quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Eu não largo a tua mão, B.

Foi ela que me disse, ainda antes do nosso primeiro encontro: és muito persistente, não és? Eu sorri para o ecrã do telemóvel, enquanto pensava para mim: não sabes o quanto - acho que acabei por lho dizer, ou que sou extremamente teimoso; adiante. Uma frase, no entanto, ficou em loop, repetindo-se de forma incansável dentro da minha cabeça: “take the thing you love and make it your life.” Nessa altura ainda não a conhecia. Não sabia o que seria de nós. Mas o tempo encarregou-se de nos levar com ele e, quando dei por mim, os meus medos e os dela passeavam de mãos dadas pelo Chiado, com as luzes de Natal, como estrelas poisadas sobre todas as coisas, a iluminarem o rosto dela. Nesse momento dei por mim novamente a pensar naquela frase e de novo as minhas mãos tiveram vontade de apertar as dela. Novamente tive vontade de lhe dizer: eu também tenho medos; eu também tenho monstros que me atormentam à noite; mas quero matar os monstros contigo, ou dançar contigo entre eles. O medo é o espaço entre o limite do chão e o início do vazio. O medo: “- What if I fall?/ - What if you fly?”
Penso que é assim que as histórias de amor começam: tímidas; a medo. É a vertigem, antes do salto. 
Saltamos juntos. 
Eu não largo a tua mão. 
Palavra de honra que eu não largo a tua mão. 



Pedro Rodrigues

domingo, 16 de dezembro de 2018

A B.

Já não escrevia ébrio há um tempo. E temo que o que vai sair daqui se aparente difuso, sem um fio condutor, uma espécie de catástrofe de letras, sei lá. A verdade é que são 7:07, cheguei de uma longa noite entre amigos, copos entornados, música, risos e palavras gargalhadas. Mas tudo o que me ocupou o tempo foram os olhos dela. Os olhos dela, rasgados, antigos, como pedras ancestrais, basilares. Algo. O começo. A fundação. Os olhos dela que, aparentemente, são uma galáxia distante, algo inalcançável, mas que comigo, a olharem para mim, brilham como estrela, como uma supernova em combustão no espaço sideral. Não vos sei explicar. Sei o que vejo. Sem figuras de estilo. Ela olha-me e os olhos brilham. Nesse momento percebo: ok, estamos aqui. Mesmo depois dos meus medos. Mesmo depois dos medos dela. Eu penso: não sei o que será de nós, mas acredito. E tudo isto é demasiado vago. Demasiado pagão. Não sei. Tudo o que penso é que quero estar com ela. Contar-lhe as idiossincrasias dos meus dias - ouvir as dela. Sei lá. Tudo o que vem neste momento se aparenta difuso - como comecei. Mas é tão real. A imagem dela. Os lábios. Foda-se, os olhos. Aqueles olhos que parecem ter percorrido anos até chegarem aos meus. Estou ébrio e, dentro do perímetro craniano, tudo isto se aparentava mais poético, mais belo. Não sei o que será de nós. Mas espero que seja algo bonito: uma vida, um amor, lábios simbióticos numa eternidade quotidiana. Sei lá. Era isto que te queria dizer. Ou muito mais. Mas, para já, fica isto. E os teus olhos, e o tempo guardado num feixe de luz. Podemos adormecer dentro de um abraço? Conto que sim.
Muito, 
meu amor 


Pedro Rodrigues 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Amoras Silvestres: B.

Corro a cidade
pelas artérias 
acelerando como os litros de sangue 
que separam o coração de tudo 
o resto

E é ao ver ao longe o teu rosto que
paro, escuto, reparo
com atenção
e percebo
que a vida é um mapa
circular e que 
as estações
se sucedem
umas às outras:
começando
e terminando 

em ti                 

Pedro Rodrigues