terça-feira, 28 de agosto de 2018

Intimidade

disseram-me que a intimidade
começava quando a roupa caía
como fruta madura sobre os lençóis
gastos por outros corpos
e, na verdade, eu acreditei nessa premissa
enquanto a olhava a tirar os brincos
enormes círculos dourados
sobre a cómoda branca do quarto
o gesto dela todo numa eternidade
lento, mudo, ausente
dizia-me que os brincos a incomodavam
e que não ajudavam em nada nessa partilha da intimidade
retirou a maquilhagem
o batom dos lábios avermelhava em pinceladas drásticas 
o lenço 
(por momentos julguei que queria também limpar os meus beijos)
depois a base
depois tudo o resto que não conheço
quando o vestido caiu no soalho
o meu corpo estremeceu
quando a lingerie foi projectada para um canto
o meu coração disparou
julguei ser nesse momento que começava a intimidade
e depois entrámos juntos nesse lugar onde tudo é sangue
onde tudo é suor, onde tudo são respirações, onde tudo
é orgasmo
no final olhei-a
já com a cabeça poisada na almofada
o sorriso lindíssimo como uma lua perolada
sem segredos  
sem maquilhagem, sem roupa
onde todos os limites podiam ter o nome de pele
onde todos os limites podiam ser depois da pele
percebi
a intimidade começa depois
a intimidade é tudo o que vem depois dessa fronteira


íntimos são aqueles que partilham mais que os seus corpos



Pedro Rodrigues

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Sem Título

Queria que soubesses primeiro os meus defeitos e por isso comecei pela minha rinite alérgica e a minha incapacidade de manter o nariz seco durante o início da primavera e os dias de inverno, também te tentei explicar que os tremores nas minhas mãos se devem ao nervosismo de viver e que o futebol na miudagem me entortou um pouco as pernas. Com nada disso te importaste. Sorrias crente que nada disso podias mudar, mas que com isso podias tu bem. E no fim de todos os meus receios contados à tua pessoa, pediste-me que te falasse de poemas que conhecia e da anatomia do meu coração - naquele momento taquicárdico. Deve ser assim que começam as histórias de amor. 



PedRodrigues

quinta-feira, 5 de julho de 2018

O destino tem sentido de humor

abrir um velho dicionário
encontrar uma imagem de Jesus Cristo
a marcar a página, a alertar-me para 
a definição de palavras como
destrutível, destrutivo, desumanidade
desumano, desunhar, (…)
podia ser uma piada do destino
se eu acreditasse nessas coisas
(e acredito)
ir à estante, abrir um livro que deixei a meio
encontrar um postal teu de um natal passado 
a marcar a página onde fiquei
(a página onde ficámos)
a alertar-me da tua presença
a alertar-me da tua ausência
podia ser uma piada do destino
se eu acreditasse nessas coisas

e acredito



Pedro Rodrigues