terça-feira, 12 de setembro de 2017

Catarse

Hoje um dos pássaros do meu pai fugiu da gaiola em que esteve preso a vida toda. Voou para a velha nogueira do quintal dos vizinhos; ou seja, não voou para muito longe, apesar das asas e da liberdade que o vento lhe concedeu. Sempre que olho os pássaros do meu pai, lembro-me de uma mítica frase de Jodorowsky: “pássaros presos em gaiolas, acham que voar é uma doença”. A frase repete-se vezes sem conta dentro da minha cabeça, como se fosse uma mensagem subliminar da vida. Hoje é Setembro e, apesar de não me lembrar bem da data (sou péssimo a decorar datas), sei que fazes anos perto destes dias. Sinto-me como o pássaro, ainda preso a estas memórias, apesar da liberdade de seguir em frente, ou da prisão de o fazer sem te ter ao meu lado. Sou um sádico do caraças, penso. E uso um repertório vasto de asneiras e outras coisas menos boas, para dentro, de forma a não gritar e assustar todos em volta. O tempo tem amenizado a tristeza e as noites dormidas começam a ser mais longas e sem sonhos de ti. Mudei os lençóis da cama, quando partiste. Limpei o ralo da banheira que ainda tinha alguns cabelos teus. Meti a roupa na máquina. Guardei o que te pertencia num lugar onde não pudesse esbarrar com as tuas coisas no decorrer dos dias. Nada disso resultou, no início, e entrei numa espiral de depressão - algo muito comum em mim - com alguns textos tristes e imagens daquilo que fomos e que poderíamos ter sido. O tempo seguiu o seu rumo natural. Eu? Mudei de casa. Mudei de cama. Comprei um colchão ergonómico com medidas suficientes para mim e outra pessoa - ainda a pensar em ti. Quem sabe? Decorei a casa com cores que sei também gostarias de ver. Comprei uma televisão maior que aquilo que os meus olhos podem aguentar, talvez para me fazer companhia nos dias em que a depressão ainda bate à porta. Mudei de freguesia e, como a casa é minha, tive também de mudar de cartão de cidadão. A fotografia continua a ser a de um fugitivo de uma prisão Mexicana (lembras-te de quando te mostrei o meu antigo cartão pela primeira vez e gozaste muito comigo?). Talvez tenha fugido dessa prisão, do outro lado do mundo, mas continuo preso nas memórias. Mesmo que as grades comecem a tornar-se cada vez mais turvas e eu consiga escapar. Talvez voar seja mesmo uma doença, penso. Mas logo dou com a palma da mão na cabeça. Por vezes é preciso partir. Deixar para trás o que não nos faz falta. Ir. Levar o passado na bagagem. Não esquecer. Aprender. Há sempre mais lugares que a velha nogueira: mais longe, com outras cores que ainda não descobrimos. Vai. 



PedRodrigues

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Like a rolling stone

Às vezes até tens piada, dizias-me, num sorriso, - talvez o sorriso mais bonito que havia visto até ali - e é assim, acredita, que as coisas começam. De repente, a minha piada e o teu sorriso tornam-se em pilares para algo que vamos erguendo ao longo do tempo e, quando damos por isso, tudo à nossa volta é barulho e nós olhamo-nos em silêncio. Os teus olhos brilham e brilham e brilham como se guardasses toda a luz de todas as estrelas nesse céu de verão. E de repente perdemos noção do tempo, o Agosto já é Setembro, e nós deslizamos pelos meses, de mãos dadas, como miúdos inocentes que não sabem nada a não ser aproveitar os dias. Toda tu és a menina que um dia foste e nunca deixaste de ser (é uma das coisas que mais gosto em ti). Quando te falo ao ouvido e te peço um minuto de atenção para dizer o quanto aprendi a ler no teu corpo, tu respondes Estúpido, porque te sentes envergonhada, e não sabes como reagir. O teu corpo é todo um código de trejeitos que me desafiam todos os dias e por vezes me deixam assim, com vontade de te guardar em palavras. Mas as palavras são poucas para escrever toda a poesia dos teus movimentos, todas histórias que o vento levanta nos teus cabelos. Não sei como ousas guardar em ti tantos universos (eu nunca quis ser astronauta, até te conhecer). E, com o tempo, tornaste-te na trave mestra da casa que construí. Talvez, sem ti, tudo à minha volta desabe. Porque o desamor é mesmo assim: uma bola de demolição a caminho do nosso corpo. Mas não quero pensar nisso agora. Agora a casa está erguida. As paredes estão decoradas de memórias bonitas. As janelas deixam os feixes dourados da primeira luz do dia entrarem até ao teu corpo. Toda tu és minha. Todo eu sou teu. O amor começa assim: num sorriso, num olhar, numa piada. E vai crescendo, ao longo do tempo, como uma bola de neve a rolar montanha abaixo, esperando, no entanto, nunca se despenhar. 

Às vezes invento ter piada, 
só para te ver sorrir, meu amor. 



PedRodrigues 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Nem tu me podes fazer todas as perguntas, nem eu te saberei dar todas as respostas




Não tinha aonde chegar, 
até me aperceber que tinha de partir. 
Partir, como o verbo de ir embora, 
O chão por vezes também desaba. 
Já te despenhaste do alto do amor? 
Já te estilhaçaste em bocados insignificantes que demoram décadas até voltarem ao sítio? Nunca parecemos novamente inteiros, pois não? Parecemos (sempre) inevitavelmente quebrados. 
Depois do amor
o silêncio demora as horas no relógio do telemóvel.
Será que o coração também se cansa de esperar?
Não há lugar que não seja este lugar? 
Não há um botão para retroceder até onde fui feliz? 
Devemos carregar às costas quem de nós desiste?
Quem de nós só queria um minuto?
Tudo o que é novidade, é-o por pouco tempo. 
Já aprendeste a contar até mais tarde?
Nunca acreditei em prazos de validade no que 
toca ao amor. Desconfio de quem conta as horas
pelos dedos das mãos.



PedRodrigues