terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Manual de Cardiologia

Amares alguém
é dares-lhe a faca
e esperares
o golpe
que te abre como uma porta

se tiveres sorte
do outro lado levam a linha
suturam-te
e trancam-se por dentro

se tiveres azar
prepara-te
para a desordem:

o vento entra com facilidade pelas portas abertas

Pedro Rodrigues

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O último poema, do último tempo

dada a possibilidade 
dou por mim constantemente a escolher
os artigos defeituosos, as almas perdidas,
as pessoas destroçadas por dentro
por isto ou aquilo
tenho uma aptidão para a desgraça
e acho isso bonito
pelo menos por momentos
até o sangue me subir
a duzentas rotações 
por minuto à cabeça
e tudo se turvar
e o presente se 
tornar demasiado doloroso
para ser vivido de olhos abertos
mas 
a beleza desse mundo
partido como o espelho
por uma marreta
traz-me sempre de volta

dada a possibilidade
escolho os cacos
os destroços
as ruínas
e tento juntar tudo
como uma bela confusão
ou uma forma de arte




Pedro Rodrigues

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Gente dentro

fundamentalmente 
somos todos cacos
com gente dentro

somos coisas partidas
pouco
muito pouco
mas com gente dentro

fitamos a beleza
das explosões
junto ao abismo
pé, após pé
avançamos para o vazio
será que há gente dentro?

sei muito pouco do salto
já cheguei assim
estilhaçado
com gente cá dentro
a bater no beito
como quem bate à porta
deixa-me sair
deixa-me sair
deixa-me sair
60 bpm
deixa-me sair

será que do lado de fora 
há gente que me dê a mão?


Pedro Rodrigues