quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Cinco minutos, amor

Cinco minutos. São só mais cinco minutos. Não podes esperar um pouco? São só mais cinco minutos. O ano novo pode esperar. As novas conversas podem esperar. As novas pessoas podem esperar - ainda nem me conhecem, por que carga de água não esperariam? As lágrimas podem esperar, e os abraços também, e os beijos na cara, e as noites de solidão e as noites de alegria e copos catatónicos também esperam por nós, são só mais cinco minutos aqui, mais cinco minutos a guardar este espaço, este tempo que ainda me pertence. Para quê tanta pressa? Ainda ontem dei o meu primeiro beijo, no campo da escola: as miúdas tinham vergonha, os miúdos gozavam - o amor era motivo de chacota, nessa altura, o que interessava era ser o melhor no futebol, com mais fintas, mais golos, mais gritos para o ar e sapatilhas rasgadas do uso - brincávamos às escondidas, à apanhada, e os melhores eram sempre os que se escondiam melhor, os que fugiam mais, - talvez devesse ter continuado a esconder-me e a fugir, mas o tempo corre sempre mais, encontra-me sempre melhor - e os verões duravam meses, com os pés enterrados na areia e os lábios roxos das horas passadas no mar, e no mar os melhores eram os que apanhavam as ondas maiores, mesmo que depois se desmanchassem com elas na areia, e comíamos camarinhas como se fôssemos náufragos esfomeados nesses verões intermináveis da nossa infância, e também demos beijos na praia às miúdas de biquíni que vinham de fora, fazíamos fogueiras e dançávamos, dançávamos, dançávamos como se a vida fosse uma banalidade que podia esperar pelo amanhã, e depois o tempo, sempre o tempo, a faculdade, uns para aqui, outros para ali, as revoltas, os amores um pouco mais sérios, as primeiras chatices, os primeiros corações partidos, - até ali desenhavam-se inteiros, no vapor preso nos vidros -  o perceber que a vida também acaba e há amores que partem para sempre porque temos de aprender a guardar dentro de nós o que é importante, como se fôssemos um cofre para pessoas valiosas, e somos atropelados pelos invernos gelados que nos obrigam a procurar abrigo num abraço qualquer. E são só mais cinco minutos aqui. O ginásio do ano que vem pode esperar, já me inscrevi, e prometo lá ir até ficar com um corpo de capa de revista - será que assim voltas para mim? - a casa pode esperar, os móveis podem esperar, porque a casa não se faz de betão e aço e outros materiais, faz-se de pessoas e as pessoas fazem-se de amor, o que quer dizer que no  final das contas as casas se fazem de amor, talvez te leve para lá e as nossas sombras possam namorar no silêncio do bairro, e faço-te novamente os jantares, preparo-te as marmitas, tomo conta de ti, como o bem precioso que és. E talvez este ano que vem seja o ano. O ano de que falamos aos anos. Este ano é que é. Porque Janeiro traz sempre possibilidades, e Dezembro, habitualmente, traz as desilusões: podia ter feito, podia ter sido, podia. E os tempos verbais têm de mudar - tudo muda, dizem as leis da Física. Estamos em constante mutação. E talvez este ano escolha ser um pássaro, livre, com asas para voar e chegar ao sítio onde pertenço. Mesmo que a casa, mesmo que a praia, mesmo que os beijos, mesmo que as lágrimas, mesmo que o ginásio. Este ano talvez seja pássaro e te leve comigo. Vamos ver o mundo lá de cima. Juntos. Mas primeiro o ano pode esperar. São só mais cinco minutos. O novo ano pode esperar. Dá-me só mais cinco minutos, amor. 



PedRodrigues

domingo, 25 de dezembro de 2016

Desabafo

E tu carregas no botão, como que tentando retroceder para um lugar que já foi teu, onde julgas ainda pertencer. Acabas sempre por lá voltar, como um pássaro teimoso que, mesmo estando longe muito tempo, acaba sempre por regressar. E mudas de roupa, mudas de casa, mudas de canal, mudas de vida, mudas de supermercado, mudas de código postal, mudas de hora, mudas de mês, mudas de ano… Mas não mudas de coração, não mudas de amor. E ouves músicas no Youtube, que deviam ter a advertência baseada em factos reais, por serem a melodia das tuas tragédias. E na televisão dão filmes em que no final todos vivem felizes e tu chateias-te com os filmes porque são sempre a mesma treta e apetece-te gritar: é tudo mentira. Mas estás tão cansado de tudo e todos que nada dizes: eles que descubram sozinhos. E acabas a pensar que o tempo te azedou, como um vinho fraco. Então olhas para cima, para o tecto, desejando as estrelas, a lua, ou apenas um lugar distante onde pudessem sentir a tua falta. Talvez te escrevam um poema, e quem te ama o leia vezes sem conta, para que possas estar mais uns momentos. Somos tão pouco tempo. E não há botão para retroceder aos lugares onde fomos felizes. A vida é mesmo assim, e entramos nela como quem entra numa rua em sentido contrário, com medo do que vem de frente. E danças ao volante, desviando-te dos perigos. Ou talvez não seja nada disto, e tudo o que precisas é fechar a página, fechar o computador, fechar os olhos, fechar o passado numa gaveta qualquer e ir - simplesmente, ir. Porque no fundo a vida é mesmo assim: vamos indo - eventualmente acabamos por chegar ao nosso destino. 


PedRodrigues

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Teoria da Relatividade para totós



 

E se o tempo é relativo
como explicam os físicos
a morte de Einstein?
Teria, ele, o relógio estragado?

 

PedRodrigues

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Esperança, o último texto de Novembro


Sabes o mais engraçado? No outro dia encontrei o postal de Natal que me deste no ano passado. Estava dentro do “os transparentes” do Ondjaki. Foi uma daquelas coincidências macabras a que muitos chamam destino. Não sei se foi ou não.  Talvez haja realmente uma força dinâmica qualquer que nos empurra uns para os outros e mexe certas peças, em certos momentos. Isso pouco importa. O facto é que ele lá estava, guardado religiosamente dentro daquele livro. Estava lá de forma a recordar-me de ti e da página onde tinha ficado. Passou praticamente um ano. Onze meses e uns dias, para ser mais exacto, que nestas coisas a precisão é importante. Onze meses desde que escreveste “o próximo ano será ainda melhor, porque as pessoas boas merecem ser felizes” (estou a citar-te de memória, por isso posso ter falhado em alguma palavra). No dia em que escreveste esta frase fazias planos de um futuro ao meu lado, um futuro com mais de onze meses, creio. Mas o tempo passa e, pelos vistos, as pessoas cansam-se e desgastam-se. Não sei se deixei de ser bom, ou se o destino, ou a tal força dinâmica, se encarregou de nos afastar para que pudéssemos sentir a falta um do outro. Se assim foi, agradeço que ela acabe com a brincadeira, porque realmente as saudades são imensas e o coração parece apertar cá dentro. Não sei se sentes da mesma forma. Os meus postais, ou as minhas dedicatórias nos teus livros sempre foram frouxas. Talvez tivesse medo que te apaixonasses por elas, pelo Pedro que escreve, o que todas imaginam ser um príncipe encantado, e depois te apercebesses que o Pedro é de carne e osso e muita confusão: com muitos defeitos e algumas virtudes. Embora nunca te tenha dito, escrevi muito para ti, e sobre ti. Como podia não o fazer? A nova versão do livro trará o teu capítulo. A dedicatória que mereces. O teu espaço continua guardado: dentro dos livros e dentro do peito. Já disse e repito: se puderes, não demores.

 

PedRodrigues

domingo, 20 de novembro de 2016

Texto triste, como esta noite de Inverno


Durante algum tempo acabei por dar luz verde à autocomiseração. Talvez porque achasse poder ter feito mais; ter dito mais; ter mudado um ou outro momento. Durante algum tempo carreguei às costas uma culpa demasiado pesada para ser só minha. Foram precisas muitas noites mal dormidas, muitos copos entornados, muitas refeições desperdiçadas, muitas músicas melancólicas ouvidas, muitas lágrimas choradas - à socapa. Durante muito tempo achei que o caminho devia ter sido feito por mim, ou melhor, que o desvio que levou à ruína foi tomado apenas por mim. Talvez este tenha sido um exercício de egoísmo. Uma tentativa de centrar em mim um sistema que não era, de todo, apenas meu. Mas o tempo acabou por passar – passa sempre – e com ele algumas coisas que permaneciam no escuro começaram a aparecer. Percebi, se for para chorar que seja por alguém que valha a pena ser chorado. A vida não é assim tanto tempo. E correndo o risco de cair noutras palavras: os vinhos das melhores castas revelam-se com o tempo, os outros acabam por azedar. Não vou cair aqui no erro de mistificar o outro lado, tornando-o numa figura monstruosa, cruel. Acredito que um dia tenhamos sido uma tempestade perfeita. No entanto, ao longo do caminho acabámos por nos perder. Não que a culpa tenha sido de um ou de outro, porque as estradas que construímos também acabam por ser distâncias que nos afastam: cabe a cada uma das partes encontrar a outra a meio do caminho – o que só se faz avançando em conjunto.
Apesar de tudo, creio ser normal, algumas vezes, ainda procurar velhas imagens, na esperança de uma memória feliz, ou tentar encontrar alguma indicação de um novo rumo da tua parte. É triste, e acabo por cair no mesmo erro que me levou a começar este texto, mas creio ser normal, creio ser humano. Não lidamos bem com finais. É um dos nossos defeitos de fabrico. E eu considero-me um artigo defeituoso. Um artigo perfeitamente defeituoso.
 

PedRodrigues

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

[Fim]


Perceber.
Há silêncios que nos afastam como
se fossem distância.
Evitar.
Dar um sentido a tudo o que foge ao nosso alcance.
Procurar.
Novos lugares onde morar.
Perceber.
Os sonhos serão sempre mais bonitos que a realidade.
Fora das nossas fronteiras há linhas que definem limites,
e por mais que queiramos: o vidro nunca será diamante.
Viver.
Sem olhar por cima do ombro com medo que o passado nos atropele.
Traduzir.
Cada momento numa lição.
Sorrir.
Porque é impossível afogarmo-nos nas lágrimas choradas.
Ser.
Feliz: é a melhor resposta; a melhor desforra.

 

PedRodrigues

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

09/11/2016

Dado a escolher entre o mau e o péssimo, escolher o mau parece ser a melhor das duas opções. E, no fundo, se formos forçados a pensar de uma forma pragmática, é. Mas escolher o mau não é bom; é tão somente uma forma de minimizar o erro - embora ele ainda lá esteja. Por isso pergunto-me: se ganhasse o mau, em vez do péssimo, o mundo rejubilaria e atirar-se-ia de braços para o ar a agradecer ao divino? Será a vitória do mau motivo para desfiles de alegria? Devemos ter cuidado com o que escolhemos. E, às vezes, tacteamos o precipício confiantes que sabemos voar, mas esquecemo-nos das asas em casa. Olhemos então desconfiados para a qualidade das opções. Não esquecendo que o mau não deixa de ser mau, mesmo em comparação com o péssimo.
 
PedRodrigues

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O tempo não cura nada

Há um mês que não vou a casa. Desde o dia em que resolveste partir. Um mês: o tempo foge-nos. Quando cheguei, ainda estavas, por muito pouco: um resto do homem que um dia foste, deitado numa cama de hospital, com tubos por todo o lado. Durante uma hora dei-te a mão. Agarrei-te com força com vontade de te puxar para a vida, de te puxar para mim. Acabaste por ficar, em silêncio, entre os barulhos monofónicos das máquinas, e os lamentos das pessoas à tua volta. Ali estivemos os dois: eu, em lágrimas, tu a lutares por mais uns minutos de vida. O teu corpo fervia, talvez da febre, porque segundo os médicos os teus órgãos começariam a desligar aos poucos, cansados da luta, e tu acabarias por te deixar ir. Foi há um mês. Um espaço de tempo onde cabe apenas a saudade. Um mês sem falares comigo; sem me dizeres "meu pombo", na tua voz velha e grave; um mês sem abraços, sem apertos de mão, sem lutas. Há quem diga que o tempo cura tudo, mas eu não acredito nisso. O tempo só nos separa uns dos outros, não traz ninguém de volta, não cose feridas abertas. É só tempo - a devorar tudo e todos e a processar-nos como memórias. Foi há um mês que partiste, e as lágrimas continuam a cair, teimosas, sem que o tempo tenha tempo para as secar.
 
PedRodrigues

domingo, 30 de outubro de 2016

Fado (1)


O que fazer quando tudo arde?

 

O que fazer quando tudo arde
E no teu rosto se fecha a cidade?
Serão teus olhos líquidos
As ruas onde se perde a saudade?

 

Tivemos o mundo nas mãos
Julgámos ter descoberto a eternidade
Mas o amor é um fogo selvagem
O que fazer quando tudo arde?

 

E nas lágrimas do adeus
Esconde-se toda a verdade
Meu amor, que fazer? Se nada há
A fazer quando tudo arde?

PedRodrigues

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Sobre as árvores, e o tempo


Nunca te perguntei o nome das árvores. Passávamos por elas, todos os dias, e nunca tive vontade de o fazer. Não sei, julguei que aquela sombra seria uma certeza que viveria comigo para sempre, e então achei não ser necessário saber que nome lhe dar. Eram as árvores. As árvores onde todos os dias passávamos e, por vezes, víamos as folhas caídas, um ou outro pássaro a cantar melodias primaveris. Eram as árvores onde me encostava. Onde, um dia, dei o meu primeiro beijo. Eram.

- Lembras-te?

Foste embora e nunca te perguntei o nome. Agora cortaram-nas e não tenho como as explicar às outras pessoas, porque as árvores são todas iguais: com raízes e troncos e ramos e folhas. A certeza deixou de o ser e não há como a trazer de volta em conversa sem que seja apenas uma memória enevoada à qual ninguém consegue dar forma. Cairão no esquecimento? Talvez. Porque ninguém a quem conte a história da beleza do meu primeiro beijo conseguirá saber com que linhas se guiar. E as árvores acabarão por cair no esquecimento: uma a uma, como cada um de nós. Precisava que me dissesses o nome das árvores

- Lembras-te?

Aproveitemos, enquanto há tempo.

 

PedRodrigues

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Outono (2)


 

A chuva é uma metáfora
tirada da gaveta onde
eu guardava as tuas memórias
Lá fora há barulhos de vento
e folhas molhadas - há
beleza no caos noturno
do outono.


Cá dentro o teu nome despenha-se
líquido no tecido; a saudade 
sopra uma certeza gelada
Nada parece fazer sentido
e, no entanto, sem ti
tudo procura um novo sentido

 
 
Voltei a fechar a gaveta e
o teu nome voltou a adormecer
nos meus lábios.
Há um silêncio vadio
pela rua: nem chuva, nem vento
nem folhas, talvez a saudade
Estamos ambos cansados
de viver na tempestade.

 

PedRodrigues

 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Saudade em sol maior


E eu pergunto-me, meu amor:
como cabe tanta saudade, neste espaço
tão pequeno?
Será possível transbordar o mar
de tantas lágrimas choradas?
Sabes, meu amor
por vezes é inverno e lembro a primavera
pergunto-me: para onde voam as andorinhas
depois do verão?
Ninguém me responde, mas acredito
que seja um sítio bonito,
com azuis alegres e outras cores vivas.

 

Tenho a certeza, meu amor:
a esta hora as andorinhas cantam
ao teu ouvido.

 

PedRodrigues

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Adeus, meu amor maior

Tinhas oitenta e seis anos. A tua cabeça já não encontrava datas – talvez porque os dias já fossem todos iguais. As tuas pernas cediam aos caprichos da gravidade, embora tu nos tentasses enganar com ginásticas inventadas. Os teus cabelos eram brancos, embora tu me contasses que quando eras novo o teu cabelo era escuro como a noite – e eu acreditava. Esquecias-te das luzes acesas, da água a correr depois de fazeres a barba, das situações mais corriqueiras, aqui da terra, mas não te esquecias das histórias de outros tempos. Passavas horas a repetir-me que eras o mais trabalhador de todos. Que as tuas mãos e os teus braços tinham tanta força que conseguiam dobrar aço, talvez mover montanhas. Nos navios todos os capitães te gabavam “não há nenhum marinheiro como o Pimentel”, pau para toda a obra. Foste pai, avô e bisavô. Criaste-nos a todos e nunca nos faltou nada. Deste-nos tudo o que podíamos pedir, e nós tentámos retribuir. Viste a avó partir há dez anos e, desde esse dia, nunca te conheci outra cor na roupa que não fosse o preto. Lembro-me de te dizer uma vez para usares uma camisola cinzenta e tu mandaste-me passear, no teu jeito bruto, porque até ao fim dos teus dias usarias o preto. Talvez fosse uma forma de mostrares por fora o vazio que a morte da avó te tinha deixado por dentro. Não sei. O que sei é que durante anos – até a demência se instalar no teu cérebro cansado – foste todos os dias ao cemitério, com chuva, ou sol, beijar a fotografia da avó. Talvez a mais bonita cena de amor que já vi, digna de um filme. Tinhas a terceira classe, pouco sabias escrever, ou ler, mas nunca deixaste nenhum dos meus livros a meio. Sempre os leste com orgulho, mesmo sabendo eu que algumas palavras escapavam ao teu vocabulário rudimentar – imagino que as substituísses por outras, mais bonitas e acessíveis. Era com imensa alegria que me acompanhavas para todo o lado: Lisboa, Porto, Leiria, Coimbra. Em todas as apresentações escutavas atentamente as minhas palavras, como se nunca me tivesses ouvido falar. Depois, no fim, abraçavas-me e gabavas-me a toda a gente. Éramos melhores amigos. Os pilares um do outro. Tratei-te feridas, medi-te febres, tapei-te com mantas. Fiz o que podia para que te sentisses sempre amado e respeitado: um rei, no seu castelo. Eras o meu primeiro abraço nas chegadas, e o último beijo nas despedidas. Sempre que a mãe me ligava, falavas comigo, sempre com o mesmo discurso e a mesma saudade na voz. Éramos inseparáveis: companheiros de armas, parceiros de crimes.
Hoje, antes de descer para o meu quarto, passei pelo teu. Estava vazio. As lágrimas teimaram em cair porque me apercebi que daqui para a frente assim será. Ficam as fotografias. As paredes frias que ainda escondem os restos condensados da tua respiração, do teu último suspiro. Penso ter apertado pela última vez as tuas mãos calejadas; ter beijado, pela última vez, a pele fina da tua testa. Partirás enorme, como sempre foste. E assim o serás, para todo o sempre. Gostava de continuar a escrever, mas as palavras começam a confundir-se com as lágrimas e tudo se torna turvo e difícil. Fico-me por aqui, e pela imagem da fotografia que dorme ao meu lado, na mesa de cabeceira, em que estou eu, tu e a mãe, muito felizes, de sorrisos rasgados nos rostos. É assim que te recordo: a sorrir, por eu ter chegado.

Adeus, meu amor maior.


PedRodrigues

sábado, 8 de outubro de 2016

Amo-te e odeio-te, C.


Amo-te e odeio-te. Não sei se ao mesmo tempo. Não sei se com a mesma intensidade. Não sei. Sei que odeio pensar em ti. Sei que odeio ver-te. Sei que odeio desejar-te. Sei que odeio as voltas que o meu corpo dá para tentar não pertencer-te. Odeio voltar ao início. Odeio que os nossos caminhos se cruzem por termos os mesmos amigos, por termos construído rotinas juntos. Odeio os teus beijos. Odeio a forma como ainda me olhas às escondidas, julgando que não estou a ver. Odeio o eco da tua voz. Odeio as palavras que dizes. Odeio as sapatilhas de edição especial que compraste nos anos. Odeio a forma sorrateira como tentas fingir que não existo. Odeio que inventes barreiras. Odeio que me tentes apagar e ao mesmo tempo manter os meus traços vivos. Mas amo todas as opções anteriores. Amo o teu sorriso de menina. Amo os trejeitos do teu rosto quando não sabes que fazer. Amo a forma como tentas acompanhar as músicas. Amo que desafines. Amo o brilho genuíno do teu olhar. Amo os teus lábios destacados pelo aparelho. Amo a tua vontade. Amo a tua insatisfação com tudo e com todos. Amo a forma como corriges erros corriqueiros. Amo os teus cabelos lisos. Amo a forma como fazes do preto uma cor alegre. Amo tudo em ti. Amo e odeio. É estranho. Amo e odeio. Por mais que tente afastar-te, não deixo de te aproximar de mim.

 

PedRodrigues

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Nota pessoal


[ao Pedro de amanhã, para que não cometa os mesmos erros do Pedro de hoje]
 
Quando a vires pela primeira vez não vais saber se é com ela que vais ficar. Ninguém traz as instruções agarradas ao pescoço; não há um sinal verde que te diga que deves avançar; não há uma força gravitacional a puxar-te para ela. Não. Talvez o teu olhar se cruze com o dela. Quem sabe haja um sorriso. Umas palavras mais tímidas que acabem por se transformar numa longa conversa. Talvez essa conversa venha a durar dias, duas ou três idas ao café, um passeio pelas ruas da cidade. Continuarás sem saber se é com ela que vais ficar. Ela também não saberá se és a pessoa certa. Eventualmente começas a descobrir todas as fissuras e imperfeições nas paredes dela. Ela descobrirá que há estuque caído nos teus corredores. Mas que importa isso? Eventualmente, vão acabando por ficar, a morar um no outro, sem medo que o tecto desabe. Talvez pendurem alguns quadros, pintem algumas paredes, disfarcem uma outra fenda mais feia. Todos procuramos alguém onde possamos morar: um coração que seja casa. Claro que nunca saberás se será ela a tua última morada. Na cabeça dela a questão será permanente: “é desta que mudo o meu código postal?”. Não há como o saber. Vamos ficando, trabalhando, todos os dias, de forma a que a casa não caia, mesmo durante as tempestades. Tudo precisa de manutenção, até o amor. Então o melhor será não baixares os braços, não te calares em longos silêncios, não te esconderes num canto. Não vais saber se é com ela que vais ficar, mas deves-lhe a tua dedicação. Se lhe abriste a porta, para entrar, não a deixes partir.

 

PedRodrigues

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Outubro


Hei-de ter sempre para ti um lugar entre o pó acumulado ao longo do tempo. Não encaremos esta frase com desprezo, ou outro motivo menor. Hei-de ter para ti um lugar que ficará vazio por dentro, à tua espera; algum amor deixado nas linhas estruturantes de uma cicatriz. Recordar-te-ei como um Outubro em que o sol venceu as chuvas de outono. E com o cair das folhas recordarei, também, as tuas lágrimas, lentas, a fazerem-me pensar “será que é mesmo o fim?”. Nenhum ano acaba em Outubro, nenhuma árvore morre pela queda das folhas no outono. Acredito, portanto, na vinda de uma nova primavera, com as tuas cores e o desenho dos teus olhos a luzirem como duas estrelas no céu limpo de uma noite de verão. E nem todas as palavras que escreva, hoje, amanhã, ou depois, te trarão de volta a este lugar – nem farão justiça ao quanto te amei e guardei, com medo de ficar vulnerável. O adeus tem a frieza do aço a escrever por dentro do peito a saudade. Ainda dói ter-te longe (ou não ter-te, afinal). Como a vida muda. Como tudo vira pó: até o amor. Hei-de ter sempre para ti um lugar. Este lugar.

 

PedRodrigues

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Chica

Acho engraçado que tudo tenha começado com uma entrevista. Ela tinha um trabalho da faculdade para entregar, eu ia lançar o meu primeiro livro. Marcámos encontro no Justiça e Paz, com uma vista lindíssima sobre o Mondego. A conversa foi tão boa que acabámos por trocar os nossos números de telemóvel. 
Como tínhamos amigos em comum, o primeiro jantar surgiu naturalmente. Daí ao primeiro beijo não demorou muito. Ela achava piada ao que eu dizia, eu gostava bastante da forma alegre como ela encarava a vida: o sorriso dela e o brilho nos olhos não enganavam. As conversas foram ficando mais longas, as noites dormidas ficando cada vez mais curtas. Com ela conseguia falar de tudo: desde futebol, a literatura, passando pelas engenharias e outras coisas mais aborrecidas das nossas vidas em Coimbra. Acho que era essa diversidade que nos unia. Isso e o meu bom gosto em relação a sapatilhas, aliado à coincidência de ter escrito uma frase, num pedaço de papel, que ela ainda hoje usa como mantra: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.". Tudo isto nos juntou e nos foi levando juntos ao longo do tempo. Acabámos os dois em Lisboa, a apalpar aos poucos a cidade. Demos longos passeios de mãos dadas, passámos noites de inverno abraçados a ver filmes e séries, tivemos dias bons, outros menos bons, o habitual. Nunca a pedi em namoro, e talvez esse tenha sido um dos meus grandes erros. Achava que o que existia entre nós não precisava de um título, como um romance. Tínhamos o mais importante: o coração no sítio e os pés assentes no chão. Achava. Mas a vida prega-nos partidas. Os sorrisos duram até serem lágrimas e, segundo ela, gostar, por vezes, não chega. Eventualmente as entrevistas chegam ao fim - mesmo as melhores. Não raras vezes, as relações resumem-se a um jogo de memória e ao amor numa garrafa. Apesar de tudo, ainda acredito que um dia possamos retomar de onde ficámos. Não sei. Até lá vou recordando a cor lindíssima daquele final de tarde, onde tudo começou. E o sorriso dela, e o brilho daqueles olhos de menina feliz com a voz rouca:  "podemos começar?". Quando quiseres. Começamos quando quiseres.


PedRodrigues

domingo, 28 de agosto de 2016

Na viagem de táxi

No meio da viagem uma música melancólica no rádio, o orvalho matinal desfeito no para-brisas, todos os ingredientes necessários para uma cena de filme. À medida que o carro avançava lembrava-me de ti. Apetecia-me meter a cabeça de fora e gritar. Talvez as lágrimas teimassem em aparecer a qualquer momento: não sei se pelos copos entornados, ou se o amor bate mais forte pela madrugada – enquanto a cidade ainda dorme.
O senhor perguntou-me:
- Para onde deseja ir?
Apeteceu-me responder-lhe
- Para onde for feliz – mas não o fiz; até porque ele não tinha como saber a tua morada, ou que a nossa história se tinha perdido pelas esquinas do destino. Já era tarde, e o meu cérebro parecia não ter força, nem vontade, para calar o meu coração. Sentia-o a chamar o teu nome e a saudade do teu cheiro chegava-me como um espasmo sádico na boca do estômago. Não sei o que me custa mais: se repetir as imagens dos nossos melhores momentos, se imaginar-te sozinha imune às nossas memórias. Talvez me custe mais cair no esquecimento, até porque a queda é imensa e o corpo não é feito de esponja. Cortaste-me as asas, digo eu. Há muita coisa má no mundo, mas acredito que não haja nada como nos eclipsarmos no peito de quem gostamos. Quanto mais me imagino a desaparecer na tua vida, mais vontade tenho de pedir que me levem à tua porta, na esperança que a abras e possamos voltar a ser os putos felizes de outros tempos. Não há uma noite em que não recorde o teu sorriso e, acredita, sonho praticamente todos os dias com os teus beijos. Devo ser masoquista.
A viagem ia longa ou, àquela hora, tudo parecia passar mais devagar. Ao chegar a casa tomei um banho e tentei afogar os fantasmas que me atormentam e se passeiam desvairados nessas noites em que a bebida entornada não dilui a tua imagem, nem o que ainda sinto por ti. O passado é uma lágrima chorada, ou tocada numa música que teima em passar na rádio. É melhor mudar de estação.
- Já é tarde. Leve-me a casa, por favor.


PedRodrigues 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Num dia de chuva, o adeus


O sol descia a pique, naquele dia em que no noticiário anunciavam as primeiras chuvas do verão mais quente dos últimos anos. Talvez fosse o primeiro presságio de uma mudança brusca na normalidade das coisas. Eu sentia remorsos por não acreditar na incerteza do céu: por vezes também ele chora, com saudades do chão. De todas as analogias possíveis, as piores são as que se parecem fabricar em torno de nós. Foi isso, talvez, que nos aconteceu. Ao longe chegava o vazio no telemóvel. Noutros tempos a tua voz teria sido suficiente para me fazer acreditar que a chuva vem de passagem. Mas a tua voz teimava em não chegar. As tuas palavras teimavam em não aparecer no pequeno ecrã do meu telemóvel. A ansiedade, por vezes, corrói-nos por dentro, como um ácido dado em doses mínimas – o suficiente para nos queimar as entranhas. Tudo o que começa, tem de acabar. Infelizmente, quando nos meteram no mundo, não nos ensinaram a lidar com o fim das coisas. Devagar, tal como a chuva, as tuas palavras começaram a despenhar-se. Havia, de facto, ventos de mudança. Disseste-me que o amor não é uma força suprema, nem ele consegue carregar alguns pesos. As coisas arrefecem, até no verão da alma. Eu não quis acreditar no que dizias. Talvez porque custa aceitar a nossa fragilidade, os erros de julgamento, as inconsistências de uma relação. Custa sobretudo aceitar as falhas – mesmo sabendo que sempre existiram e existirão. De repente o céu tinha desabado, lá fora e cá dentro. A raiva tomou conta de tudo. Como queixar-me do caos, se fui eu que lhe abri a porta? Devagar, todas as paredes parecem cair. Somos casas de madeira, talvez, sem força para aguentar as tempestades - embora eu julgasse sermos feitos de pedra. Agora vejo a efemeridade do amor eterno. Depositamos esperanças em alguém, abrimos as portas, mostramos as fissuras. Partilhamo-nos. Julgamos ter tempo, porque a eternidade não tem pressa. Até que o tecto cai e o chão debaixo dos nossos pés deixa de existir. O amor é um jogo viciado, sei lá. E depois do adeus fica o travo amargo da solidão. As memórias de tudo o que um dia era belo, como a última luz de um dia de verão. Choramos para dentro, de modo a que não nos vejam a chorar. Talvez sejamos feitos de ferro, julgo que pensam assim. Não somos. Por dentro está tudo remexido. Em todos os momentos a perco, em todos os momentos a encontro – ao jeito de Cesariny. A melancolia das músicas parece ter sido feita para nós, como esta que oiço agora. E nunca nenhuma mulher será como tu. Talvez porque nenhuma delas fala na mesma língua que eu e acreditam que por lerem as legendas me conseguirão decifrar, como um filme antigo. Todas as palavras serão a saudade do teu cheiro. Sonharei acordado em todas as tardes deste e doutros verões com a luz do teu sorriso; com os abraços que não soube aproveitar porque pensei poder repeti-los para sempre. O amor é um jogo viciado, repito. Ao que parece, perdi. Chove lá fora, e é verão. Nada disto parece fazer sentido. Acorda-me. Por favor, acorda-me.

 

 

PedRodrigues

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Papel Vegetal

Procurarei
os teus traços
desenhados em todas
as outras. Mas elas
nunca serão tu.

PedRodrigues

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Mapa Cardíaco

- Tenho um mau pressentimento, sei lá - é difícil ver entre o nevoeiro. O mar é demasiado líquido para passearmos entre as lágrimas. - Não sei, deve ser só um pressentimento; uma ideia que ficou - também te cheira a saudade? Talvez um beijo nos salve. Dizias-me que os meus dedos nunca tinham apertado tanto os teus. Mesmo quando me admiravas e contavas os sinais no meu peito, como se fossem as constelações de que falavam na televisão. Eu dizia-te que o frio não era desculpa e afastava-te porque o calor podia derreter o que restava de um velho coração de gelo. Agora os teus dedos fogem-me e eu tento sufocá-los para que não desapareçam entre as ilhas. Vamo-nos afastando e talvez o amor se fique na margem errada. - Não te cheira a saudade? - Acabamos por perder aquilo que não conseguimos guardar entre os dedos. Há quem diga - só damos valor quando perdemos. - Mas eu abomino frases feitas. Sempre abominei. Mesmo que sejam verdade. Só deixa saudade o que podemos perder. Faz parte da génese do verbo. O resto são espaços vazios, onde não cabem tesouros. Não quero que vás embora. Não entendes? - Talvez seja só um mau pressentimento. Ou a saudade a crescer dentro do peito. O sufoco. - E eu não quero usar a cicatriz do teu adeus como o meu norte. A tua mão pode ser para sempre o meu mapa. Neste nevoeiro prometo nunca te largar. Há uma margem onde chegaremos juntos e ficaremos juntos. Decididos a fazer dos nossos beijos pontos marcados no céu, onde outros amores se poderão guiar. 

Hoje,
o céu veste-se
com o teu sorriso
Amor, 
meu Amor.




PedRodrigues

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Ela [que parecia perdida, a olhar o mar, no outro dia]

Então resolveu deixar para trás o peso morto das lágrimas antigas. Para quê transportar no bolso um amor condenado? Lavou a cara e olhou-se ao espelho. És demasiado nova para acreditar em fantasmas, pensou. Tudo dura até cair no esquecimento. Até a dor. Apagou o número, fez-lhe o luto. Debaixo de sete palmos de entulho amoroso não consegues respirar. E eu tenho uma vida pela frente. Vivemos entre as ilhas e foste apenas uma paragem. É tempo de continuar. Deixar-te-ei para trás, como um sítio bonito que visitei. Não te vou guardar rancor; não te vou desdizer; não te vou usar como um monstro. Ficar-te-ás no passado, onde pertences. Não te usarei no futuro, e o presente é meu para fazer com ele o que me apetecer. Eventualmente tudo acaba por chegar. Para quê ter pressa em procurar? 


PedRodrigues

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Na mesa do café

Dentro dos copos
a cerveja borbulha até à espuma.
Atrás dos óculos, os teus olhos
escondem lágrimas antigas.
A mesa do café parece um filme
policial: 
a tua mão
teima em fugir-me e eu teimo em 
persegui-la.
Fica sabendo, amor,  que
no fim o polícia agarra sempre 
o ladrão.


PedRodrigues

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Num dia de sol


Naquela tarde o mar estava sereno. As ondas eram pequenas espumas intermitentes, contando os segundos entre os gritos dos miúdos que construíam castelos à beira da água. Eu olhava-os e imaginava salões enormes, feitos de areia molhada e conchas, uma varanda onde pudéssemos ver o mar de mãos dadas - não só naquela tarde, como em todas as tardes do resto das nossas vidas. Ali tudo era nosso. O teu nome entre as rochas, escondido, com medo da subida das águas, seria para sempre essa certeza dura - mesmo nos dias de tempestade, em que tudo se revolta em tom de batalha. Mas, naquela serena tarde, estavas tu, de cheiro a mar no cabelo, a contar o tempo das ondas e a tentar adivinhar quantos horizontes tem o infinito. No céu nuvens desenhavam formas aleatórias que dizíamos serem coisas concretas: animais, rostos, máquinas. Tudo se compunha de acordo com a nossa imaginação: assim fosse a vida. Naquela tarde tudo era nosso. O tempo jogava a nosso favor: tínhamo-lo todo só para nós. Podíamos moldá-lo à nossa maneira, construí-lo juntos, como os castelos dos miúdos feitos com a areia molhada. E abrir uma janela, com uma varanda e vista para o mar, onde nos pudéssemos sentar, até sermos velhinhos, a inventar formas à teimosia das nuvens.  

 

PedRodrigues

domingo, 17 de julho de 2016

Flores selvagens


Eram flores selvagens. Amores perfeitos não nascem em vasos. São livres, como a brisa que ainda sopra no verão da nossa infância. Nesse tempo em que tudo parecia mais simples. Onde tudo parecia fácil, como fechar com força os olhos e imaginar outros lugares: praias lindíssimas, lugares na lua, casas junto a quedas de água. E, hoje, tu ao longe, como os amores perfeitos, tão selvagem, tão dona de ti, tão senhora de todas as razões. Eu aqui, atrás do vidro da janela, a olhar-te a crescer, em silêncio, com medo de te assustar, ou de provocar um vento que te leve. O amor passa-nos depressa, como o queimar de um cigarro. Ficam as cinzas do que noutros tempos ardeu. Não há chama que dure para sempre. Não há chama que dure sem consumir outros elementos. Tu de um lado do vidro, eu do outro. As tuas cores sem se misturarem com as minhas. O teu cheiro pelas almofadas e pelos lençóis ainda amarrrotados de todas as batalhas de amor. Não há guerra que dure para sempre. No campo, depois da guerra, nascem as flores, por entre as beatas. Falaram-me de haver uma forma de atravessar o vidro sem me cortar. De um país para lá do teu reflexo. A viagem é difícil. Talvez porque depois do adeus não há jornadas fáceis, talvez porque as saudades se descuidem líquidas pelos olhos, como um aguaceiro a anunciar outros começos. Lembrar-me-ei para sempre da rebeldia selvagem com que fugias à prisão dos vasos. E eu que te queria a crescer dentro de uma caixa, junto do meu coração. Eu que te queria, mas tu não.

 

PedRodrigues

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Pray for the world



O mundo, como o conhecemos, parece estar a mudar. Faz-me lembrar a velha história da Arca de Noé, que nos contavam na catequese, em que um grande dilúvio varria a terra, levando à sua repopulação. Dizem os radicalistas que, por vezes, de tempos a tempos, a humanidade precisa de um novo começo. Ao encontro destas teorias bíblicas vai o mundo de hoje. Tudo parece estar a mudar. Assistimos, diariamente, a matanças desenfreadas. Ninguém é poupado: nem homens, nem mulheres, nem crianças, nem velhos. O medo vai-se instalando de mansinho, por mais que se apregoem motes como “não nos renderemos”, “não nos esconderemos”, “não teremos medo”. No fundo, todos tememos o que se está a passar e olhamos por cima do ombro, amedrontados, procurando suspeitos. No meio da carnificina, alguém há-de ser o carrasco. Muitos apontam os inocentes - porque não podemos ser todos inocentes - e discriminam pela raça, ou religião. Quem os pode culpar? O medo tem destas coisas e, quem o promove, sabe o que está a fazer.  É a velha máxima: “dividir para conquistar”.
Os atentados de ontem, em Nice, só vêm dar mais força a essa ideia de mudança feita de sangue.  Por muito que culpemos o movimento cobarde de uma organização criminosa, não creio que a cabeça do dragão se corte por aí. É um erro acharmos que, por se enviarem tropas para o terreno e se bombardear uma região, os atentados irão acabar. Não. Há, claramente, uma entidade superior a tudo isto que tomou conta do mundo sem que déssemos conta. Alguém que, entre os homens, brinca de Deus. Estes atentados são estilhaços de uma bomba que rebentou silenciosa e que, mais cedo ou mais tarde, irá mudar tudo o que conhecemos. Cuidado, há ventos de mudança - e não creio que nos levem a bom porto.  


PedRodrigues

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Onde começam os mexericos

Não satisfeita com a sua vida, começou a procurar falhas em vidas alheias.
Talvez porque seja mais fácil apontar os erros dos outros, que lidar com os que cometemos. Talvez porque seja mais fácil procurar uma distânica de segurança: apontar ao longe o  naufrágio, mesmo estando o nosso barco a meter água. Talvez porque apregoar a individualidade, a diferença, a supremacia, seja muito bonito, mas é mais fácil esconder as inseguranças no quintal da vizinha. Talvez porque seja mais fácil fugir a sete pés, que encarar a dureza da realidade. Talvez porque seja mais fácil pisar os outros, que encontrar razões para nos elevarmos. Talvez porque o medo fale mais alto, e a coragem não nasça em plantas rasteiras. Talvez porque a vida seja difícil, e se procure a saída mais fácil. Talvez porque seja mais fácil invejar, que ser feliz com o que se tem. Talvez.
Não satisfeita com a sua vida, resolveu mudar.

PedRodrigues

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Campeões

Estamos a dez de Julho. Um mês depois do dia de Portugal, voltamos a ter motivos para festejar. Hoje, por razões diferentes, é um dia importante para o nosso país. Pode parecer ridículo dizer isto, mas é verdade: hoje voltamos a festejar o dia de Portugal. Vivemos numa geração demasiado desapegada à história; uma geração do mediatismo e do imediatismo, em que todos parecem querer aparecer hoje, agora, e viver tudo de uma vez. Compreende-se que assim seja: com o mudar dos tempos, mudam-se as vontades. Mas não esqueçamos de quem somos e de onde viemos. Muitos referem-se a nós como um anexo de Espanha, como um povo de gente pequena, um povo de pedreiros e mulheres-a-dias, um povo de labregos que não têm onde cair mortos. Mas eu não me esqueço das aulas de história que tive na escola, e não me lembro de ter sido a França a descobrir o caminho marítimo para a Índia, ou a Inglaterra a descobrir o Brasil. Tenho orgulho em ser de um país, de um povo que, apesar de se ter deixado reprimir pelo tempo, descobriu o mundo e criou os mapas que todos conhecemos. Tenho orgulho de ser de um país que expulsou Espanhóis, repeliu Franceses e se tornou num pequeno país independente e temido por muitos. Os anos passaram e fomos caindo na desgraça do esquecimento geral, fomos perdendo importância. Hoje somos a cauda da Europa e estamos a ser assolados com novas afrontas: sanções económicas, ataques a uma nação pequena em bicos dos pés, talvez com o intuito de a derrubar. Mas hoje, dia dez de Julho, um jogo de futebol mostrou ao mundo que somos mais que esse tal anexo de Espanha, ou o país do Cristiano Ronaldo, ou da senhora que limpa a casa, ou do taxista baixo, de bigode. Pode parecer estúpido, repito, mas este jogo veio calar muitas bocas, veio relembrar muita gente que Portugal é um país de gente aguerrida, que não se deixa cair. Hoje, um herói improvável, - como muitos heróis, em muitos momentos improváveis da nossa história enquanto país - mostrou ao mundo a força de uma nação. Não estamos por cá para ser o cu da Europa, nem o anexo de ninguém. Estamos de pedra e cal, venha quem vier. Por mais que nos tentem enterrar, por mais que nos tentem diminuir, por mais que dos tentem desrespeitar. Lembrem-se, tal como o autor do golo de hoje, o Éder(zito), nos lembrou: até a estrela mais pequena brilha na noite escura. 



PedRodrigues

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Titanic

[Ao meu velho amor]

Enquanto te afundas
      no esquecimento
                     lembra-te:
                      a vingança é
                      um prato que
                      se serve gelado.


PedRodrigues

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A bicicleta do Martim

O Martim tem oito anos.
No outro dia, enquanto estávamos à mesa, perguntava-lhe
-Não tens vergonha de ainda andares com as rodinhas na bicicleta?
Ao que, prontamente, ele respondeu
-Não!
-E os teus amigos não gozam contigo?
-Não quero saber daquilo que os outros dizem.
Apesar das dezenas de anos que nos separam, o Martim deu-me uma valiosa lição: seremos sempre julgados por aquilo que fazemos, - ou não fazemos - mas cabe-nos a nós a valorização da opinião alheia. Estaremos, do início ao fim, sujeitos a esse tribunal clandestino. Seremos constantemente bombardeados pelas ideologias dos sábios, dos reguladores da moral e dos bons costumes, dos donos de todas as verdades e dogmas. Seremos julgados independentemente da nossa opinião: quer sejamos apologistas do verde, ou do vermelho, ou da cor de burro quando foge. Todos se acham donos e senhores da verdade porque, no fundo, todos o são. Assim como Tolstói dizia que cada coração guarda um amor, cada cabeça guarda uma ideia. De maneira que o mais importante, no meio deste caos, é que sejamos fiéis à nossa opinião - à nossa verdade - e que não liguemos às buzinas alheias. O resto? O resto é como as rodinhas na bicicleta. Com, ou sem elas, sempre que cair serei gozado. Portanto, vou como me apetecer.


PedRodrigues

sábado, 2 de julho de 2016

Revolução

Queriam prender-me
ao chão. Diziam-me que
tinha de ser terra
quando eu sabia ser mar
Queriam que fosse de 
ficar. Mas eu sempre
fui de partir
Eu sabia ser céu
sabia ser sol
sabia ser luar
sabia-me infinito
como o horizonte
de todos os lugares
Queriam-me preso
entre as fronteiras
de algum país. Mas
eu escolhi ser mundo
escolhi não ser dias,
nem horas, nem segundos
Não tenho limites,
por mais correntes 
que me tentem reprimir:
não sou de ficar,
serei sempre
de partir.



PedRodrigues

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Morrer de amor

Quanto mais se amavam, mais se matavam. 
Para eles, o amor era um veneno dado em doses pequenas. Iam-se matando lentamente, sem saberem. Quanto mais se beijavam, mais os seus corpos fraquejavam. Valerá o amor a morte? Tudo indicava que sim. Valerá a distância a vida? Seria a morte o último reduto a conquistarem? Tudo indicava que sim. 
De que vale uma vida sem ela?
- Nada, digo-te eu.
- Preferes morrer?
- Já te disse que a prefiro a ela.
- Não foi isso que perguntei…
- Sim, foi.
A morte é um verbo com muitas cores, ao contrário da ideia popular. A morte tem muitas caras, muitos corações, muitos verbos. A morte não é apenas a ausência de vida. Morremos também quando caímos no esquecimento de quem nos ama. A morte não é apenas uma pistola carregada, apontada à nossa cabeça. A morte é a falta daquele toque, daqueles beijos, das pregas daqueles lábios. É a ausência das texturas, dos meridianos contados na pele. A morte é uma espécie de molécula, como o oxigénio, que respiramos, mas não vemos e quando a tentamos agarrar: apenas o vazio. A morte é um vazio.
- Eras capaz de viver sem ele?
- Não.
- Mesmo sabendo que ele te pode matar?
- Ele é a minha última paragem.
- Não pensas continuar?
Não.
O amor, por si só, não encurta distâncias; não conquista fronteiras; não começa guerras. O amor é um substantivo, muito usado pelos poetas e outras pessoas malucas. O amor é o dono do hospício onde todos julgamos dançar em silêncio. O amor. O amor. O amor. Dizem-nos de ele ser uma palavra no dicionário e pintada nas paredes das cidades. Dizem de ele ser uma fotografia de um abraço, com um pôr-do-sol muito bonito no fundo. O amor deve ser uma força: sem ser massa por aceleração, ou sim: dois corações que aceleram e se atraem um ao outro. Uma frequência bonita. Uma melodia assobiada pelos dias. Um sorriso. O amor deve ser um sorriso. Ou a causa da morte de alguém. 
Morrias por amor?
- Morremos todos os dias.
- Não foi isso que perguntei.
Tens de rever as tuas perguntas. São bastante monótonas. 
- Só queria saber se morrias por amor.
-Todos amamos alguma coisa. Viver é morrer, todos os dias, um bocadinho. Faz as contas.
Quanto mais se amavam, mais se matavam. No início era o verbo. No final, também.


PedRodrigues

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Saída de emergência


Para o fim do mundo ainda falta muito tempo. Não te preocupes, dá-me a mão. Conta os carros comigo. À noite, os faróis são estrelas cadentes a desaparecerem no asfalto. Podes pedir um desejo, ou dois. Eu sei, amor, não acreditas em desejos pedidos. O destino parece sempre abrir as portas erradas. Não acreditas em novos amores, praias, cabanas. Talvez porque o amor nunca te tenha levado a praia alguma, ou construído cabana alguma. Há uma saída de emergência que nunca usaste. Acabaste sempre por ficar. E depois, no meio do desastre, hemorragias internas, dores intensas choradas às escondidas. O coração nos cuidados intensivos e juras de nunca mais acreditares nas estrelas. Mas não é o fim do mundo amor. Dá-me a mão. Conta comigo os carros, canta comigo o refrão de alguma canção. Não tenhas medo. Não te prometo cabanas, nem praias. Senta comigo aqui, neste banco de jardim. Contamos as estrelas nos faróis, mas não lhes pedimos seja o que for. Vamos ficando, contando, até perdermos os números de vista. De mão dada, amor.

 

E se for para sair? Saímos juntos.

 

PedRodrigues

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Mãos

Trazia-te pela mão, como quem se orgulha de partilhar a felicidade no brilho de outros olhos. Dobrava contigo as esquinas da cidade na esperança de algum lugar onde pudéssemos descansar as mãos, ou apenas uma sombra onde te pudesse esconder. Tinha medo de te perder para outros desafios. Talvez porque o mar parece maior e nos chame baixinho para o conhecermos melhor. Mas eu nunca fui dessa imensidão líquida. Sempre fui de voltar, como as ondas. Mesmo na calmaria, mesmo nas tempestades. A cidade calava-se e ninguém dizia fosse o que fosse. As tuas mãos, amor. As tuas mãos. A tua casa, amor. O teu peito. Essa caixa onde prometeste guardar-me do mundo. Talvez porque o medo. Talvez porque o mundo. Talvez porque o amor. Talvez porque seja inevitável pensar no depois. O que fazer depois do amor? E tu guardavas as lágrimas dentro das mãos. Procuravas a sombra dos lugares frescos onde pudéssemos nos esconder e descansar um pouco . Mas tu nunca me largavas a mão. 

Quis viver para sempre nos teus olhos. Ainda quero. 


PedRodrigues

domingo, 29 de maio de 2016

Sem título

Prenderam-me o coração
numa gaiola de
ossos, e carne, e pele
Tinham medo que ele voasse
                                                       livre
e nunca mais voltasse
Mas ele acaba sempre por voltar:
ou por mais comida, ou por mais água, ou por mais amor
Às vezes de asas partidas.
É o preço da
                      liberdade

PedRodrigues

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Por vezes

Por vezes os amores
viram músicas, e as músicas
são amores que cantamos
E ao longe os amores
não são músicas, são
somente as lágrimas que choramos.
Por vezes os amores
viram noite, e a noite são amores
que embalamos
E ao longe os amores
não são noite, são somente as estrelas que contamos.
E por vezes os amores são doces,
na vida amarga que levamos
E por vezes, às vezes, só às vezes, os amores são o travo da boca que beijamos.

PedRodrigues

terça-feira, 17 de maio de 2016

Cartas de amor

Nem todas as cartas chegam ao destino. Há as que se perdem pelo caminho. E com elas as palavras que ficam por dizer. O perfume suave de algum lugar onde gostaríamos de estar, a tinta seca de outras luas registadas a azul no papel. Só o que amamos nos deixa saudade. E a saudade é uma carta. Há quem não a receba, e ache que o amor se perdeu pelo caminho. Não. Perderam-se as palavras, mas tu não. Perdeu-se o papel, mas tu não. Perdeu-se a lua, mas tu não. Mesmo que em todas as cartas te perca, em todos os lugares te encontro. Tu estás onde sempre estiveste: à beira deste nosso abismo, meu amor.
 
PedRodrigues

domingo, 8 de maio de 2016

A Coimbra, depois do adeus


A saudade é um espaço
que tentamos preencher
com as memórias
dos rostos, das conversas,
das noites, das tardes,
do sol, do Mondego,
dos copos entornados,
dos amigos que se afastam
devido às circunstâncias
da vida
Ficam esses momentos
em que o choro das guitarras
nos fazia chorar também
Em que as aulas nos aborreciam
em conjunto, e fazíamos juras
de estudar para passar
noites, e noites, e noites 
a fio.
Noutros tempos usámos
o negro como uma cor alegre,
apesar das lágrimas dos últimos
abraços junto às escadas da velha 
sé. Noutros tempos usámos
cartola, mas não éramos 
mágicos - se fôssemos,
pararíamos aí o relógio.
Noutros tempos fomos uma cidade
e todas as suas pedras, e as suas 
estátuas, e a sua história e a sua 
universidade.
Noutros tempos fomos Coimbra,
hoje somos saudade. 



PedRodrigues