sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Ao meu avô

Faz hoje um ano que te vi pela última vez. Um ano. Depois de teres partido aconteceram muitas coisas, avô. Depois de ti entrei numa casa cujas portas já não chegaste a passar. Acabei um novo  livro cujas palavras nunca chegaste a ler, mas que te dediquei. A escrita é uma forma de te continuar, mas a saudade não cabe inteira nas margens do papel, acaba sempre por transbordar. Agora já não te oiço a leres-me em voz alta as notícias, com o dedo a apontar as palavras com medo que elas escapem. Quando regresso a casa olho para o sofá da sala, agora sempre vazio, esperando que te levantes e me esmagues os ossos com um abraço. O pai ocupou o teu lugar na mesa, ao meu lado. Um ano, meu amigo. Um ano. O tempo tem sido generoso comigo, em parte. As pessoas continuam a achar que os anos não passam por mim. Mas passam, avô. Elas não conseguem ver os vazios que trago por dentro. Acreditas que não faço a barba há mais de um mês? Se aqui estivesses teria de te ouvir dizer que pareço um pilantra, no teu tom bruto. Até disso tenho saudades. O nosso Benfica não anda a jogar nada, mas pode ser que ainda lá vá. Há umas semanas fui ajudar a mãe ao cemitério, a campa ficou bonita, com flores frescas que me faziam lembrar a primavera. Acredito que desse lado as andorinhas te cantem ao ouvido. A mãe está bem, acho que todos os dias fala de ti. É impossível esquecer-te, sabes? Sou-te sincero, não sei o que para aqui escrevi, porque ainda não reli, mas tudo o que queria era transformar estas lágrimas que estou a chorar num texto que não te deixasse partir inteiramente. Entretanto tenho de ir almoçar, para voltar ao livro que estou a escrever. Mais logo vou para o futebol, mas não te preocupes que não me aleijo. A única coisa que me dói de momento é esta puta desta saudade. Vou parar de escrever, por agora.


Espero que seja Primavera onde estás, meu amor.
Do teu pombo,


Pedro

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Cadernos da cidade nova [03/10/2017]

Ia no 756 quando a vi. Sentou-se à minha frente. Enquanto falava ao telemóvel enrolava as pontas dos cabelos, num gesto repetido durante todo o percurso. Trazia uma espécie de camisa enrolada nas mangas, com padrões excêntricos e cores berrantes que contrastavam com o moreno leve na pele, e os olhos escuros. O sorriso foi o que mais me prendeu a ela. Por mais que quisesse não conseguia desviar o olhar. Era um sorriso demasiado livre para pertencer. Tinha o tom pérola que encontramos nas maiores luas de verão. Não sei o que havia para lá daquela imagem: nada lhe disse. Nada a mim chegou, também - a não ser a largura daquele sorriso que ainda guardo comigo. E dei por mim a pensar: será o teu sorriso tão bonito como o teu coração? Quis acreditar que sim. 


PedRodrigues

Cadernos da cidade nova [09/10/2017]

Às vezes fecho os olhos e penso no lugar onde os meus pés estão pousados. Se estiver a ouvir uma música, essa passa a ser a banda sonora desse momento. Nesse lugar, nesse momento, por vezes, a minha vida é toda um sopro, que acontece num fechar de olhos. E dou por mim a arrepender-me das viagens que não fiz, das bocas que não beijei, das danças que neguei, dos amanheceres que perdi, por estar demasiado cansado. Esqueço os momentos em que fui feliz: os gritos de vitória, os sorrisos, os brindes, as fogueiras na praia noite adentro, os países onde me perdi. Tudo isso se aparenta muito pouco, tendo em conta tudo o resto. Sinto-me preso à ideia que por mais momentos felizes que tenhamos, basta um momento de infelicidade para nos sentirmos as pessoas mais azaradas do mundo. E dou por mim a amaldiçoar todas as bocas que teimam em me tentar esmagar, esquecendo de agradecer todos os ombros que na maior parte do tempo me carregam e me aproximam do céu. Somos uns fatalistas do caraças, penso, enquanto dou um murro na mesa e olho novamente para o chão onde os meus pés estão assentes. Se a vida fosse sempre a direito o nosso coração seria um músculo cansado. São os altos e os baixos que o acordam e o fazem bater com força. Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro, disse-o Freud, com toda a razão. Já que não nos foi dada outra matéria durante a criação, usemos o que temos da melhor maneira. Aprendamos a agradecer o chão que vamos pisando, de sorriso no rosto, dando graças a quem nos carrega em ombros e esquecendo quem nos quer a cabeça junto às pedras da calçada. O nosso tempo é demasiado sumptuoso para ser perdido com ninharias. 



PedRodrigues