quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Nota pessoal


[ao Pedro de amanhã, para que não cometa os mesmos erros do Pedro de hoje]
 
Quando a vires pela primeira vez não vais saber se é com ela que vais ficar. Ninguém traz as instruções agarradas ao pescoço; não há um sinal verde que te diga que deves avançar; não há uma força gravitacional a puxar-te para ela. Não. Talvez o teu olhar se cruze com o dela. Quem sabe haja um sorriso. Umas palavras mais tímidas que acabem por se transformar numa longa conversa. Talvez essa conversa venha a durar dias, duas ou três idas ao café, um passeio pelas ruas da cidade. Continuarás sem saber se é com ela que vais ficar. Ela também não saberá se és a pessoa certa. Eventualmente começas a descobrir todas as fissuras e imperfeições nas paredes dela. Ela descobrirá que há estuque caído nos teus corredores. Mas que importa isso? Eventualmente, vão acabando por ficar, a morar um no outro, sem medo que o tecto desabe. Talvez pendurem alguns quadros, pintem algumas paredes, disfarcem uma outra fenda mais feia. Todos procuramos alguém onde possamos morar: um coração que seja casa. Claro que nunca saberás se será ela a tua última morada. Na cabeça dela a questão será permanente: “é desta que mudo o meu código postal?”. Não há como o saber. Vamos ficando, trabalhando, todos os dias, de forma a que a casa não caia, mesmo durante as tempestades. Tudo precisa de manutenção, até o amor. Então o melhor será não baixares os braços, não te calares em longos silêncios, não te esconderes num canto. Não vais saber se é com ela que vais ficar, mas deves-lhe a tua dedicação. Se lhe abriste a porta, para entrar, não a deixes partir.

 

PedRodrigues

2 comentários:

  1. E que o Pedro de hoje e de amanhã tenha o discernimento de saber onde de[morar]. Como escreveu Frida:
    "Onde não puderes amar, não te demores."
    Os erros são aprendizagens. Não te culpes. Só sai da nossa vida quem não merece ficar.
    Bj

    ResponderEliminar