Imagino o cume como o pináculo (redundante?) da minha vida, o estado de felicidade extrema, o lugar onde tudo parece fazer sentido. Imagino o passado (uso esta palavra, não no sentido linear que lhe é dado pelos dicionários, mas no contexto das maleitas a que estamos sujeitos ao longo dessa subida) como uma mala carregada com todas as coisas que não nos fazem bem, tudo o que não faz sentido guardar - somos peritos em acumular tralha ao longo do tempo. Dou por mim a subir a montanha com essa mala pesadíssima de tudo o que não me faz bem, coisas más, quilos e quilos, que fui guardando ao longo dos anos, coisas tristes, alguns litros de lágrimas, pesos mortos de discussões antigas, rancores que pesam outros quilos e, quando me meto a fazer as contas, a mala pesa mais que eu, o que me impede de caminhar, me prende ao chão. E olho para cima, a felicidade, o cume, tão perto que quase lhe consigo tocar se esticar um dos braços. Mas os braços estão carregados desses pesos e o corpo debate-se com a exaustão de levar consigo todas essas coisas que não nos interessam. Então dou por mim, neste cenário, a largar tudo o que não me faz falta, que apenas me causa peso, me prende ao chão, me impede de avançar, e vou. Porque devemos levar a vida com a leveza das penas. Devemos levar connosco apenas o indispensável. Tudo o resto devemos abandonar ao longo do caminho. E subir. Subir até chegar. Até chegar ao cume. 



PedRodrigues

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Imagem

São duas da tarde e a paisagem que se estende para lá dos meus olhos é uma imagem familiar: mar, areia, sol, cidade, azul, verde. Mesmo que neste momento feche os olhos a imagem continuará a existir, por dentro e por fora, igual, com mais ou menos pormenor. No entanto, por muito que vos queira mostrar, por palavras, esta imagem, este lugar, a tarefa aparenta-se impossível. Repito-vos: mar, areia, sol, cidade, azul, verde. E para vocês nada disto fará algum sentido. Talvez arranjem as palavras à vossa maneira e criem um lugar que não é este de que vos falo. As dificuldades da escrita passam muito por aí. Por esta projecção de tudo o que temos cá dentro através das palavras. Não é fácil. 
Quando comecei a escrever, ainda miúdo, diziam-me que escrever não era vida para ninguém, ser artista é muito difícil. Quando comecei a partilhar diziam-me para guardar as palavras nas gavetas, não devemos partilhar o que sentimos. Quando comecei a ter alguns seguidores havia quem me dissesse para estar quieto por não ter jeito nenhum para escrever. Agora que estou onde estou, a fazer o que faço, dizem-me que nunca chegarei onde quero chegar.  E enquanto o caminho se perpetuar, durante o curto momento que é a minha vida, continuarei a ser demovido de avançar, a ser tentado a cair na inércia: por ser difícil, por não ser suficientemente bom, por dever seguir as direcções que todos os outros apontam.
É verdade: não é fácil. Viver, escrever, amar, crescer, navegar, construir. Tudo o que nos constrói requer esforço. Porque o mundo, como existe, é uma máquina de destruir. Daí ser tão fácil nos destruirmos uns aos outros, nos desacreditarmos uns aos outros, mas tão difícil construir. O mar bate constantemente na pedra, mudando-lhe a forma, o vento arredonda-lhe as esquinas, ambos a vão transformando em areia, ao longo do tempo. Mas por mais que o tempo passe, o mar, o vento não transformarão a areia novamente em pedra. Acho que somos todos um pouco como aquela pedra, exposta aos elementos. Sabemos que no fim seremos areia, porque a realidade é perita em destruir-nos, mas, enquanto vivermos, vamos resistindo, fiéis à nossa génese, e ao nosso propósito mundano. 

Uma última imagem:
onda,
pedra,
espuma,
cidade,
azul, 
verde, 
casa,
horizonte


PedRodrigues


sábado, 10 de fevereiro de 2018

Amor 21

Era na altura em que as laranjas amadureciam nas árvores. O frio, a chuva, a nogueira despida,  ainda mostravam que era inverno. 
D. apaixonou-se por C.. Foi um amor à primeira vista. Um desses amores que entram como o bico da faca na carne, incrustando-se até ao cabo de uma vez. Um frio metálico, dilacerante, que deixou D. petrificado, de raízes plantadas como a velha nogueira do quintal, os seus dedos tremiam como os galhos da árvore empurrados pela brisa gelada daquele inverno.
C. estava demasiado concentrada no ecrã do seu telemóvel para se apaixonar por quem quer que estivesse para lá do objecto. O analógico aborrecia-a de morte. Vasculhava com os dedos finos as vidas alheias. Por vezes deixava sair um sorriso ligeiro, mais espasmo que reacção voluntária. Os lábios dela tinham curvas suaves, não haveria perigo em beijá-los, pensou D., enquanto o gume da faca o cortava mais um bocadinho por dentro.
C. guardou finalmente o telemóvel, o filtro com que maquilhava a vida. O céu não é assim tão azul, pensou. Se o telemóvel tivesse mais um pouco de bateria talvez guardasse lá dentro o céu para o mostrar ao mundo, para que os outros o pudessem ver um pouco mais azul e a felicitassem por tão belo registo da realidade - embora na realidade o céu não fosse assim tão azul. 
D. pensou em falar com C., mas a ideia pareceu-lhe absurda e logo a embrulhou e atirou para longe. 
O autocarro chegou e levou C. consigo.
Mais tarde, já o céu de inverno cobria de preto os galhos e as laranjas, D. deu por si agarrado ao motor de busca, procurando C.. Não lhe sabendo o nome, mas ainda lhe recordando os traços do rosto, deu por si numa missão que se adivinhava praticamente impossível. No entanto, a persistência revelou-se benéfica e a fotografia de C., dentro de um quadrado minúsculo, sorria para ele, de dentes muito direitos.
D. escolheu uma fotografia boa, em que se aparentava maior, mais bonito, mais viajado, mais feliz. Ninguém gosta de pessoas mastigadas pela realidade. Enviou o pedido de amizade e esperou. C. aceitou. O D. digital interessava-lhe. 
Viu uma fotografia das laranjas e disse que gostava disso. As laranjas são mais doces quando são fotografadas.  



PedRodrigues

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Coisas minhas

Dentro da minha cabeça tudo parece mais poético, mais artístico. Parece que quando as palavras saem, e apanham ar, oxidam, como o ferro escarnado em paredes antigas. Soo muito melhor debaixo da pele, dentro do perímetro craniano. Cá fora tudo se atropela, tudo parece gasto. Era óptimo que as palavras jorrassem para fora do corpo como o sangue quando cortamos uma artéria. Seria um belo e infeliz destino para as palavras: jorrarem do corpo como sangue. Mas é talvez isso que elas sejam: sangue. Algo que corre por dentro num circuito fechado. Talvez.


PedRodrigues

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

C.

É engraçado como algumas coisas começam ao fim do dia. Agora, algum tempo depois, dou por mim a pensar nisso dos começos. Agora, depois, no fim, dou por mim a pensar no ponto de partida: pôr do sol, rio, o céu arroxeado, lindíssimo, o teu rosto meio iluminado, meio protegido pela sombra. Deus, como era óptimo ver-te sorrir. Às vezes a cidade ainda cheira a esse final de tarde; devia ser primavera - tenho a certeza que era primavera: trazia um pulóver cinzento, a camisa por baixo, o calor não abundava (a não ser no teu sorriso). É engraçado como agora me lembro. Acho que, algures, a meio do caminho, alguns pormenores caíram no oblívio da rotina. Foi assim que lhe chamaste: rotina. Uma coisa que se intromete entre duas pessoas e, ao que parece, é como um nevoeiro que se vai adensando até que um não consiga ver o outro. É irónico como a proximidade entre duas pessoas, a partilha constante de momentos, de movimentos, de expressões, se torna numa espécie de distância. Algo que começa como apenas centímetros a separarem dois corpos, - nesse momento, ainda somos o hífen no verbo - até que, quando damos conta, estamos em páginas diferentes, em livros diferentes, em prateleiras diferentes. E o tempo passa e nós olhamos para trás - somos peritos em olhar pelo retrovisor, será que temos medo que o passado nos atropele? Não sei. Sei que vamos escavando da pele ao osso e, por vezes, quando olhamos para cima, estamos no fundo do poço. Escavamo-nos uns nos outros, alguns para procurar abrigo, outros para deixarem espaços vazios. Mas agora isso pouco importa. Quero apenas recordar aquele final de dia em que te conheci: o céu, o sol, o rio, os teus olhos, o teu sorriso de menina. Deus, como ficavas bonita a sorrir. Era primavera. Era, sem dúvida alguma, primavera. 



PedRodrigues

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Mata bicho

Devoro livros
como quem devora
um farto pequeno-almoço
depois de uma extenuante 
noite de son(h)o(s)

O pequeno-almoço é a refeição 
mais importante do dia




PedRodrigues

Classificados

Procuro:

alguém com quem construir um passado; alguém com quem possa decorar as paredes de uma casa com memórias; alguém com quem ficar: mesmo que o estuque caia, que os pilares e as lajes abanem, que o tempo se instale como as manchas de humidade; alguém com quem cartografar novos mapas: novas formas de me perder; alguém com quem partilhar o cheiro das primeiras chuvas de inverno; alguém com quem falar sobre o desabrochar das primeiras flores da primavera; alguém com quem adivinhar a vida das ondas; alguém com quem engomar as pregas dos lábios com beijos; alguém com quem discutir os temas mais banais, recauchutar os discursos mais eruditos; alguém com quem desabafar o medo da vertigem; alguém a quem dar a mão, antes de saltar para o incerto; alguém assim: impossível de cingir aos limites de um texto.


PedRodrigues 


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Ode a 2018

Era já um novo ano e tu vivias dentro das paredes, a desenhar polegares com as pontas do indicador. Tudo te parecia um teatro, mas tu alinhavas, às escuras, esperando novos desfechos enquanto perpetuavas gestos antigos. Errar não é assim tão mau, talvez um dia aprenda. E os dias continuavam, do lado de fora das enormes janelas, o vidro tão limpo que quase consegues tocar o céu, do lado de fora. As piores prisões são as que construímos com as nossas mãos. O ano ainda agora começou e as promessas são tantas. Será que vou a tempo?, pensas. Ainda vou a tempo, respondes. Mas a inércia instala-se nos ossos, como se fizesse parte da sua constituição química. Tens os pés presos ao erro. Talvez desta vez seja diferente (talvez). Amaldiçoas tudo o resto, menos a ti, porque a culpa é menos pesada quando não a carregamos connosco - e é tão fácil depositá-la nos outros. Dentro do ecrã és a pessoa mais feliz do mundo. Nas fotografias sorris. Tens os braços levantados, elevados acima da cabeça, como quem festeja um golo, ou a queda de um regime absolutista. E as pessoas passam a mão pela tua felicidade, dois toques com o indicador, um coração. Comentam-na e partilham-na, como se a apalpassem. Soubessem elas o vazio que trazes por dentro - os vazios. A natureza abomina o vazio. Deve ser por isso que o preenchemos com os falsos elogios das mãos distantes, com os beijos dos Judas que sabemos cravarem o nosso fatal destino nas costas, com os sorrisos abafados atrás das mãos, para que não vejas, quando cais e esfolas os joelhos. Aprende que o melhor das quedas é a oportunidade de te ergueres (mais, melhor). Aprendemos muito quando esfolamos o corpo no chão. Aprendemos a apreciar o doce, quando provamos o que é amargo. Portanto aprendemos muito sobre o céu, quando sentimos o sabor terroso do pó. Sabes o que repito, vezes sem conta, quando caio? Uma frase que o meu avô, de mãos encardidas, me poisava como um manto pelos ombros: só sabe da vida, quem vive nela. E é assim. Será sempre assim.



PedRodrigues

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Janeiro

Devíamos morder a carne,
como mordíamos as pilhas
do discman, por
mais um pouco de energia
Mordíamos o corpo
como quem o acorda
para a vida.
Só mais um minuto,
só mais uma música,
só mais este refrão.


PedRodrigues

sábado, 30 de dezembro de 2017

2017/2018

O relógio do computador anuncia o avançar do tempo: véspera de ano novo, amanhã, adiar, ignorar. Carrego em ignorar, não porque espere que a minha acção produza um efeito de paragem; que nada avance e se mantenha, imutável, e eu me deixe ficar, neste limbo entre o final de um ano e o início de outro: lamentando os erros passados e aguardando e prometendo - mais esta segunda - glórias futuras. De todo o lado me chegam mensagens. O mundo tem-se tornado pequeno e nas minhas redes sociais pessoas entram, como convidados inesperados num museu em que tudo olham e buscam, procurando significados e soluções. A minha vida tem sido um livro aberto desde 2010. Um livro que muitos interpretam como algo belo, fazendo de mim o mais cândido dos personagens, o último dos românticos, o catalisador de todas as alegrias e tristezas. A imagem criada é bela, e tendo a acreditar nela, ciente porém das minhas limitações. É aqui que entram os primeiros lamentos, que são como hérnia a empurrar os tendões por dentro, tornando-se numa indisposição permanente. A imagem criada desse lado é uma figura que vive para lá do espelho, num mundo como o da Alice, fora do alcance mortal a que estamos sujeitos. Ainda acredito ser um dos últimos românticos, porque me lembro do meu avô, com oitenta anos, joelhos cansados de próteses plásticas, a pedalar com chuva, ou sol,  até ao cemitério, até à campa da minha avó, para que tudo estivesse limpo, as flores estivessem frescas. Acredito neste amor que é um sentimento de continuação, um lugar que continuamos a visitar e nos alegra e entristece, ao mesmo tempo - é por isso que a poesia se une com a metafísica. Acredito que o viverei e por isso me exponho ao erro, esmurro o chão, falho. Hoje sou apenas uma possibilidade de tudo isso, mas durante anos vivi relações nas quais fui carne e ossos, nunca procurando para lá do corpo. Amei, fui amado e ali fiquei, nunca buscando fora do mapa novos caminhos. Se estamos felizes, para quê procurar outros lugares? No entanto, hoje estou sozinho e sujeito a todo o tipo de tentações, muitas delas perigosas, que por vezes me fascinam e me fazem esquecer certas amarras, amores que não tenho, amores que talvez devesse procurar. Não sei.
E então aqui estou, a escrever-vos neste limbo, ciente das minhas limitações, das falhas em alguns actos. Não querendo cair no descuido de vos encher de lugares comuns, sei que os erros, as falhas de julgamento estão ao alcance de todos. Todas as vidas têm o lado B, como as cassetes antigas. Seremos seres aptos para a desgraça, e isso terá o seu quê de beleza, como as noites muito escuras em que olhamos o céu e encontramos uma pequena luz no breu denso, uma réstia de esperança. Eu também espero, imerso nesta minha imagem ao espelho, como Narciso a olhar a sua imagem na água, acreditando nos momentos em que falhei como lições. Voltar a errar é inevitável, é a nossa natureza. E o mundo caminha nesse sentido, com todos os seus telemóveis e computadores e ipads e por aí fora, sedentos de erros que nos façam apontar dedos, que nos façam achar acima de tudo isso. Vivemos na ideia que nos tem sido imposta que as nossas vidas têm de ser perfeitas. Carregamos as redes sociais com ideias - mais que imagens. E hiperbolizamos essas ideias, esperando que as reacções alheias nos confortem como abraços. O mundo é muito esta ideia perigosa de podermos ser, hoje em dia. É uma tese perigosa. Eu estou em paz com os meus erros, e a única coisa que peço - embora não seja um pedido, porque isso não chega - será não voltar a cair neles. Distinguir o trigo do joio, pousar o telemóvel e o computador e apreciar mais os dias. Aceitar que as tentações existem e que estão ao virar da esquina - e o mundo é todo feito de esquinas. Vou devagar, como marinheiro a ser guiado pelas estrelas, sem rumo. Porque a vida é muito assim, a viagem. A sensação constante de querer chegar a algum lugar.



PedRodrigues

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

2018

Nas notícias fala-se
dum homem que adivinha
com inusitada exactidão
todas as desgraças 
do mundo.
E as pessoas amedrontam-se
não apenas com o
inevitável futuro,
mas com a 
possibilidade de
alguém o conseguir
ver antes do tempo.
Tudo isso me leva
à conclusão
que andamos todos
aqui ao engano
e ainda não percebemos
a lei da probabilidade. 
É tudo 50/50.
Não é como o joelho
do meu avô
que adivinhava o tempo
Vem aí chuva
e na meteorologia 
nem um pingo
e no dia seguinte
Está de chuva
e a mulher do 
noticiário
Vem aí tempestade.
o joelho do meu avô
já nada sente
Está um sol radiante.
as notícias do mundo
estão todas erradas.

É provável que 
o ano que vem
seja soalheiro,
com alguns aguaceiros 
pelo meio.


PedRodrigues

Destino

Não vou falar do valor
da constante de Planck
na fórmula que determina
a energia dos fotões
que incidem no teu 
rosto de menina.
Não vou dizer nada
tão irracional como
a base de um 
logaritmo (paradoxalmente?)
natural.
Se rodasses numa festa
a dançar, olharia primeiro
para ver se estavas descalça
e depois talvez me lembrasse
das espirais mais complexas
do ADN. Será que a tua 
boca sabe com precisão
o perímetro da minha?
Não vou falar de nada disto.
Apenas da flecha arremessada
que como a promessa falhada
julgamos poder remediar
o destino.
Se eu soubesse como 
construir uma máquina do tempo
falar-te-ia da constante de Planck,
dos logaritmos naturais, 
das espirais do nosso ADN 
misturadas naquele 
último beijo. 



PedRodrigues

sábado, 11 de novembro de 2017

Despedida

E mudei o teu nome na agenda do meu telemóvel. E ao fazê-lo sabia ser uma despedida. Tu já tinhas chorado todas as lágrimas e eu já tinha gasto todas as palavras. Não havia muito mais a fazer. Do eterno ao fim vai apenas um segundo. Sei que havias inventado na tua cabeça que a nossa história de amor seria assim: um dia acabaríamos por nos auto-destruir e procurar um canto onde fosse possível lamber as cicatrizes. Encontraríamos outras pessoas. Tu um homem que te fizesse sorrir e te desse a mão por estares em baixo. Não seria fácil voltar a conquistar-te. Dizias que os meus olhos eram precipícios demasiado fundos para voltares de lá inteira. Mas talvez encontrasses alguém que não te curasse a ferida, mas te cuidasse da cicatriz. Dizias que um dia voltarias, senhora de ti, com roupas caras e jóias mais brilhantes que qualquer estrela, e me tirarias o folgo. Eu estaria à tua espera, sozinho, porque não saberia amar mais ninguém- até certo ponto, tinhas razão. Não sei amar noutras línguas, com outros vocabulários. Sou um ser arcaico. Nunca acreditei em histórias que já fossem outros filmes, ou outras músicas. Acredito que cada um segue a vida à sua maneira, na sua contramão. Temos direito às nossas cenas, à nossa banda sonora. E todo este tempo me achei acima de toda a tempestade. Olhava de cima e escrevia sobre o desamor, novos amores, mulheres de lábios vibrantes que não os teus. E tu ao longe, a seres feliz, a encontrares essa tal pessoa que te levasse em ombros como eu nunca soube levar. Por momentos as tuas fotografias foram uma ideia dolorosa de um futuro que não foi. De um passado que não construímos juntos. Por momentos recordei o último adeus. A linha de comboio, a tua imagem a chorar até eu me tornar demasiado longe para ser o abraço que precisavas. Por momentos achei que fui um parvo, um tosco, um cobarde, ou outra coisa qualquer. Mas depois vi o teu sorriso e o dele. Vi o brilho dos teus olhos, os mares azuis e as areias finas. Vi que estás bem, ao lado de alguém que te rasga o sorriso e te abraça com devoção.  Espero que te demores nesse abraço. Mereces ser feliz.



PedRodrigues

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Qualquer coisa sobre a inveja

Anda tanta gente preocupada
com os erros alheios
e os tropeções de terceiros,
que se esquecem de olhar
para as pedras no próprio caminho
(e nem dão conta de estarem
à beira do precipício
em risco de cair)

Fica o aviso:
a inveja pesa mais
que uma tonelada de algodão.
Lembra-te disso
quando te despenhares 
no chão. 



PedRodrigues

sábado, 4 de novembro de 2017

Dançando à chuva

Empurrei o teu cabelo molhado.
Não sabia se era Outono, ou era amor
nos teus lábios.
Quis dizer-te algo bonito.
Algo que fizesse justiça à beleza
daquele momento.

- Até o céu se quer despenhar
no teu corpo.

PedRodrigues

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Ao meu avô

Faz hoje um ano que te vi pela última vez. Um ano. Depois de teres partido aconteceram muitas coisas, avô. Depois de ti entrei numa casa cujas portas já não chegaste a passar. Acabei um novo  livro cujas palavras nunca chegaste a ler, mas que te dediquei. A escrita é uma forma de te continuar, mas a saudade não cabe inteira nas margens do papel, acaba sempre por transbordar. Agora já não te oiço a leres-me em voz alta as notícias, com o dedo a apontar as palavras com medo que elas escapem. Quando regresso a casa olho para o sofá da sala, agora sempre vazio, esperando que te levantes e me esmagues os ossos com um abraço. O pai ocupou o teu lugar na mesa, ao meu lado. Um ano, meu amigo. Um ano. O tempo tem sido generoso comigo, em parte. As pessoas continuam a achar que os anos não passam por mim. Mas passam, avô. Elas não conseguem ver os vazios que trago por dentro. Acreditas que não faço a barba há mais de um mês? Se aqui estivesses teria de te ouvir dizer que pareço um pilantra, no teu tom bruto. Até disso tenho saudades. O nosso Benfica não anda a jogar nada, mas pode ser que ainda lá vá. Há umas semanas fui ajudar a mãe ao cemitério, a campa ficou bonita, com flores frescas que me faziam lembrar a primavera. Acredito que desse lado as andorinhas te cantem ao ouvido. A mãe está bem, acho que todos os dias fala de ti. É impossível esquecer-te, sabes? Sou-te sincero, não sei o que para aqui escrevi, porque ainda não reli, mas tudo o que queria era transformar estas lágrimas que estou a chorar num texto que não te deixasse partir inteiramente. Entretanto tenho de ir almoçar, para voltar ao livro que estou a escrever. Mais logo vou para o futebol, mas não te preocupes que não me aleijo. A única coisa que me dói de momento é esta puta desta saudade. Vou parar de escrever, por agora.


Espero que seja Primavera onde estás, meu amor.
Do teu pombo,


Pedro

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Cadernos da cidade nova [03/10/2017]

Ia no 756 quando a vi. Sentou-se à minha frente. Enquanto falava ao telemóvel enrolava as pontas dos cabelos, num gesto repetido durante todo o percurso. Trazia uma espécie de camisa enrolada nas mangas, com padrões excêntricos e cores berrantes que contrastavam com o moreno leve na pele, e os olhos escuros. O sorriso foi o que mais me prendeu a ela. Por mais que quisesse não conseguia desviar o olhar. Era um sorriso demasiado livre para pertencer. Tinha o tom pérola que encontramos nas maiores luas de verão. Não sei o que havia para lá daquela imagem: nada lhe disse. Nada a mim chegou, também - a não ser a largura daquele sorriso que ainda guardo comigo. E dei por mim a pensar: será o teu sorriso tão bonito como o teu coração? Quis acreditar que sim. 


PedRodrigues

Cadernos da cidade nova [09/10/2017]

Às vezes fecho os olhos e penso no lugar onde os meus pés estão pousados. Se estiver a ouvir uma música, essa passa a ser a banda sonora desse momento. Nesse lugar, nesse momento, por vezes, a minha vida é toda um sopro, que acontece num fechar de olhos. E dou por mim a arrepender-me das viagens que não fiz, das bocas que não beijei, das danças que neguei, dos amanheceres que perdi, por estar demasiado cansado. Esqueço os momentos em que fui feliz: os gritos de vitória, os sorrisos, os brindes, as fogueiras na praia noite adentro, os países onde me perdi. Tudo isso se aparenta muito pouco, tendo em conta tudo o resto. Sinto-me preso à ideia que por mais momentos felizes que tenhamos, basta um momento de infelicidade para nos sentirmos as pessoas mais azaradas do mundo. E dou por mim a amaldiçoar todas as bocas que teimam em me tentar esmagar, esquecendo de agradecer todos os ombros que na maior parte do tempo me carregam e me aproximam do céu. Somos uns fatalistas do caraças, penso, enquanto dou um murro na mesa e olho novamente para o chão onde os meus pés estão assentes. Se a vida fosse sempre a direito o nosso coração seria um músculo cansado. São os altos e os baixos que o acordam e o fazem bater com força. Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro, disse-o Freud, com toda a razão. Já que não nos foi dada outra matéria durante a criação, usemos o que temos da melhor maneira. Aprendamos a agradecer o chão que vamos pisando, de sorriso no rosto, dando graças a quem nos carrega em ombros e esquecendo quem nos quer a cabeça junto às pedras da calçada. O nosso tempo é demasiado sumptuoso para ser perdido com ninharias. 



PedRodrigues

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Ela



Ela é demasiado teimosa para não ser livre. Podes ver pela forma como ela se mete em bicos dos pés, a dançar de braços abertos, sem se preocupar com as correntes do mundo. Ela sabe que por dentro somos leves como as penas dos pássaros, e podemos ir para lá do horizonte do olhar. Ela é como os primeiros raios de sol das manhãs teimosas que tentas tapar com as mãos e, mesmo que muito tentes, ela acaba por te entrar pelos olhos sem permissão e ficar a morar em ti.  Ela faz tudo menos seguir as regras: é o doce e o amargo que se espalha pela tua boca até se despenhar no teu centro. Ela é o sorriso do começo, a lágrima do fim, a ferida e a cicatriz que te faz meter em causa todos os futuros. Ela é, no fundo, todas as estações no mesmo dia: pode acordar no verão e adormecer no inverno. Como te disse, ela não segue as regras. E tu vais pensar se será uma sorte ou um azar teres alguém assim. Alguém que, como uma montanha-russa, te leva entre a vertigem do incerto, e a certeza do chão que julgas precisar pisar. Mas ela é mesmo assim e vais acabar por aprender que, como ela, diante do precipício não precisas de olhar para baixo. Como ela, deves aprender a confiar. O céu pertence aos que sabem ter asas de voar. Ela sabe-o. E tu?



PedRodrigues