domingo, 15 de janeiro de 2017

Cartas ao meu avô

São três meses de ausência.
Às vezes penso que foste apenas fazer uma última viagem de barco, e que, eventualmente, acabarás por voltar para mim, para me apertares a mão com força, e me dares um daqueles abraços de esmagar as costelas. Antes das lágrimas caírem há sempre um sorriso, por imaginar que voltarás com mais histórias daquelas que repetias todos os dias à refeição, ou quando estávamos os dois sozinhos na sala, a ver televisão. Não sei onde estás, porque não têm chegado cartas, mas acredito que seja um sítio muito longe e elas se tenham perdido pelo caminho. Acredito que não te tenhas esquecido de mim, porque os melhores amigos não se esquecem uns dos outros. O amor é um bem imaterial, que não segue as leis da física, e portanto não há espaço, nem tempo que nos desligue um do outro. Assim sendo, eu aguardo o teu regresso com saudade, repetindo-te nas palavras que vou escrevendo para o mundo. E guardando em mim todos os anos em que fomos felizes a ouvir as aventuras um do outro.

Com amor,

O teu pombo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Janeiro

Toca a Intro (Original Mix) dos The XX e o convite é claro: sorri um pouco. Começar costuma ser a tarefa mais ingrata - pelo menos para mim. E daqui a pouco as horas viram dias, e os dias meses, e os meses oceanos - como diria o David Mourão-Ferreira. E quando dermos por nós talvez não haja escapatória possível, talvez nos afoguemos nessa imensidão líquida. Temos aprendido a nadar, como nas aulas de natação da nossa infância. Temos tentado manter a cabeça à tona, com medo que nos falte o ar. Diz-me: tens aproveitado? A pergunta parece tão simples, tão estúpida. Não são essas as mais difíceis de responder? E todos os dias uma vontade à minha volta de regressar ao passado: ao sol, ao calor, aos festivais, às noites de pés no mar, a olhar a imensidão negra, como que esperando por respostas. À minha volta uma necessidade de acelerar o relógio: hoje estou nos vintes, mas adorava já estar nos trintas: quando lá chegar é que estou no ponto. Enquanto isso Roma arde à minha volta. Eu rio-me um pouco. Gosto tanto de rir, por que não gasto mais tempo aqui? E continua à minha volta a contestação: porque hoje está frio, porque os casacos pesam, porque o calor é que é, e todos vivem o Janeiro a chorar pelo Julho e a imaginar os dias de Agosto. Enquanto isso, eu pergunto novamente: tens aproveitado? E entre a pergunta e a resposta o tempo vai passando entre os dedos, como uma areia fina, que teima em não se agarrar. Tudo nos parece escapar. Sonhamos com a liberdade, mas sentimos necessidade de controlar. E choramos os dias que não vivemos como devíamos ter vivido, as viagens que não fizemos, os livros que não lemos, os filmes que não fomos ver ao cinema, os amores que não soubemos guardar. Choramos tudo o que não conseguimos controlar. E na nossa frágil condição, perdemos a oportunidade de perceber que podemos escolher a liberdade, fugir ao status quo. Desligar a televisão, poisar os telemóveis, esquecer os #throwbacks, e aproveitar o sol de Janeiro. Não porque nos faz lembrar Junho, ou Julho, Agosto, mas porque sabe realmente bem o seu calor, independentemente do dia, mês, ou ano. Aproveitar as cores destes dias. Guardar o momento. Porque não há dois minutos iguais, e no final desta música não há replay. 


PedRodrigues

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Cinco minutos, amor

Cinco minutos. São só mais cinco minutos. Não podes esperar um pouco? São só mais cinco minutos. O ano novo pode esperar. As novas conversas podem esperar. As novas pessoas podem esperar - ainda nem me conhecem, por que carga de água não esperariam? As lágrimas podem esperar, e os abraços também, e os beijos na cara, e as noites de solidão e as noites de alegria e copos catatónicos também esperam por nós, são só mais cinco minutos aqui, mais cinco minutos a guardar este espaço, este tempo que ainda me pertence. Para quê tanta pressa? Ainda ontem dei o meu primeiro beijo, no campo da escola: as miúdas tinham vergonha, os miúdos gozavam - o amor era motivo de chacota, nessa altura, o que interessava era ser o melhor no futebol, com mais fintas, mais golos, mais gritos para o ar e sapatilhas rasgadas do uso - brincávamos às escondidas, à apanhada, e os melhores eram sempre os que se escondiam melhor, os que fugiam mais, - talvez devesse ter continuado a esconder-me e a fugir, mas o tempo corre sempre mais, encontra-me sempre melhor - e os verões duravam meses, com os pés enterrados na areia e os lábios roxos das horas passadas no mar, e no mar os melhores eram os que apanhavam as ondas maiores, mesmo que depois se desmanchassem com elas na areia, e comíamos camarinhas como se fôssemos náufragos esfomeados nesses verões intermináveis da nossa infância, e também demos beijos na praia às miúdas de biquíni que vinham de fora, fazíamos fogueiras e dançávamos, dançávamos, dançávamos como se a vida fosse uma banalidade que podia esperar pelo amanhã, e depois o tempo, sempre o tempo, a faculdade, uns para aqui, outros para ali, as revoltas, os amores um pouco mais sérios, as primeiras chatices, os primeiros corações partidos, - até ali desenhavam-se inteiros, no vapor preso nos vidros -  o perceber que a vida também acaba e há amores que partem para sempre porque temos de aprender a guardar dentro de nós o que é importante, como se fôssemos um cofre para pessoas valiosas, e somos atropelados pelos invernos gelados que nos obrigam a procurar abrigo num abraço qualquer. E são só mais cinco minutos aqui. O ginásio do ano que vem pode esperar, já me inscrevi, e prometo lá ir até ficar com um corpo de capa de revista - será que assim voltas para mim? - a casa pode esperar, os móveis podem esperar, porque a casa não se faz de betão e aço e outros materiais, faz-se de pessoas e as pessoas fazem-se de amor, o que quer dizer que no  final das contas as casas se fazem de amor, talvez te leve para lá e as nossas sombras possam namorar no silêncio do bairro, e faço-te novamente os jantares, preparo-te as marmitas, tomo conta de ti, como o bem precioso que és. E talvez este ano que vem seja o ano. O ano de que falamos aos anos. Este ano é que é. Porque Janeiro traz sempre possibilidades, e Dezembro, habitualmente, traz as desilusões: podia ter feito, podia ter sido, podia. E os tempos verbais têm de mudar - tudo muda, dizem as leis da Física. Estamos em constante mutação. E talvez este ano escolha ser um pássaro, livre, com asas para voar e chegar ao sítio onde pertenço. Mesmo que a casa, mesmo que a praia, mesmo que os beijos, mesmo que as lágrimas, mesmo que o ginásio. Este ano talvez seja pássaro e te leve comigo. Vamos ver o mundo lá de cima. Juntos. Mas primeiro o ano pode esperar. São só mais cinco minutos. O novo ano pode esperar. Dá-me só mais cinco minutos, amor. 



PedRodrigues