quinta-feira, 5 de julho de 2018

O destino tem sentido de humor

abrir um velho dicionário
encontrar uma imagem de Jesus Cristo
a marcar a página, a alertar-me para 
a definição de palavras como
destrutível, destrutivo, desumanidade
desumano, desunhar, (…)
podia ser uma piada do destino
se eu acreditasse nessas coisas
(e acredito)
ir à estante, abrir um livro que deixei a meio
encontrar um postal teu de um natal passado 
a marcar a página onde fiquei
(a página onde ficámos)
a alertar-me da tua presença
a alertar-me da tua ausência
podia ser uma piada do destino
se eu acreditasse nessas coisas

e acredito



Pedro Rodrigues

terça-feira, 3 de julho de 2018

"Take the thing you love and make it your life"

A frase é de uma das minhas séries favoritas: Californication. É dita pelo amor da vida do protagonista, Hank Moody, um escritor que em muito se assemelha a uma personagem dos livros de Bukowski. 
Recordo várias vezes esta frase, quando penso na definição de romântico. Para muitos, um romântico é uma personagem mística, uma espécie de unicórnio que vê o amor em todas as coisas. Há muita gente que diz que sou uma pessoa romântica. Dizem-no tendo por base o que escrevo e criam uma imagem de um ser acima de todas as tentações, acima de tudo o que não tem as sete cores do amor. Por vezes, também me imagino assim. Costumo tentar poetizar as coisas: tornar o que vejo em poesia. Nem sempre é possível. Às vezes, ao saírem, as palavras oxidam. Tornam-se feias. 
Quando estou apaixonado gosto de escrever sobre e para a pessoa por quem me apaixonei. Nesse momento, não há este, nem oeste. Somos nós no centro e tudo o resto se torna ruído. Mas nem sempre vivemos sobre um céu azul. Há nuvens de tempestade. Há o depois. E nesse entretanto, nesse espaço vazio, há tentações em forma de gente, de palavras carinhosas, de vontades. Dou por mim, por vezes, a pensar: serei menos romântico por ceder à tentação da carne? Não creio. Estou sozinho (solteiro) há dois anos e as tentações multiplicam-se. Há quem me aborde, puxando o lado irracional, procurando apenas a minha carne. Serei pior pessoa por ceder à tentação? Por apenas ser uma contraparte numa noite de sexo? Serei menos romântico? Penso que não, porque acabarei sempre a ver o mundo pelo mesmo filtro. E escrever o mundo e o que vejo da mesma forma. 
Bukowski era, para mim, uma pessoa romântica. Apesar de muitos o classificarem como um niilista, um misoginista, para mim era uma pessoa com uma visão romântica do mundo. Acho que todos os grandes românticos da história eram - são - pessoas danificadas por dentro. Partidas. Nem todas as pessoas têm a sorte de encontrar o grande amor da sua vida à primeira tentativa. E, mesmo nos casos em que encontram à primeira, nem sempre essas pessoas ficam juntas até ao fim das suas vidas. O que é importante reter e repetir é a ideia que, no momento em que essas pessoas se encontram, no momento em que estão juntas e vivem esse amor, sejam apenas uma e a outra contra o mundo. É isso, para mim, a definição de romântico: alguém que no momento do amor, no meio de um céu cheio de estrelas, olha apenas para a lua. 

(Isto parece um daqueles textos dos gurus da auto-ajuda, mas era algo que me estava a atormentar.)



Pedro Rodrigues

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Entre a vida e a morte, eu escolho a liberdade

Vida: Princípio de existência, de força, de entusiasmo, de actividade (diz-se das pessoas e das coisas) (…)



Não querendo atirar pedras ao rio a fim de gerar ondas - maiores ou menores - este referendo em relação à eutanásia vem escarnar um dos pilares sobre os quais a nossa existência assenta: a dicotomia vida/morte. Como em muitos outros temas, as pessoas escolhem um lado ou outro, defendendo com unhas e dentes a sua posição. Os defensores do não dizem que estão do lado da vida, acusando os defensores do sim, mesmo sem o dizerem, de serem defensores da morte. Os defensores do sim dizem que estão do lado do progresso, da razão, acusando os outros, mesmo sem o dizerem, de serem seres retrógrados, defensores de um estado laico. Não é então de estranhar que nos canais de televisão, em que os debates se multiplicam que, de um lado se metam padres, defensores dos ensinamentos da igreja, do não, e do outro os médicos, defensores da ciência, do sim. Este cenário remete-me para os tempos medievais: Igreja vs Ciência. 
No centro de todo este imbróglio, porém, está aquela que, para mim, é a questão central: a liberdade de escolha. 
A despenalização da eutanásia não é a abertura das câmaras de gás de Hitler (perdoem a analogia). Não vamos, com isto, criar um monstro. Não vamos matar as pessoas de início porque estão doentes. Não. Caso a pessoa esteja num estado de agonia tão grande que viver se torne um martírio, que cada minuto de vida seja mais uma súplica que a morte chegue, de tão grande o sofrimento, VAMOS DAR-LHE A LIBERDADE DE ESCOLHER. Isto poderá parecer uma enorme afronta ao não, mas não é. Pensemos a um nível elementar: qualquer célula luta pela sobrevivência. A sua formatação é essa. Sendo nós conjuntos de células, qualquer um de nós luta por sobreviver. A vida é uma escolha que fazemos inconscientemente*. Mas sendo nós seres conscientes, com capacidade para sentir, com capacidade cognitiva para perceber que a morte é inevitável, não devemos nós, enquanto seres conscientes, cientes do inevitável fim, vivendo num estado de agonia tão grande devido às falhas do nosso organismo, ter a possibilidade de escolher? Isto não é ser pró-vida, ou pró-morte. É ser livre. 


*Neste ponto poderiam referir a elevada taxa de suicídios que existe. Mas essa taxa é criada por distúrbios do foro psicológico, não fisiológico. E a questão na eutanásia remete-nos para distúrbios fisiológicos do corpo humano, e não psicológicos. Não confundamos as coisas. 

Pedro Rodrigues