segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Natal

Ficamos nesta data
a contemplar o lugar comum do vazio
o abstracto momento
em que juntos
parecemos tão poucos
quando relembramos
os entes caídos sobre a terra
onde mais tarde, na primavera,
nascerão flores
a data cíclica repete-se
como todas as outras coisas
apenas imune ao desuso
propensa a caras festivas
mesmo que ao engano
agradeço sobre todas as coisas
mas todas as coisas são entulho
da vida, amealhado ao longo dos anos
Agradeço portanto noutros
dias quando as telecomunicações
e o mundo não estiverem entupidos de
mensagens maquilhadas.
Depois de amanhã vem o vinte e seis:
será que os votos se mantêm?

Pedro Rodrigues

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Eu não largo a tua mão, B.

Foi ela que me disse, ainda antes do nosso primeiro encontro: és muito persistente, não és? Eu sorri para o ecrã do telemóvel, enquanto pensava para mim: não sabes o quanto - acho que acabei por lho dizer, ou que sou extremamente teimoso; adiante. Uma frase, no entanto, ficou em loop, repetindo-se de forma incansável dentro da minha cabeça: “take the thing you love and make it your life.” Nessa altura ainda não a conhecia. Não sabia o que seria de nós. Mas o tempo encarregou-se de nos levar com ele e, quando dei por mim, os meus medos e os dela passeavam de mãos dadas pelo Chiado, com as luzes de Natal, como estrelas poisadas sobre todas as coisas, a iluminarem o rosto dela. Nesse momento dei por mim novamente a pensar naquela frase e de novo as minhas mãos tiveram vontade de apertar as dela. Novamente tive vontade de lhe dizer: eu também tenho medos; eu também tenho monstros que me atormentam à noite; mas quero matar os monstros contigo, ou dançar contigo entre eles. O medo é o espaço entre o limite do chão e o início do vazio. O medo: “- What if I fall?/ - What if you fly?”
Penso que é assim que as histórias de amor começam: tímidas; a medo. É a vertigem, antes do salto. 
Saltamos juntos. 
Eu não largo a tua mão. 
Palavra de honra que eu não largo a tua mão. 



Pedro Rodrigues

domingo, 16 de dezembro de 2018

A B.

Já não escrevia ébrio há um tempo. E temo que o que vai sair daqui se aparente difuso, sem um fio condutor, uma espécie de catástrofe de letras, sei lá. A verdade é que são 7:07, cheguei de uma longa noite entre amigos, copos entornados, música, risos e palavras gargalhadas. Mas tudo o que me ocupou o tempo foram os olhos dela. Os olhos dela, rasgados, antigos, como pedras ancestrais, basilares. Algo. O começo. A fundação. Os olhos dela que, aparentemente, são uma galáxia distante, algo inalcançável, mas que comigo, a olharem para mim, brilham como estrela, como uma supernova em combustão no espaço sideral. Não vos sei explicar. Sei o que vejo. Sem figuras de estilo. Ela olha-me e os olhos brilham. Nesse momento percebo: ok, estamos aqui. Mesmo depois dos meus medos. Mesmo depois dos medos dela. Eu penso: não sei o que será de nós, mas acredito. E tudo isto é demasiado vago. Demasiado pagão. Não sei. Tudo o que penso é que quero estar com ela. Contar-lhe as idiossincrasias dos meus dias - ouvir as dela. Sei lá. Tudo o que vem neste momento se aparenta difuso - como comecei. Mas é tão real. A imagem dela. Os lábios. Foda-se, os olhos. Aqueles olhos que parecem ter percorrido anos até chegarem aos meus. Estou ébrio e, dentro do perímetro craniano, tudo isto se aparentava mais poético, mais belo. Não sei o que será de nós. Mas espero que seja algo bonito: uma vida, um amor, lábios simbióticos numa eternidade quotidiana. Sei lá. Era isto que te queria dizer. Ou muito mais. Mas, para já, fica isto. E os teus olhos, e o tempo guardado num feixe de luz. Podemos adormecer dentro de um abraço? Conto que sim.
Muito, 
meu amor 


Pedro Rodrigues