sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Spaccio

O amor é um espaço demasiado importante
para preenchermos
com pessoas vazias.

PedRodrigues

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Dissertações, desinteressantes, numa tarde de praia

Na praia, pouco depois de ler, costumo deitar a cabeça sobre o livro. Não sei o que tento alcançar com isso. Talvez acredite poder absorver a beleza das palavras por osmose, ou algo que me valha. Por hábito cubro o rosto com o braço, tentando anular os efeitos da luz nos meus olhos. Gosto de os reservar para a beleza dos dias aqui, na minha casa de água salgada. 
Por vezes, ao ouvir as histórias de quem me rodeia no areal, dou por mim a pensar em assuntos aleatórios, - como agora - sem razão aparente para serem por mim pensados, por não fazerem parte do meu quotidiano, nem dos assuntos dos livros que leio e nos quais repouso a cabeça. Reparo, entrando nessas histórias que não me pertencem, na futilidade em que vivemos imersos. No compêndio de chorrilhos e lugares comuns usados todos os dias, como: o que me interessa na pessoa é a essência. E continuo perplexo a ouvir: mas gosto de um sorriso bonito, e se tiver olhos claros e um corpo de ginásio, melhor. Pasmo-me com a facilidade em tornar a essência numa característica física. A capacidade em transformar o apelativo aos olhos numa incisão na carne em busca da beleza interior. Dizem as mesmas pessoas acabar por cair sempre no mesmo erro: gostar de pessoas que lhes fazem mal. Talvez o interior seja um atributo não trabalhável num ginásio; talvez o carácter,   ao contrário dos olhos, não se possa mascarar com lentes de contacto. Não sou de destruir as opiniões de terceiros (já me basta a forma como mino as minhas, e me condeno por, algumas vezes, pensar como penso. Pensar é um verbo que muitas vezes conduz à depressão.), a liberdade é um direito de todos. - Embora muita gente a apregoe, atirando, no entanto, sobre quem tem opinião diferente. Mas continuo a crer, enquanto tento alhear-me da conversa, que a falha está em repetir o mesmo erro vezes sem conta. E o erro está em tentarmos enganar-nos, acreditando não sucumbirmos à nossa natureza enquanto seres fúteis.



PedRodrigues

sábado, 29 de julho de 2017

Elogio à individualidade

Deixei há algum tempo de seguir os caminhos que outros me apontam. Talvez porque cada mão aponte um caminho diferente - e eu só posso seguir um, de cada vez. Sempre me disseram que é impossível agradar a gregos e troianos: o que sempre tomei como uma verdade fundamental. Se escolho seguir pela direita, dizem-me ser maluco por não ter optado pela esquerda; se é a esquerda que escolho, criticam-me por não ter escolhido a direita; se avanço, devia ter ficado parado; se fico parado, devia ter avançado. Haverá sempre vozes de contestação, qualquer que seja a escolha. E portanto deixei de me preocupar com as opiniões de terceiros, com as vuvuzelas alheias que só servem para diminuir a minha voz. Sou dono das minhas escolhas. Se cair, terei de aprender a levantar-me; se chegar a um beco sem saída, terei de aprender a trepar. A vida será sempre um corredor com várias portas. Cabe a mim - só a mim - escolher a próxima a abrir. Mesmo que as críticas acabem por chegar. Chegarão sempre. Há tantas opiniões quanto cabeças e, portanto, será impossível agradar a todas. No entanto, ninguém cai com as minhas pernas; ninguém sorri com a minha boca. Neste mundo de dedos incriminatórios e vozes derrotistas, sigo o meu caminho assobiando, ouvindo e seguindo a voz que trago por dentro.


PedRodrigues

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Sem título, a caneta

Não tinha onde te escrever, 
a não ser
               nos limites destas páginas
a tinta permanente
A vida é uma máquina de fazer
passados. Avançamos por ela
como pilotos de carros de corrida,
fugindo ao tempo; a vida é mesmo 
assim e ninguém consegue parar
as imagens que se tornam borrões
de luz fina à nossa passagem

Não tinha como travar o avanço
do tempo; a pele estava a desfazer-se
em memórias de antigas carícias 
                                                  de amor
Sei lá eu o infortúnio das primeiras
chuvas; na água tudo se dissolve
até a tua imagem.
Não serei para sempre 
o tempo dos teus beijos

A vida encarregar-se-á de te fazer
passado. Não tenho braços que 
te façam minha para sempre - ou depois.

Serás memória, mesmo antes 
de me aperceber se foste minha
ao mesmo tempo que fui teu
Amor, meu amor.

Escrevi-te a tinta permanente 
só no caso do tempo se esquecer
que tudo o que é eterno 
não tem pressa de ser.



PedRodrigues

domingo, 16 de julho de 2017

Uma canção para um coração partido

Disseste-me adeus diz-se aos mortos, mas que querias que dissesse a não ser um adeus? Não tinha mais que dizer. Não que quisesse matar-te no meu coração, a tiro de revólver. Nada disso. Só queria que deixasses de doer por dentro. Que deixasses de ser essa memória que me atormenta nas noites de insónias. Não tinha mais que dizer. Não tinha como desligar a tua voz na minha cabeça a repetir o meu nome. Porque o pior das tempestades vem depois, quando tudo são destroços e nada parece pertencer ao seu lugar. O depois é incerto, como a letra de uma música que cantamos, sem acertarmos as palavras. Nada pertence. Nada encaixa. Mas acabamos por embalar na melodia e abanar a cabeça, gastando toda essa energia, toda essa força de lágrimas e ais. Não queria dizer-te adeus, mas tive de o fazer. Porque a canção, como tu, também acaba. A canção, como tu, também teve o seu tempo. Não queria matar-te no meu coração, juro. Apenas desligar-te um pouco. Um pouco; um pouco; um pouco. Apagar as tuas fotografias, o teu número de telemóvel, afogar-te em seis copos de um vinho de uma boa casta, uns copos de gim: queria que a tua memória acabasse por ficar dormente. Convidar-te a sair. Adeus, mesmo tendo vontade de dizer um até logo. A minha vontade era essa: soltar um adeus com o som de um até logo. Não sei como podemos amar tanto o que nos destrói. Mas também não me imagino a ser um marinheiro de mares calmos. Sempre me apaixonei pelas tempestades. Mesmo que o depois. Mesmo que depois… E a nossa música continua a tocar. Comigo aqui. Contigo algures pelo mundo. Espero que ainda saibas a letra. Eu continuo a cantá-la e a dançá-la entre os destroços de um coração partido. 


PedRodrigues

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Caprichos do século XXI

Vivemos numa época de caprichos. O que hoje parece eterno, amanhã já está feito em ruínas. Parecemos andar ao sabor do vento, seguindo o caminho que ele decide, sem nos darmos conta dos danos que causamos aos outros. Num mundo cada vez mais preso à imagem, as pessoas começam a perder conta do que cada uma guarda para lá dos rótulos. No outro dia, ouvia uma história de uma rapariga que tinha acabado de ser trocada pelo rapaz com quem namorava. Vivemos numa época de relações fast food. É triste dizê-lo, mas é verdade. Continuamos a buscar a beleza física, os corpos de ginásio, os bronzes de mil dias de verão, os cabelos bem arranjados, e as roupas elegantes: num mundo de fotocópias, não ousamos procurar o original. Vamos na corrente, seguindo o vento, caindo sempre no mesmo erro. Penso ter sido Einstein que disse “loucura é repetir a mesma acção, vezes sem conta, e esperar um resultado diferente”. Vivemos num mundo de loucos, mas não num mundo de loucura saudável: de amor pelas pequenas coisas, pelos pormenores, de amor pela vida, de vício por pessoas extraordinárias. Vivemos num mundo de loucos que cometem repetidamente o mesmo erro, chorando no final porque o desfecho não foi diferente. Vivemos num mundo de caprichos, repito: procuramos o brilho, como os corvos, mas não nos importamos em tentar distinguir se o brilho é de um diamante, ou de um pedaço de vidro. É triste. Preocupamo-nos com a imagem, esquecemos a essência. E consumimos hoje, para metermos de lado amanhã. Já ninguém se apaixona loucamente. Vivemos na era do desinteresse: nada prende. Talvez porque a beleza física seja uma característica fútil: desvanece com o tempo. Não falo do alto de um pedestal, porque a beleza, em qualquer forma me atrai, mas tento escavar até ao osso. Procurar as cidades perdidas que ninguém vê. Tenho o mau costume de me viciar em pessoas incríveis, que me prendam a elas como Saturno prende as suas luas. Isso sim, é bonito: o que não sabemos explicar e que nos prende por dentro, e nos faz pensar dia e noite naquela pessoa. Mais que a simples fachada que não podemos amar de olhos fechados. Num mundo de consumo imediato, e olhos gulosos: pára um pouco, fecha os olhos. Ousa ser original. 


PedRodrigues

terça-feira, 4 de julho de 2017

Janela


É terça-feira, e Julho entrou a correr pela vida adentro, como um convidado que, apesar de esperado, entra pela porta de rompante, deixando a casa em pé de guerra. 
É de noite, e nem os grilos cantam, nem as pessoas conversam na rua. Apenas um avião se sobrepõe ao tecto de minha casa, levando consigo o descanso do silêncio, obrigando-me a olhar para a parede vazia à minha frente. Por mim passa a ideia de te ver à janela, a olhar a rua, perguntando-te por que razão tentamos dar ordem às coisas: sentidos às estradas, nomes aos lugares, coordenadas às estrelas. 
És a coisa mais bonita que já vi, penso. O teu caos ensinou-te a dançar, e tu não te inibiste. Danças sozinha uma música que só tu pareces ouvir e, segundo Nietzsche, talvez todos os outros te julguem maluca. Mas eu não. Eu dou por mim a pensar que talvez seja no teu ouvido que as aves treinam o seu canto. Talvez a tua voz ecoe o som do mar, como um velho búzio deixado a rolar pelas ondas. Os teus olhos lembram-me constelações, cujo nome esqueci porque o espaço é demasiado grande para ser decorado. E é nas ruas do teu corpo que eu procuro me perder, porque não mereces que imponha sentidos, que limite as tuas fronteiras. 
A vida passa por nós como um feixe de luz.
E é por isso que te procuro, pelos dias todos, dos meses todos, de todos os anos da minha vida. Penso em ti sempre que olho este espaço em branco, hipnótico, a pedir que invente frases com o teu nome, que o preencha com as tuas cores. Mas o mar não tem limite, já me diziam antigamente. E tu também não, meu amor. Por isso, onde quer que estejas, acusa-te. É Julho, as ruas estão vazias, o silêncio é teu, a minha janela também. 

Até já, amor
meu amor.


Pedro 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Poesia

E ela tinha poesia na pele, como uma tatuagem que me contava histórias. Não com palavras, com imagens. Tudo me fazia perder nos caminhos do corpo. Nos labirintos que outros julgaram saber percorrer. Durante um tempo tudo isso era meu. Pertencia às minhas mãos, aos meus lábios, à minha língua, aos meus olhos. Tudo isso eu conseguia ver, cheirar, tactear ao de leve, com a inocência de alguém que não sabe aonde irá chegar. A voz dela embalava-me como o som do mar a ecoar dentro de um búzio antigo. Mas não era apenas isso que me prendia a ela. Não era isso que me fazia ficar. Havia algo nos olhos, um brilho estelar, que me fazia sentir único. E o sorriso. O desarme perfeito. Natural. Tudo isso era poesia. Uma bonita poesia. 


PedRodrigues

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Solteirismo

É Junho, estou sozinho em casa a pensar em velhas conversas. Tenho os acordes e a voz melancólica de Cigarettes After Sex a tocarem no computador, enquanto escrevo as palavras à pressa, com medo que me escapem. Quase tudo me relembra outros Junhos, com músicas mais alegres, com mais sol na pele e menos atrás das vidraças. Efectivamente, a vida muda. Nós mudamos com ela e não há como lhe escapar. Mas há coisas que se arrastam, como as pequenas ondas na maré vazia. Cada coração tem o seu ritmo, ao que parece. E o meu tem vindo a debater-se com o passado, sem vontade de dar ao futuro uma face, com nome e apelido. Não sei se por teimosia. Não sei se por medo. Não sei. Sei porém que, de todos os lados me chegam as pressões de avançar, de encontrar a pessoa ideal. Mas eu respondo que não acredito em pessoas ideais; em obrigações sociais de amar alguém para não estar sozinho; em ideias pré-concebidas quando se trata de assuntos do coração. Não sou alheio de imaginar quem corresponda aos limites que invento, mas a vida tem-me ensinado que não vale a pena me prender às amarras impostas. A qualquer momento chega alguém, completamente diferente de tudo aquilo que imaginei e rouba-me o ar, atira-me ao tapete. É como a ideia de gostarmos muito de uma melodia, mas não sabermos a letra: acabamos por cantar palavras que não existem e, no entanto, tudo parece fazer sentido, no fim da canção. Por isso não me condeno por não andar desesperado em busca de um futuro com nome de gente. Eventualmente, acabamos por chegar aos braços certos. 


PedRodrigues

terça-feira, 6 de junho de 2017

Liberdade

“pássaros criados em gaiolas acreditam que voar é uma doença” 
Alejandro Jodorowsky



De que te vale teres olhos
se te obrigam a ver o que querem que vejas?
De que te vale teres boca
se te mandam calar quando tens tanto para dizer?
De que te vale teres ouvidos
se tudo o que ouves são os sons das correntes?
De que vale teres nariz
se o que cheiras são as cinzas da esperança?
De que vale teres mãos
se não és tu que puxas os fios?
De que vale teres pés
se só vais aonde te mandam?

De que vale teres asas,
se estás preso numa gaiola?

Talvez voar não seja uma doença.


PedRodrigues

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Lisboa

A cidade, como uma mulher, veste-se lindíssima com todas as cores. Nada nela parece não pertencer. Como uma mulher mantém-se inabalável, inatingível, mesmo que o tempo, mesmo que depois o tempo; e puxa-me, e absorve-me, e mistura-se nos meus olhos, com a luz do sol e o pó das calçadas. A cidade, como uma mulher, puxa-me para o seu centro, para o seu ponto de equilíbrio, e pede-me que não a deixe cair, que não a deixe perder - sou eu que me perco em todas as tuas ruas, não entendes? Como uma mulher ela pede-me que a abrace e que acabe com todos os limites, todas as nossas fronteiras. Pede-me que a conquiste, mas que não destrua todas as suas arestas. Como uma mulher, a cidade deve ser amada e respeitada. E por dentro dela tudo parece demasiado selvagem para ser apenas meu. Por isso passeio no seu corpo com cautela, esperando que ela nunca se esqueça de mim.


PedRodrigues

segunda-feira, 8 de maio de 2017

O mundo era assim:


julgavam todos
ser a certeza que os ligava
E uns e outros esperavam estar certos 
para alguém
Todos se esqueciam que o tempo é inevitável
e que nenhum carro começou a andar
antes de terem inventado a roda.
Descobriram mais tarde
a dolorosa verdade:
não há dois certos que 
permaneçam juntos 
                            na hora errada.

O timing é uma coisa danada.



PedRodrigues

sábado, 6 de maio de 2017

Ela (Maio)



Espero que entendas que nada do que é tragicamente belo mendiga pela tua atenção. A lua nem sempre está cheia; o mar nem sempre se revolta com a areia; os campos voltam a florir na primavera, para nos lembrarem que o inverno não dura para sempre. Então talvez seja melhor parares um pouco e apreciares as cores da lua; talvez seja melhor mergulhares no mar, em vez  de molhares apenas os pés; talvez seja melhor parares de colher todas as flores que encontras nos campos. Nada do que é tragicamente belo é perfeito. Nada do que é tragicamente belo permanece imutável ao longo do tempo. Tudo o que é tragicamente belo precisa de ser visto, tocado, cheirado, provado, ouvido como uma oportunidade única. Ela é tragicamente bela. 


PedRodrigues

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Depois de Coimbra

Não te vou falar no depois. No final, quando tudo acaba, quando rasgas o traje e também rasgas um pouco de ti, um pouco da pele que um dia foi tua. Não te vou falar das noites em que voltas e recordas todos os risos, todas as aventuras, todas as lágrimas choradas porque algo não correu bem, todos os murros na mesa porque algo tinha de mudar. Não te vou falar da saudade. Que durante anos era apenas canção, uma possibilidade remota que um dia talvez chegasse. Não te vou falar nos copos, nas histórias, noutro lugar, noutro fuso horário, sem o sol de Coimbra a queimar-te os poros da pele, a chamar-te para que olhes com atenção o rio, para que decores os traços das pedras, as esquinas de todas as ruas. Não te vou falar do amor às pessoas com quem partilhaste tudo isto, com quem disseste para a vida, mesmo que a vida vos tenha levado para longe, mas que não esqueces e procuras saber se tudo está bem porque durante algum tempo o mundo foi vosso - e continuará a ser. Não te vou falar em serenatas, em choros de guitarras que te correm pelos olhos como um rio que se perpetua ao longo da saudade. Não te vou falar em metamorfoses, em casulos: de todos os miúdos que acabam por ser homens no final, senhores do depois, meninos do agora. Não te vou falar de nada disso. Porque de tudo isso já escrevi. De tudo isso já sangrei pelos dedos em textos à cidade. Em juras de amor eterno a um espaço, a um lugar que para sempre me pertencerá, por ser de mim o que sou, por ser de mim as palavras, os amores, as mágoas. E cujos pés me trouxeram até onde estou, depois desse adeus. Não te vou falar de nada do que vem depois, por não ter o direito de o fazer. Aproveita o momento. Guarda-o com força. Um dia vais perceber, com quantas letras se escreve a saudade. 


PedRodrigues

terça-feira, 2 de maio de 2017

Maio

Falavas-me em Maio, como quem se demora numa conversa que espera nunca mais acabar. Eu ouvia-te com atenção, porque não conseguia deixar de pensar em como podias dar abrigo no teu peito às andorinhas, às chuvas de Abril que nunca chegaram, a todos os grãos de areia de todas as praias que pisámos. Podias dar abrigo a tudo isso, e tudo isso me parecia demasiado pouco para amar, porque os teus olhos se confundiam com um horizonte que teimo em tentar agarrar. Mas tudo de ti me foge ao controlo e talvez seja essa uma das razões para te amar tanto: essa fúria descontrolada que trazes por dentro, esse mar revolto de Janeiro, que quebra com força na areia e nos obriga a parar e pensar que o mundo talvez seja um lugar perigoso, talvez o  mar seja um lugar perigoso, e no entanto é um lugar que procuramos para que nos dê algum conforto, alguma paz. E é desnecessariamente Maio, com todas as suas cores e toda a sua beleza. A cidade sai à rua e tudo se segue em consequência, porque a vida é mesmo assim. Tenho saudades de te ouvir falar de Maio - e de todos os outros meses. Porque enquanto me falavas eu existia em todo esse tempo, era herói e vilão, fazia parte de todas essas histórias que agora recordo com saudade. E acredito que o teu mar não tenha acalmado, mesmo estando nós próximos do verão. Não acredito que todas as tuas tempestades se tenham transformado em céus azuis. Não acredito. Acredito que continues indomável, meu amor: mesmo que seja Maio, ou outro mês qualquer.



PedRodrigues

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Até amanhã

Durante algum tempo achei que o mundo iria acabar, ou não voltaria a fazer sentido, achei que as noites nunca mais seriam feitas de gargalhadas e conversas até adormecer, ou de filmes e amor. Durante algum tempo não quis saber a que saberiam novos beijos, qual seria o cheiro de novos apegos, novos abraços. Durante algum tempo senti um vazio enorme e nada o parecia preencher: nem a bebida, nem as conversas com os amigos, nem os sorrisos de outras mulheres, nem os vermelhos vibrantes de outros lábios, as conversas sem nexo que nunca levavam a lugar nenhum, porque no fundo ainda estava encalhado na ideia de ti. Mas devagar comecei a perceber: copos partidos não voltam a carregar água - a matar a sede. Nada do que um dia foi, e já não é, voltará a ser. Os teus beijos nunca mais serão os mesmos, o teu riso nunca mais me deixará feliz como dantes, os teus abraços nunca mais voltarão a ser tão apertados. Desatámos o laço que nos unia e, em algum momento, a corda partiu. De maneira que tenho tentado avançar. Com as memórias a pesarem cada vez menos. Ainda me apareces em sonhos; às vezes, em conversa, ainda lembro as nossas façanhas; fomos eternos até ao fim, não fomos? Gosto muito desta frase*: eternos até ao fim. E a vida vai seguindo. Não voltei a ter notícias tuas. As imagens foram sendo cada vez menos, de maneira que não sei se mudaste o corte de cabelo, ou se ainda usas aquelas sapatilhas com cores garridas. Nada sei. Mas isso pouco importa. Tudo pertence ao seu tempo: o nosso ficou onde o deixámos. Eu sigo de mãos dadas com a mudança, temendo, porém, que não haja como voltar a juntar o que parece para sempre quebrado. Mas talvez seja este o dilema de ser de carne e osso: vivemos na ilusão que apenas o amor de alguém nos pode completar. Somos uns parvos. Até amanhã.


PedRodrigues


*a frase original é do JLP

segunda-feira, 17 de abril de 2017

(Para) Ela


Não te vou pedir que me digas a tua cor favorita; que atires as cartas e me expliques os signos; não te vou pedir que me contes todos os lugares onde estiveste no passado -  já todos estivemos em algum lugar, antes de chegarmos aqui. Não te vou pedir que me expliques todas as tatuagens; o que fazes durante o dia, quando nada me dizes e procuro um motivo para que o ecrã do telemóvel se ilumine. Não te vou pedir que decores o comprimento de todos os meus silêncios; que entendas toda a minha confusão. Não vou. Quero ficar a olhar-te e a descobrir o cheiro a sol dos teus cabelos; descobrir, por engano, algum brasil no apertar da tua mão - eventualmente acabamos por chegar, estás a ver? Quero ver-te a adormecer enquanto te leio os textos que mais gosto, os meus segredos mais bem escondidos. Quero ouvir-te a repeti-los com o mar calmo que trazes na tua voz. Ficar a olhar-te, sem ter de me preocupar com as horas - podemos parar o tempo, não podemos? Quero sentir as pregas dos teus lábios, o teu sorriso de menina que acabou de crescer. Há ainda tanto horizonte para descobrir em ti. Há ainda tanto espaço para ser feliz. Vamos ser felizes juntos?


PedRodrigues

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Encontramo-nos onde fores feliz

Não me digas
que queres ter asas
se tens medo de voar

Não me digas 
que queres ter voz
se tens medo que te oiçam

Não me digas
que queres ser diferente
se tens medo da mudança

Não me digas 
que queres chegar
se tens medo de partir

Não me digas
que queres guardar
se tens medo de perder

Diz-me
que apesar do medo
vais voar, vais gritar, vais mudar, vais partir, vais guardar
mesmo que o medo
mesmo com medo
voa, menina
grita, muda, parte, guarda
Não pares.
O tempo não pede licença para avançar
Avança com ele até onde fores feliz.
Diz-me
Tens medo?
Todos temos.

Encontramo-nos lá.



PedRodrigues

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Momento certo

Perguntava-lhe pelo momento certo.
Ela pedia-me que adivinhasse, como quem adivinha o som do mar dentro de búzios antigos. Mas eu nunca acreditei em momentos exactos, com horas exactas. Nunca acreditei haver um momento certo do amor; um momento certo de um beijo; um momento certo para prolongar os meus braços até outro corpo que os receba.
[Ela talvez soubesse]
Sempre acreditei na inevitabilidade das coisas; nos movimentos aleatórios de tudo em minha volta. 
Há partículas condenadas a colidirem. Talvez. Nunca me prendi à linearidade com que se tenta explicar a vida. Os significados inventados para justificar as acções. As abstractas certezas de tudo o que acontece. Nunca acreditei. 
Acredito, porém, nos tons garridos das buganvílias em flor, no despertar azul dos jacarandás, no cheiro doce dos antigos pessegueiros dos quintais da minha infância. Em tudo isso eu acredito: na inevitabilidade das coisas, e no destino que teima em fazer-nos colidir uns nos outros, transformando-nos neste momento: presente, e infinitamente possível. 


PedRodrigues

sábado, 1 de abril de 2017

Abril



O calendário teima em marcar o dia certo.
É desnecessariamente Abril e o sol parece ter perdido toda a vergonha.

Não sei se por desejo, ou necessidade, teimo em inventar vontades 
com nomes e faces
de gente.
A minha vida teima em ser um terminal de aeroporto
onde as pessoas chegam e partem.

Aprendi que não nos devemos prender demasiado a alguém que não sabe onde ficar
- as despedidas são sempre dolorosas.
Mas é inevitável ser quem sou: gosto de abraçar; 
de abrir a porta para que entrem
e se sentem, a conversar.

(Talvez lhes pergunte: “Queres ficar o resto da tua vida?”)

Devo ter um coração demasiado ansioso, com vontade de se entregar
a mãos que nunca aprenderam a segurar
Ainda não aprendi a limpar os estilhaços
das quedas antigas. E é desnecessariamente Abril, no calendário
E gostava de abrigar no peito toda a primavera: o azul do céu; o canto das aves;
o cheiro de todas as flores. Queria que no meu peito fosse sempre primavera, mas

por mais que regue, por mais que o tempo passe, flores de plástico não crescem. 



PedRodrigues

terça-feira, 28 de março de 2017

17:20

Pensou:
“Não há nada pior que alguém que nos mutile.” - não no sentido físico da palavra; não a carne. Não há nada pior que alguém que nos mutile quem somos, a nossa essência, sabes? Alguém que nos faça sentir não pertencermos; não fazermos parte. Alguém que nos obrigue a mudar, ou a ter atenção com o que dizemos, ou pensamos, como se fossem um perigo dispensável. 
Nem sempre encaixamos.
É inevitável cedermos a alguns caprichos quando gostamos, quando temos vontade de ser. Mas nada é tão triste como usar uma máscara; como inventarmos maneiras de encaixar cilindros no espaço de pirâmides. Ou procurarmos maneiras de cortarmos todas as arestas. Não sei se é o pior de todos os males - talvez não seja. Mas é muito mau; demasiado. 
Talvez o meu corpo esteja reservado para um lugar onde pertença. Talvez eu esteja reservado para esse espaço, também. A solidão é um monstro terrível. Deixa-nos assim, com vontade de pertencer cegamente. Com medo de não voltarmos a encontrar espaço entre alguns dedos onde os nossos dedos possam descansar. O desespero leva às maiores loucuras. Uma delas é acharmos que devemos mudar por alguém. Não é solução. Pertencemos ao lugar onde possamos ser inteiros: com todos os nossos defeitos e virtudes. É isso.


PedRodrigues

terça-feira, 21 de março de 2017

Tu

(No dia mundial da poesia, lembrei-me de ti)

Quis escrever um poema
onde coubessem os teus olhos,
a tua boca, os teus braços, as tuas pernas
Mas não consegui.
És demasiado grande para espaços fechados - e as palavras
demasiado pequenas
Depois olhei a rua da janela,
o sol, as gaivotas com restos de mar
nas suas penas.
E imaginei todos os cantos do teu corpo
onde sonhei escrever poemas
Pousei a caneta e percebi:
nenhum horizonte cabe nas margens do papel.
E o poema encurtou, até caber no meu peito:
"Tu"


PedRodrigues

quinta-feira, 16 de março de 2017

Março

Num mundo em que todos estão preocupados com o Inverno,
em que todos choram pelo Verão
Ela escolheu ser Primavera
Ela sabe que num mundo a preto e branco, alguém precisa de ser cor;
no meio de ilusões constantes, alguém precisa de ser mudança;
na terra onde todos se escondem, alguém precisa de ser flor.
no tempo em que todos desistem, alguém precisa de ser esperança.
As andorinhas não perguntam ao céu se podem voar.

PedRodrigues

segunda-feira, 6 de março de 2017

Ela (3)

Tem aquele jeito engraçado de se esconder, como se estivéssemos num recreio, no tempo da escola, e eu a tivesse de procurar por todos os cantos. Eu nunca fui grande coisa a jogar às escondidas, confesso. Sempre tive medo de procurar, porque sempre achei que acabaria por me perder. Mas por ela sou capaz de ir à volta, levantar todas as pedras, procurar em todas as esquinas. Sou capaz de gritar alto “onde estás?”, mesmo que todos me olhem como se fosse um tonto - talvez seja, não somos todos uns tontos quando estamos apaixonados? Por ela talvez corra mais rápido, talvez vá mais longe. Não sei. Por ela talvez escreva mais umas frases, mais uns textos, mais uns livros. Sabes quando alguém é poesia? Sabes quando alguém parece ser feito de cores, como um arco-íris, e tu pareces entender algumas dessas cores, como se fossem uma música muito bonita que não te cansas de ouvir? Talvez ela seja melodia, ritmo, paixão: um tango com pele morena e cores quentes. Talvez ela seja o cheiro a sol e todos os tons salgados do mar. Talvez ela seja um capítulo demasiado bonito para ser lido depressa. Talvez ela. Será ela? Não sei, sei lá. Mas vou procurá-la. E se me perder? Nela? Por ela? É bom sinal. 


PedRodrigues 

quarta-feira, 1 de março de 2017

Trinta

E, de repente, muda o algarismo da casa das dezenas. O contador parece não saber quando parar. De repente todos te começam a perguntar se não está na altura de assentares, teres filhos, uma casa, um cão, um carro; volta a idade dos porquês: o porquê de estares solteiro; o porquê de ainda partilhares casa com amigos; o porquê de não  ires mais longe. E, por momentos, talvez penses que tens de deixar de ser rebelde, tens de deixar de fugir ao status quo, tens de deixar de fugir ao que o mundo espera de ti. O contador marca trinta. Já não tens vinte anos. Já não tens idade para rir, para saltar, para estares a escrever à uma da madrugada. Mas depois voltas a pensar - deitado na cama da casa que acabaste de comprar, e que partilhas com amigos - que talvez o mundo esteja enganado. Talvez o contador esteja estragado. Os cabelos brancos, as rugas, as ressacas de dois dias são apenas uma piada engraçada que o teu corpo te conta. E o mundo talvez possa esperar por ti mais um pouco. Talvez a vida não seja uma linha recta. Talvez possas tomar liberdades. Talvez possas ser quem és: sem pressões de terceiros, sem seguir ideias pré-concebidas. Talvez o mundo possa esperar, e tu também. Ninguém te obriga a apanhar a primeira onda. Cheguei há pouco aos trinta e ainda não lhes tomei o sabor. Uma coisa é certa, a cera das velas sabe ao mesmo, os olhos continuam a precisar dos mesmos óculos e a escrita parece continuar batida sem artrite. Não creio ter de percorrer as mesmas estradas que todos os outros. Talvez apanhe um atalho, quem sabe. Ainda agora aqui cheguei. O mundo que espere um pouco por mim. 



PedRodrigues

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Desabafo (2)

Tenho a cabeça na almofada, a luz apagada, o silêncio ligado entre a aparelhagem citadina. É a esta hora que os fantasmas acordam, não é? É a esta hora que eles se soltam dos espaços onde se escondiam para nos atormentar, não é? É a esta hora que bate aquela saudade, não é? Deve ser, porque sinto a cabeça a girar. Dever ser, porque o sono não me adormece e teimo em repetir filmes que já estão gastos de tanto uso. Gostava de estalar os dedos e o mundo parar por instantes. Ter um tempo para mim, onde pudesse gritar, espernear, pontapear violentamente o ar e tudo à minha volta, esmurrar a almofada, gritar novamente “estúpido, estúpido, estúpido”, largar a raiva, os medos, as perguntas idiotas “podia ter feito mais?”; “porquê?”; e o medo de mão dada com os fantasmas, porque talvez tivesse sido a minha última hipótese de felicidade, porque não se sabe se será assim para sempre, se temos a tristeza e a desilusão a funcionarem num ciclo, e por mais que transformemos os desgostos e as desilusões em poesia, chega um dia em que nos cansamos, olhamo-nos ao espelho e sentimo-nos gastos, como um fantoche velho, atirado para o chão; e ninguém nunca nos vai querer; ninguém nunca vai quebrar este ciclo e a tristeza continuará a vir sempre depois, a ir e vir, como o inverno, ou outra estação qualquer. E talvez haja beleza no meio da destruição, talvez seja a tristeza um motivo para a construção, a criação de algo belo: a melhor arte nasce dos corações magoados. E, sabes, se não morreste de todas as outras vezes, de todas as outras dores, de todos os outros prantos e lamentos, hoje também não vais morrer. Uma coisa boa da vida é que ela avança. Vai-nos empurrando para a frente. E, quando olhamos para trás, para todas as marcas na estrada que temos percorrido, percebemos que são apenas isso: marcas. Nada mais. A vida avança e ninguém tem o direito de te fazer parar. Ninguém que te faça pensar dessa forma te merece. Não devemos construir a felicidade debaixo de telhados alheios; devemos ser felizes por conta própria. Cada qual com o seu telhado, no seu espaço. Porque quando dependemos de alguém para sermos felizes, algo está mal. E não podemos atirar sempre as culpas para cima do amor. Ele não pode ser sempre o bode expiatório. E talvez não seja assim tão difícil sermos felizes por nossa conta. Talvez a poesia também possa nascer de corações felizes. Talvez a lição número um seja simples, uma fórmula gasta, um cliché, sei lá: ama-te primeiro. E depois: lembra-te da lição número um quando amares alguém. Talvez não valha a pena deixar algo tão importante, como a nossa felicidade, em mãos alheias. E depois? Depois o amor - sim, o amor - há-de efectivamente chegar. Alguém há-de aparecer para te fazer esquecer tudo o que te trouxe até aqui. E na verdade talvez não esqueças, mas deixarás de viver consumido por isso. A vida avança. Deixa-a avançar. Caça os fantasmas todos: guarda-os numa caixa, e atira-a para longe. E sê feliz: é a melhor vingança, o melhor remédio. 


PedRodrigues

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Exame de Optometria

Às vezes, os olhos

não chegam para veres

o que precisas

de ver.

(Fecha-os)



PedRodrigues

Ela (06/02/2017)

Ela tinha esse jeito que te fazia meter em causa tudo aquilo que achavas normal, comum, mundano. Esse jeito que te fazia sentir que amá-la seria o maior erro da tua vida. Há mulheres que parecem esculpidas por uma mão divina, sem falhas, sem um único cabelo fora do lugar; que falam bem, atrás de sorrisos de capa de revista, e poses perfeitas. E depois existe ela. Ela rói as unhas, usa fatos de treino, e cabelo apanhado, não segue o status quo e mete tudo em causa. Consegue aguentar a bebida, e não precisa que lhe paguem seja o que for. Uma maria-rapaz, uma mulher de armas, o que lhe quiserem chamar. Bela, mas não perfeita. Uma fora da lei, sempre contra a corrente. Apaixonada pelo interior das pessoas, pelo intelecto. Esse tipo de beleza que raramente desaparece. Ela tinha esse jeito dela, que te relembrava que a vida é feita de erros e as regras valem a pena ser quebradas. E o incomum, o imperfeito, é o lugar certo onde morar. Ela tinha esse jeito que fazia tudo valer a pena. Ela valia a pena. 


PedRodrigues

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Páginas

O livro aberto numa página aleatória

Riscaste algumas frases, 
como quem marca
o terreno por onde passa
com medo de se perder
e não saber o caminho de volta
Ou talvez fosse apenas um apelo,
um pedido aos meus olhos
“estou aqui, vê se me encontras”
e eu vasculhava com atenção
como um detective privado
em busca da solução de um caso complicado

Entre as folhas o teu cheiro,
algumas lágrimas a esborratarem 
as palavras, e eu sem saber
o teu paradeiro.
Não sou um bom detective, amor
Deixaste-me as pistas,
mas eu não as consegui ler
Se puderes, segue as linhas
que riscaste. 

Prometo-te que ainda não virei a página.


PedRodrigues

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Nem às paredes confesso (?)

Um dia sentas-te para escrever, mas nada parece fluir. Nem o sangue parece querer abandonar o coração; nem a luz do candeeiro parece querer iluminar as folhas amarelas do caderno; nem a música parece querer fazer a mão dançar. E olhas para o imenso vazio da parede à tua frente, como que pedindo algum tipo de ajuda. Ela não te responde porque, ao que parece, as paredes são peritas em guardar segredos. 
A lista de reprodução continua a avançar, e algumas músicas fazem-te recordar outros tempos: a memória é uma coisa danada, e por mais caixas que feches, por mais portas que tranques, há sempre algo que se escapa, algum fragmento que acaba por percorrer todo o teu corpo, e às vezes é chorado, ou gritado para as paredes. 
Do lado de fora a cidade continua a seguir o seu ritmo citadino, com barulhos de ambulâncias, e outras coisas urgentes. As árvores preparam as suas copas para a tempestade. Não a parecem temer. Sabem que têm raízes fundas que as prendem ao chão. E por mais agreste que o Inverno seja, acabarão por florir na Primavera. Talvez seja esta a metáfora que precisava para entender este sorvedouro que trago por dentro. Tenho de aprender a viver na tempestade, como as árvores. Sem medo. Mesmo que o passado. Mesmo que os fantasmas, ou os estilhaços de outros amores. Mesmo que o mundo. E as paredes sabem a área certa do meu sorriso. O segredo é esse: no silêncio, todas as vozes se destacam. 


PedRodrigues

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Ela [2017]

Disse-lhe: “as melhores pessoas são as que falam sem filtros, as que dizem o que pensam, as que gritam as tripas para fora”. São as espontâneas, porque a mentira necessita de tempo. São as que estão partidas por dentro, mas não esperam que alguém as repare. São os relógios que não dão a hora certa - porque não há hora certa para amar; não há hora certa para ser feliz; não há hora certa para fugir, ou chegar. As melhores pessoas são essas: as que não necessitam de reparação, de acertos, de filtros na garganta. São as que não se demoram em explicações ou histórias. São as que não nos pedem para apagar ou esquecer o passado, mas que nos ensinam a aceitá-lo, como parte das nossas fundações. São as que não nos exigem um futuro, por saberem que o depois tem muitas portas - e todos devemos ter o direito de escolher qual queremos abrir. São as que percebem que nem sempre o horizonte é uma linha recta. E que no infinito todas as linhas acabam por se encontrar. São as que se perdem nos nossos olhos, como se contassem constelações e pudessem inventar galáxias. São as que brilham nessas noites longas, que por vezes parecem não terminar. São essas as pessoas que me fascinam. Ela era uma dessas pessoas.


PedRodrigues

domingo, 15 de janeiro de 2017

Cartas ao meu avô


São três meses de ausência.
Às vezes penso que foste apenas fazer uma última viagem de barco, e que, eventualmente, acabarás por voltar para mim, para me apertares a mão com força, e me dares um daqueles abraços de esmagar as costelas. Antes das lágrimas caírem há sempre um sorriso, por imaginar que voltarás com mais histórias daquelas que repetias todos os dias à refeição, ou quando estávamos os dois sozinhos na sala, a ver televisão. Não sei onde estás, porque não têm chegado cartas, mas acredito que seja um sítio muito longe e elas se tenham perdido pelo caminho. Acredito que não te tenhas esquecido de mim, porque os melhores amigos não se esquecem uns dos outros. O amor é um bem imaterial, que não segue as leis da física, e portanto não há espaço, nem tempo que nos desligue um do outro. Assim sendo, eu aguardo o teu regresso com saudade, repetindo-te nas palavras que vou escrevendo para o mundo. E guardando em mim todos os anos em que fomos felizes a ouvir as aventuras um do outro.

Com amor,


O teu pombo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Janeiro

Toca a Intro (Original Mix) dos The XX e o convite é claro: sorri um pouco. Começar costuma ser a tarefa mais ingrata - pelo menos para mim. E daqui a pouco as horas viram dias, e os dias meses, e os meses oceanos - como diria o David Mourão-Ferreira. E quando dermos por nós talvez não haja escapatória possível, talvez nos afoguemos nessa imensidão líquida. Temos aprendido a nadar, como nas aulas de natação da nossa infância. Temos tentado manter a cabeça à tona, com medo que nos falte o ar. Diz-me: tens aproveitado? A pergunta parece tão simples, tão estúpida. Não são essas as mais difíceis de responder? E todos os dias uma vontade à minha volta de regressar ao passado: ao sol, ao calor, aos festivais, às noites de pés no mar, a olhar a imensidão negra, como que esperando por respostas. À minha volta uma necessidade de acelerar o relógio: hoje estou nos vintes, mas adorava já estar nos trintas: quando lá chegar é que estou no ponto. Enquanto isso Roma arde à minha volta. Eu rio-me um pouco. Gosto tanto de rir, por que não gasto mais tempo aqui? E continua à minha volta a contestação: porque hoje está frio, porque os casacos pesam, porque o calor é que é, e todos vivem o Janeiro a chorar pelo Julho e a imaginar os dias de Agosto. Enquanto isso, eu pergunto novamente: tens aproveitado? E entre a pergunta e a resposta o tempo vai passando entre os dedos, como uma areia fina, que teima em não se agarrar. Tudo nos parece escapar. Sonhamos com a liberdade, mas sentimos necessidade de controlar. E choramos os dias que não vivemos como devíamos ter vivido, as viagens que não fizemos, os livros que não lemos, os filmes que não fomos ver ao cinema, os amores que não soubemos guardar. Choramos tudo o que não conseguimos controlar. E na nossa frágil condição, perdemos a oportunidade de perceber que podemos escolher a liberdade, fugir ao status quo. Desligar a televisão, poisar os telemóveis, esquecer os #throwbacks, e aproveitar o sol de Janeiro. Não porque nos faz lembrar Junho, ou Julho, Agosto, mas porque sabe realmente bem o seu calor, independentemente do dia, mês, ou ano. Aproveitar as cores destes dias. Guardar o momento. Porque não há dois minutos iguais, e no final desta música não há replay. 


PedRodrigues