sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Ao meu avô

Faz hoje um ano que te vi pela última vez. Um ano. Depois de teres partido aconteceram muitas coisas, avô. Depois de ti entrei numa casa cujas portas já não chegaste a passar. Acabei um novo  livro cujas palavras nunca chegaste a ler, mas que te dediquei. A escrita é uma forma de te continuar, mas a saudade não cabe inteira nas margens do papel, acaba sempre por transbordar. Agora já não te oiço a leres-me em voz alta as notícias, com o dedo a apontar as palavras com medo que elas escapem. Quando regresso a casa olho para o sofá da sala, agora sempre vazio, esperando que te levantes e me esmagues os ossos com um abraço. O pai ocupou o teu lugar na mesa, ao meu lado. Um ano, meu amigo. Um ano. O tempo tem sido generoso comigo, em parte. As pessoas continuam a achar que os anos não passam por mim. Mas passam, avô. Elas não conseguem ver os vazios que trago por dentro. Acreditas que não faço a barba há mais de um mês? Se aqui estivesses teria de te ouvir dizer que pareço um pilantra, no teu tom bruto. Até disso tenho saudades. O nosso Benfica não anda a jogar nada, mas pode ser que ainda lá vá. Há umas semanas fui ajudar a mãe ao cemitério, a campa ficou bonita, com flores frescas que me faziam lembrar a primavera. Acredito que desse lado as andorinhas te cantem ao ouvido. A mãe está bem, acho que todos os dias fala de ti. É impossível esquecer-te, sabes? Sou-te sincero, não sei o que para aqui escrevi, porque ainda não reli, mas tudo o que queria era transformar estas lágrimas que estou a chorar num texto que não te deixasse partir inteiramente. Entretanto tenho de ir almoçar, para voltar ao livro que estou a escrever. Mais logo vou para o futebol, mas não te preocupes que não me aleijo. A única coisa que me dói de momento é esta puta desta saudade. Vou parar de escrever, por agora.


Espero que seja Primavera onde estás, meu amor.
Do teu pombo,


Pedro

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Cadernos da cidade nova [03/10/2017]

Ia no 756 quando a vi. Sentou-se à minha frente. Enquanto falava ao telemóvel enrolava as pontas dos cabelos, num gesto repetido durante todo o percurso. Trazia uma espécie de camisa enrolada nas mangas, com padrões excêntricos e cores berrantes que contrastavam com o moreno leve na pele, e os olhos escuros. O sorriso foi o que mais me prendeu a ela. Por mais que quisesse não conseguia desviar o olhar. Era um sorriso demasiado livre para pertencer. Tinha o tom pérola que encontramos nas maiores luas de verão. Não sei o que havia para lá daquela imagem: nada lhe disse. Nada a mim chegou, também - a não ser a largura daquele sorriso que ainda guardo comigo. E dei por mim a pensar: será o teu sorriso tão bonito como o teu coração? Quis acreditar que sim. 


PedRodrigues

Cadernos da cidade nova [09/10/2017]

Às vezes fecho os olhos e penso no lugar onde os meus pés estão pousados. Se estiver a ouvir uma música, essa passa a ser a banda sonora desse momento. Nesse lugar, nesse momento, por vezes, a minha vida é toda um sopro, que acontece num fechar de olhos. E dou por mim a arrepender-me das viagens que não fiz, das bocas que não beijei, das danças que neguei, dos amanheceres que perdi, por estar demasiado cansado. Esqueço os momentos em que fui feliz: os gritos de vitória, os sorrisos, os brindes, as fogueiras na praia noite adentro, os países onde me perdi. Tudo isso se aparenta muito pouco, tendo em conta tudo o resto. Sinto-me preso à ideia que por mais momentos felizes que tenhamos, basta um momento de infelicidade para nos sentirmos as pessoas mais azaradas do mundo. E dou por mim a amaldiçoar todas as bocas que teimam em me tentar esmagar, esquecendo de agradecer todos os ombros que na maior parte do tempo me carregam e me aproximam do céu. Somos uns fatalistas do caraças, penso, enquanto dou um murro na mesa e olho novamente para o chão onde os meus pés estão assentes. Se a vida fosse sempre a direito o nosso coração seria um músculo cansado. São os altos e os baixos que o acordam e o fazem bater com força. Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro, disse-o Freud, com toda a razão. Já que não nos foi dada outra matéria durante a criação, usemos o que temos da melhor maneira. Aprendamos a agradecer o chão que vamos pisando, de sorriso no rosto, dando graças a quem nos carrega em ombros e esquecendo quem nos quer a cabeça junto às pedras da calçada. O nosso tempo é demasiado sumptuoso para ser perdido com ninharias. 



PedRodrigues

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Ela



Ela é demasiado teimosa para não ser livre. Podes ver pela forma como ela se mete em bicos dos pés, a dançar de braços abertos, sem se preocupar com as correntes do mundo. Ela sabe que por dentro somos leves como as penas dos pássaros, e podemos ir para lá do horizonte do olhar. Ela é como os primeiros raios de sol das manhãs teimosas que tentas tapar com as mãos e, mesmo que muito tentes, ela acaba por te entrar pelos olhos sem permissão e ficar a morar em ti.  Ela faz tudo menos seguir as regras: é o doce e o amargo que se espalha pela tua boca até se despenhar no teu centro. Ela é o sorriso do começo, a lágrima do fim, a ferida e a cicatriz que te faz meter em causa todos os futuros. Ela é, no fundo, todas as estações no mesmo dia: pode acordar no verão e adormecer no inverno. Como te disse, ela não segue as regras. E tu vais pensar se será uma sorte ou um azar teres alguém assim. Alguém que, como uma montanha-russa, te leva entre a vertigem do incerto, e a certeza do chão que julgas precisar pisar. Mas ela é mesmo assim e vais acabar por aprender que, como ela, diante do precipício não precisas de olhar para baixo. Como ela, deves aprender a confiar. O céu pertence aos que sabem ter asas de voar. Ela sabe-o. E tu?



PedRodrigues

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Último de Setembro

Foi pouco antes da última vez que te vi. Um amigo meu partilhou comigo uma fotografia tua no meu local favorito, a minha praia, onde tantas vezes fui ver o mesmo mar que olhavas, no mesmo sítio em que estavas, para tentar mitigar os efeitos da tua ausência na minha vida. Foi um pouco antes dessa última vez, numa fotografia aleatória, de um momento aleatório da tua vida que partilhei nas minhas redes sociais umas pequenas frases, escritas há uns anos: “lição nº1: ama-te; lição nº2: lembra-te da lição nº1 quando amares alguém”. Parece que a vida me vai dando estas chapadas com as costas da mão para me acordar. Receio não ser fácil viver das ideias que nos são vendidas. Viver da quase utópica crença de um amor e uma cabana, sem os agentes nefastos do mundo a levantarem furacões que tudo transformem em entulho. O que eu sempre quis foi poder pendurar quadros com alguém numa casa, e ficar. Ficar a acrescentar quadros pelas paredes com imagens de uma vida passada lado a lado. Vestir as paredes vazias e construir uma casa, com memórias felizes que nos aqueçam nos invernos em que tudo se torna mais líquido e menos possível - há estações assim. Mas voltemos à última vez que te vi. Os amigos continuam a apontar-me o caminho do que vem depois - sem ti. Dizem que já tens outra pessoa, e que já fazes outra vida, não coincidente com a minha. Não me preocupa isso. Quero que sejas feliz. Claro que preferia que o fosses comigo - mas as coisas são como são, e cada um tem a sua estrada, a sua contramão. Devo continuar a falar de ti, porque os dias que passámos juntos foram, efectivamente, bons, mas usar-te-ei neste momento como um exemplo para explicar ou enquadrar novas situações. É engraçado como o tempo nos ensina efectivamente a entrar nesse jogo do amor próprio: a lição número 1. Devo amar primeiro os olhos, e depois a imagem que eles vêem. Deve ser assim. E tentar evitar o erro da ondas, que repetem o mesmo movimento de autodestruição ao longo da sua vida: erguem-se com força, até se despenharem estrondosamente na areia. Vou apagar a tua imagem, entretanto. Já tenho o dedo no botão de delete


PedRodrigues

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Catarse

Hoje um dos pássaros do meu pai fugiu da gaiola em que esteve preso a vida toda. Voou para a velha nogueira do quintal dos vizinhos; ou seja, não voou para muito longe, apesar das asas e da liberdade que o vento lhe concedeu. Sempre que olho os pássaros do meu pai, lembro-me de uma mítica frase de Jodorowsky: “pássaros presos em gaiolas, acham que voar é uma doença”. A frase repete-se vezes sem conta dentro da minha cabeça, como se fosse uma mensagem subliminar da vida. Hoje é Setembro e, apesar de não me lembrar bem da data (sou péssimo a decorar datas), sei que fazes anos perto destes dias. Sinto-me como o pássaro, ainda preso a estas memórias, apesar da liberdade de seguir em frente, ou da prisão de o fazer sem te ter ao meu lado. Sou um sádico do caraças, penso. E uso um repertório vasto de asneiras e outras coisas menos boas, para dentro, de forma a não gritar e assustar todos em volta. O tempo tem amenizado a tristeza e as noites dormidas começam a ser mais longas e sem sonhos de ti. Mudei os lençóis da cama, quando partiste. Limpei o ralo da banheira que ainda tinha alguns cabelos teus. Meti a roupa na máquina. Guardei o que te pertencia num lugar onde não pudesse esbarrar com as tuas coisas no decorrer dos dias. Nada disso resultou, no início, e entrei numa espiral de depressão - algo muito comum em mim - com alguns textos tristes e imagens daquilo que fomos e que poderíamos ter sido. O tempo seguiu o seu rumo natural. Eu? Mudei de casa. Mudei de cama. Comprei um colchão ergonómico com medidas suficientes para mim e outra pessoa - ainda a pensar em ti. Quem sabe? Decorei a casa com cores que sei também gostarias de ver. Comprei uma televisão maior que aquilo que os meus olhos podem aguentar, talvez para me fazer companhia nos dias em que a depressão ainda bate à porta. Mudei de freguesia e, como a casa é minha, tive também de mudar de cartão de cidadão. A fotografia continua a ser a de um fugitivo de uma prisão Mexicana (lembras-te de quando te mostrei o meu antigo cartão pela primeira vez e gozaste muito comigo?). Talvez tenha fugido dessa prisão, do outro lado do mundo, mas continuo preso nas memórias. Mesmo que as grades comecem a tornar-se cada vez mais turvas e eu consiga escapar. Talvez voar seja mesmo uma doença, penso. Mas logo dou com a palma da mão na cabeça. Por vezes é preciso partir. Deixar para trás o que não nos faz falta. Ir. Levar o passado na bagagem. Não esquecer. Aprender. Há sempre mais lugares que a velha nogueira: mais longe, com outras cores que ainda não descobrimos. Vai. 



PedRodrigues

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Like a rolling stone

Às vezes até tens piada, dizias-me, num sorriso, - talvez o sorriso mais bonito que havia visto até ali - e é assim, acredita, que as coisas começam. De repente, a minha piada e o teu sorriso tornam-se em pilares para algo que vamos erguendo ao longo do tempo e, quando damos por isso, tudo à nossa volta é barulho e nós olhamo-nos em silêncio. Os teus olhos brilham e brilham e brilham como se guardasses toda a luz de todas as estrelas nesse céu de verão. E de repente perdemos noção do tempo, o Agosto já é Setembro, e nós deslizamos pelos meses, de mãos dadas, como miúdos inocentes que não sabem nada a não ser aproveitar os dias. Toda tu és a menina que um dia foste e nunca deixaste de ser (é uma das coisas que mais gosto em ti). Quando te falo ao ouvido e te peço um minuto de atenção para dizer o quanto aprendi a ler no teu corpo, tu respondes Estúpido, porque te sentes envergonhada, e não sabes como reagir. O teu corpo é todo um código de trejeitos que me desafiam todos os dias e por vezes me deixam assim, com vontade de te guardar em palavras. Mas as palavras são poucas para escrever toda a poesia dos teus movimentos, todas histórias que o vento levanta nos teus cabelos. Não sei como ousas guardar em ti tantos universos (eu nunca quis ser astronauta, até te conhecer). E, com o tempo, tornaste-te na trave mestra da casa que construí. Talvez, sem ti, tudo à minha volta desabe. Porque o desamor é mesmo assim: uma bola de demolição a caminho do nosso corpo. Mas não quero pensar nisso agora. Agora a casa está erguida. As paredes estão decoradas de memórias bonitas. As janelas deixam os feixes dourados da primeira luz do dia entrarem até ao teu corpo. Toda tu és minha. Todo eu sou teu. O amor começa assim: num sorriso, num olhar, numa piada. E vai crescendo, ao longo do tempo, como uma bola de neve a rolar montanha abaixo, esperando, no entanto, nunca se despenhar. 

Às vezes invento ter piada, 
só para te ver sorrir, meu amor. 



PedRodrigues 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Nem tu me podes fazer todas as perguntas, nem eu te saberei dar todas as respostas




Não tinha aonde chegar, 
até me aperceber que tinha de partir. 
Partir, como o verbo de ir embora, 
O chão por vezes também desaba. 
Já te despenhaste do alto do amor? 
Já te estilhaçaste em bocados insignificantes que demoram décadas até voltarem ao sítio? Nunca parecemos novamente inteiros, pois não? Parecemos (sempre) inevitavelmente quebrados. 
Depois do amor
o silêncio demora as horas no relógio do telemóvel.
Será que o coração também se cansa de esperar?
Não há lugar que não seja este lugar? 
Não há um botão para retroceder até onde fui feliz? 
Devemos carregar às costas quem de nós desiste?
Quem de nós só queria um minuto?
Tudo o que é novidade, é-o por pouco tempo. 
Já aprendeste a contar até mais tarde?
Nunca acreditei em prazos de validade no que 
toca ao amor. Desconfio de quem conta as horas
pelos dedos das mãos.



PedRodrigues

domingo, 3 de setembro de 2017

Ela

Ela quis da vida todos os dias de sol. Quis na pele o moreno do verão. Quis o cheiro das ondas no cabelo, a areia a passear pelo corpo. Mas o tempo tudo muda. E os dias do calendário começaram a cair, como as primeiras folhas castanhas do outono que chegava. Ainda ela guardava a luz toda por dentro, quando Setembro chegou com as suas chuvas mansas. E todos na rua choravam a mudança, mas ela não. Quando guardamos o sol por dentro, nunca deixará de ser verão.

PedRodrigues

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Spaccio

O amor é um espaço demasiado importante
para preenchermos
com pessoas vazias.

PedRodrigues

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Dissertações, desinteressantes, numa tarde de praia

Na praia, pouco depois de ler, costumo deitar a cabeça sobre o livro. Não sei o que tento alcançar com isso. Talvez acredite poder absorver a beleza das palavras por osmose, ou algo que me valha. Por hábito cubro o rosto com o braço, tentando anular os efeitos da luz nos meus olhos. Gosto de os reservar para a beleza dos dias aqui, na minha casa de água salgada. 
Por vezes, ao ouvir as histórias de quem me rodeia no areal, dou por mim a pensar em assuntos aleatórios, - como agora - sem razão aparente para serem por mim pensados, por não fazerem parte do meu quotidiano, nem dos assuntos dos livros que leio e nos quais repouso a cabeça. Reparo, entrando nessas histórias que não me pertencem, na futilidade em que vivemos imersos. No compêndio de chorrilhos e lugares comuns usados todos os dias, como: o que me interessa na pessoa é a essência. E continuo perplexo a ouvir: mas gosto de um sorriso bonito, e se tiver olhos claros e um corpo de ginásio, melhor. Pasmo-me com a facilidade em tornar a essência numa característica física. A capacidade em transformar o apelativo aos olhos numa incisão na carne em busca da beleza interior. Dizem as mesmas pessoas acabar por cair sempre no mesmo erro: gostar de pessoas que lhes fazem mal. Talvez o interior seja um atributo não trabalhável num ginásio; talvez o carácter,   ao contrário dos olhos, não se possa mascarar com lentes de contacto. Não sou de destruir as opiniões de terceiros (já me basta a forma como mino as minhas, e me condeno por, algumas vezes, pensar como penso. Pensar é um verbo que muitas vezes conduz à depressão.), a liberdade é um direito de todos. - Embora muita gente a apregoe, atirando, no entanto, sobre quem tem opinião diferente. Mas continuo a crer, enquanto tento alhear-me da conversa, que a falha está em repetir o mesmo erro vezes sem conta. E o erro está em tentarmos enganar-nos, acreditando não sucumbirmos à nossa natureza enquanto seres fúteis.



PedRodrigues

sábado, 29 de julho de 2017

Elogio à individualidade

Deixei há algum tempo de seguir os caminhos que outros me apontam. Talvez porque cada mão aponte um caminho diferente - e eu só posso seguir um, de cada vez. Sempre me disseram que é impossível agradar a gregos e troianos: o que sempre tomei como uma verdade fundamental. Se escolho seguir pela direita, dizem-me ser maluco por não ter optado pela esquerda; se é a esquerda que escolho, criticam-me por não ter escolhido a direita; se avanço, devia ter ficado parado; se fico parado, devia ter avançado. Haverá sempre vozes de contestação, qualquer que seja a escolha. E portanto deixei de me preocupar com as opiniões de terceiros, com as vuvuzelas alheias que só servem para diminuir a minha voz. Sou dono das minhas escolhas. Se cair, terei de aprender a levantar-me; se chegar a um beco sem saída, terei de aprender a trepar. A vida será sempre um corredor com várias portas. Cabe a mim - só a mim - escolher a próxima a abrir. Mesmo que as críticas acabem por chegar. Chegarão sempre. Há tantas opiniões quanto cabeças e, portanto, será impossível agradar a todas. No entanto, ninguém cai com as minhas pernas; ninguém sorri com a minha boca. Neste mundo de dedos incriminatórios e vozes derrotistas, sigo o meu caminho assobiando, ouvindo e seguindo a voz que trago por dentro.


PedRodrigues

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Sem título, a caneta

Não tinha onde te escrever, 
a não ser
               nos limites destas páginas
a tinta permanente
A vida é uma máquina de fazer
passados. Avançamos por ela
como pilotos de carros de corrida,
fugindo ao tempo; a vida é mesmo 
assim e ninguém consegue parar
as imagens que se tornam borrões
de luz fina à nossa passagem

Não tinha como travar o avanço
do tempo; a pele estava a desfazer-se
em memórias de antigas carícias 
                                                  de amor
Sei lá eu o infortúnio das primeiras
chuvas; na água tudo se dissolve
até a tua imagem.
Não serei para sempre 
o tempo dos teus beijos

A vida encarregar-se-á de te fazer
passado. Não tenho braços que 
te façam minha para sempre - ou depois.

Serás memória, mesmo antes 
de me aperceber se foste minha
ao mesmo tempo que fui teu
Amor, meu amor.

Escrevi-te a tinta permanente 
só no caso do tempo se esquecer
que tudo o que é eterno 
não tem pressa de ser.



PedRodrigues

domingo, 16 de julho de 2017

Uma canção para um coração partido

Disseste-me adeus diz-se aos mortos, mas que querias que dissesse a não ser um adeus? Não tinha mais que dizer. Não que quisesse matar-te no meu coração, a tiro de revólver. Nada disso. Só queria que deixasses de doer por dentro. Que deixasses de ser essa memória que me atormenta nas noites de insónias. Não tinha mais que dizer. Não tinha como desligar a tua voz na minha cabeça a repetir o meu nome. Porque o pior das tempestades vem depois, quando tudo são destroços e nada parece pertencer ao seu lugar. O depois é incerto, como a letra de uma música que cantamos, sem acertarmos as palavras. Nada pertence. Nada encaixa. Mas acabamos por embalar na melodia e abanar a cabeça, gastando toda essa energia, toda essa força de lágrimas e ais. Não queria dizer-te adeus, mas tive de o fazer. Porque a canção, como tu, também acaba. A canção, como tu, também teve o seu tempo. Não queria matar-te no meu coração, juro. Apenas desligar-te um pouco. Um pouco; um pouco; um pouco. Apagar as tuas fotografias, o teu número de telemóvel, afogar-te em seis copos de um vinho de uma boa casta, uns copos de gim: queria que a tua memória acabasse por ficar dormente. Convidar-te a sair. Adeus, mesmo tendo vontade de dizer um até logo. A minha vontade era essa: soltar um adeus com o som de um até logo. Não sei como podemos amar tanto o que nos destrói. Mas também não me imagino a ser um marinheiro de mares calmos. Sempre me apaixonei pelas tempestades. Mesmo que o depois. Mesmo que depois… E a nossa música continua a tocar. Comigo aqui. Contigo algures pelo mundo. Espero que ainda saibas a letra. Eu continuo a cantá-la e a dançá-la entre os destroços de um coração partido. 


PedRodrigues

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Caprichos do século XXI

Vivemos numa época de caprichos. O que hoje parece eterno, amanhã já está feito em ruínas. Parecemos andar ao sabor do vento, seguindo o caminho que ele decide, sem nos darmos conta dos danos que causamos aos outros. Num mundo cada vez mais preso à imagem, as pessoas começam a perder conta do que cada uma guarda para lá dos rótulos. No outro dia, ouvia uma história de uma rapariga que tinha acabado de ser trocada pelo rapaz com quem namorava. Vivemos numa época de relações fast food. É triste dizê-lo, mas é verdade. Continuamos a buscar a beleza física, os corpos de ginásio, os bronzes de mil dias de verão, os cabelos bem arranjados, e as roupas elegantes: num mundo de fotocópias, não ousamos procurar o original. Vamos na corrente, seguindo o vento, caindo sempre no mesmo erro. Penso ter sido Einstein que disse “loucura é repetir a mesma acção, vezes sem conta, e esperar um resultado diferente”. Vivemos num mundo de loucos, mas não num mundo de loucura saudável: de amor pelas pequenas coisas, pelos pormenores, de amor pela vida, de vício por pessoas extraordinárias. Vivemos num mundo de loucos que cometem repetidamente o mesmo erro, chorando no final porque o desfecho não foi diferente. Vivemos num mundo de caprichos, repito: procuramos o brilho, como os corvos, mas não nos importamos em tentar distinguir se o brilho é de um diamante, ou de um pedaço de vidro. É triste. Preocupamo-nos com a imagem, esquecemos a essência. E consumimos hoje, para metermos de lado amanhã. Já ninguém se apaixona loucamente. Vivemos na era do desinteresse: nada prende. Talvez porque a beleza física seja uma característica fútil: desvanece com o tempo. Não falo do alto de um pedestal, porque a beleza, em qualquer forma me atrai, mas tento escavar até ao osso. Procurar as cidades perdidas que ninguém vê. Tenho o mau costume de me viciar em pessoas incríveis, que me prendam a elas como Saturno prende as suas luas. Isso sim, é bonito: o que não sabemos explicar e que nos prende por dentro, e nos faz pensar dia e noite naquela pessoa. Mais que a simples fachada que não podemos amar de olhos fechados. Num mundo de consumo imediato, e olhos gulosos: pára um pouco, fecha os olhos. Ousa ser original. 


PedRodrigues

terça-feira, 4 de julho de 2017

Janela


É terça-feira, e Julho entrou a correr pela vida adentro, como um convidado que, apesar de esperado, entra pela porta de rompante, deixando a casa em pé de guerra. 
É de noite, e nem os grilos cantam, nem as pessoas conversam na rua. Apenas um avião se sobrepõe ao tecto de minha casa, levando consigo o descanso do silêncio, obrigando-me a olhar para a parede vazia à minha frente. Por mim passa a ideia de te ver à janela, a olhar a rua, perguntando-te por que razão tentamos dar ordem às coisas: sentidos às estradas, nomes aos lugares, coordenadas às estrelas. 
És a coisa mais bonita que já vi, penso. O teu caos ensinou-te a dançar, e tu não te inibiste. Danças sozinha uma música que só tu pareces ouvir e, segundo Nietzsche, talvez todos os outros te julguem maluca. Mas eu não. Eu dou por mim a pensar que talvez seja no teu ouvido que as aves treinam o seu canto. Talvez a tua voz ecoe o som do mar, como um velho búzio deixado a rolar pelas ondas. Os teus olhos lembram-me constelações, cujo nome esqueci porque o espaço é demasiado grande para ser decorado. E é nas ruas do teu corpo que eu procuro me perder, porque não mereces que imponha sentidos, que limite as tuas fronteiras. 
A vida passa por nós como um feixe de luz.
E é por isso que te procuro, pelos dias todos, dos meses todos, de todos os anos da minha vida. Penso em ti sempre que olho este espaço em branco, hipnótico, a pedir que invente frases com o teu nome, que o preencha com as tuas cores. Mas o mar não tem limite, já me diziam antigamente. E tu também não, meu amor. Por isso, onde quer que estejas, acusa-te. É Julho, as ruas estão vazias, o silêncio é teu, a minha janela também. 

Até já, amor
meu amor.


Pedro 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Poesia

E ela tinha poesia na pele, como uma tatuagem que me contava histórias. Não com palavras, com imagens. Tudo me fazia perder nos caminhos do corpo. Nos labirintos que outros julgaram saber percorrer. Durante um tempo tudo isso era meu. Pertencia às minhas mãos, aos meus lábios, à minha língua, aos meus olhos. Tudo isso eu conseguia ver, cheirar, tactear ao de leve, com a inocência de alguém que não sabe aonde irá chegar. A voz dela embalava-me como o som do mar a ecoar dentro de um búzio antigo. Mas não era apenas isso que me prendia a ela. Não era isso que me fazia ficar. Havia algo nos olhos, um brilho estelar, que me fazia sentir único. E o sorriso. O desarme perfeito. Natural. Tudo isso era poesia. Uma bonita poesia. 


PedRodrigues

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Solteirismo

É Junho, estou sozinho em casa a pensar em velhas conversas. Tenho os acordes e a voz melancólica de Cigarettes After Sex a tocarem no computador, enquanto escrevo as palavras à pressa, com medo que me escapem. Quase tudo me relembra outros Junhos, com músicas mais alegres, com mais sol na pele e menos atrás das vidraças. Efectivamente, a vida muda. Nós mudamos com ela e não há como lhe escapar. Mas há coisas que se arrastam, como as pequenas ondas na maré vazia. Cada coração tem o seu ritmo, ao que parece. E o meu tem vindo a debater-se com o passado, sem vontade de dar ao futuro uma face, com nome e apelido. Não sei se por teimosia. Não sei se por medo. Não sei. Sei porém que, de todos os lados me chegam as pressões de avançar, de encontrar a pessoa ideal. Mas eu respondo que não acredito em pessoas ideais; em obrigações sociais de amar alguém para não estar sozinho; em ideias pré-concebidas quando se trata de assuntos do coração. Não sou alheio de imaginar quem corresponda aos limites que invento, mas a vida tem-me ensinado que não vale a pena me prender às amarras impostas. A qualquer momento chega alguém, completamente diferente de tudo aquilo que imaginei e rouba-me o ar, atira-me ao tapete. É como a ideia de gostarmos muito de uma melodia, mas não sabermos a letra: acabamos por cantar palavras que não existem e, no entanto, tudo parece fazer sentido, no fim da canção. Por isso não me condeno por não andar desesperado em busca de um futuro com nome de gente. Eventualmente, acabamos por chegar aos braços certos. 


PedRodrigues

terça-feira, 6 de junho de 2017

Liberdade

“pássaros criados em gaiolas acreditam que voar é uma doença” 
Alejandro Jodorowsky



De que te vale teres olhos
se te obrigam a ver o que querem que vejas?
De que te vale teres boca
se te mandam calar quando tens tanto para dizer?
De que te vale teres ouvidos
se tudo o que ouves são os sons das correntes?
De que vale teres nariz
se o que cheiras são as cinzas da esperança?
De que vale teres mãos
se não és tu que puxas os fios?
De que vale teres pés
se só vais aonde te mandam?

De que vale teres asas,
se estás preso numa gaiola?

Talvez voar não seja uma doença.


PedRodrigues

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Lisboa

A cidade, como uma mulher, veste-se lindíssima com todas as cores. Nada nela parece não pertencer. Como uma mulher mantém-se inabalável, inatingível, mesmo que o tempo, mesmo que depois o tempo; e puxa-me, e absorve-me, e mistura-se nos meus olhos, com a luz do sol e o pó das calçadas. A cidade, como uma mulher, puxa-me para o seu centro, para o seu ponto de equilíbrio, e pede-me que não a deixe cair, que não a deixe perder - sou eu que me perco em todas as tuas ruas, não entendes? Como uma mulher ela pede-me que a abrace e que acabe com todos os limites, todas as nossas fronteiras. Pede-me que a conquiste, mas que não destrua todas as suas arestas. Como uma mulher, a cidade deve ser amada e respeitada. E por dentro dela tudo parece demasiado selvagem para ser apenas meu. Por isso passeio no seu corpo com cautela, esperando que ela nunca se esqueça de mim.


PedRodrigues

segunda-feira, 8 de maio de 2017

O mundo era assim:


julgavam todos
ser a certeza que os ligava
E uns e outros esperavam estar certos 
para alguém
Todos se esqueciam que o tempo é inevitável
e que nenhum carro começou a andar
antes de terem inventado a roda.
Descobriram mais tarde
a dolorosa verdade:
não há dois certos que 
permaneçam juntos 
                            na hora errada.

O timing é uma coisa danada.



PedRodrigues

sábado, 6 de maio de 2017

Ela (Maio)



Espero que entendas que nada do que é tragicamente belo mendiga pela tua atenção. A lua nem sempre está cheia; o mar nem sempre se revolta com a areia; os campos voltam a florir na primavera, para nos lembrarem que o inverno não dura para sempre. Então talvez seja melhor parares um pouco e apreciares as cores da lua; talvez seja melhor mergulhares no mar, em vez  de molhares apenas os pés; talvez seja melhor parares de colher todas as flores que encontras nos campos. Nada do que é tragicamente belo é perfeito. Nada do que é tragicamente belo permanece imutável ao longo do tempo. Tudo o que é tragicamente belo precisa de ser visto, tocado, cheirado, provado, ouvido como uma oportunidade única. Ela é tragicamente bela. 


PedRodrigues

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Depois de Coimbra

Não te vou falar no depois. No final, quando tudo acaba, quando rasgas o traje e também rasgas um pouco de ti, um pouco da pele que um dia foi tua. Não te vou falar das noites em que voltas e recordas todos os risos, todas as aventuras, todas as lágrimas choradas porque algo não correu bem, todos os murros na mesa porque algo tinha de mudar. Não te vou falar da saudade. Que durante anos era apenas canção, uma possibilidade remota que um dia talvez chegasse. Não te vou falar nos copos, nas histórias, noutro lugar, noutro fuso horário, sem o sol de Coimbra a queimar-te os poros da pele, a chamar-te para que olhes com atenção o rio, para que decores os traços das pedras, as esquinas de todas as ruas. Não te vou falar do amor às pessoas com quem partilhaste tudo isto, com quem disseste para a vida, mesmo que a vida vos tenha levado para longe, mas que não esqueces e procuras saber se tudo está bem porque durante algum tempo o mundo foi vosso - e continuará a ser. Não te vou falar em serenatas, em choros de guitarras que te correm pelos olhos como um rio que se perpetua ao longo da saudade. Não te vou falar em metamorfoses, em casulos: de todos os miúdos que acabam por ser homens no final, senhores do depois, meninos do agora. Não te vou falar de nada disso. Porque de tudo isso já escrevi. De tudo isso já sangrei pelos dedos em textos à cidade. Em juras de amor eterno a um espaço, a um lugar que para sempre me pertencerá, por ser de mim o que sou, por ser de mim as palavras, os amores, as mágoas. E cujos pés me trouxeram até onde estou, depois desse adeus. Não te vou falar de nada do que vem depois, por não ter o direito de o fazer. Aproveita o momento. Guarda-o com força. Um dia vais perceber, com quantas letras se escreve a saudade. 


PedRodrigues

terça-feira, 2 de maio de 2017

Maio

Falavas-me em Maio, como quem se demora numa conversa que espera nunca mais acabar. Eu ouvia-te com atenção, porque não conseguia deixar de pensar em como podias dar abrigo no teu peito às andorinhas, às chuvas de Abril que nunca chegaram, a todos os grãos de areia de todas as praias que pisámos. Podias dar abrigo a tudo isso, e tudo isso me parecia demasiado pouco para amar, porque os teus olhos se confundiam com um horizonte que teimo em tentar agarrar. Mas tudo de ti me foge ao controlo e talvez seja essa uma das razões para te amar tanto: essa fúria descontrolada que trazes por dentro, esse mar revolto de Janeiro, que quebra com força na areia e nos obriga a parar e pensar que o mundo talvez seja um lugar perigoso, talvez o  mar seja um lugar perigoso, e no entanto é um lugar que procuramos para que nos dê algum conforto, alguma paz. E é desnecessariamente Maio, com todas as suas cores e toda a sua beleza. A cidade sai à rua e tudo se segue em consequência, porque a vida é mesmo assim. Tenho saudades de te ouvir falar de Maio - e de todos os outros meses. Porque enquanto me falavas eu existia em todo esse tempo, era herói e vilão, fazia parte de todas essas histórias que agora recordo com saudade. E acredito que o teu mar não tenha acalmado, mesmo estando nós próximos do verão. Não acredito que todas as tuas tempestades se tenham transformado em céus azuis. Não acredito. Acredito que continues indomável, meu amor: mesmo que seja Maio, ou outro mês qualquer.



PedRodrigues

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Até amanhã

Durante algum tempo achei que o mundo iria acabar, ou não voltaria a fazer sentido, achei que as noites nunca mais seriam feitas de gargalhadas e conversas até adormecer, ou de filmes e amor. Durante algum tempo não quis saber a que saberiam novos beijos, qual seria o cheiro de novos apegos, novos abraços. Durante algum tempo senti um vazio enorme e nada o parecia preencher: nem a bebida, nem as conversas com os amigos, nem os sorrisos de outras mulheres, nem os vermelhos vibrantes de outros lábios, as conversas sem nexo que nunca levavam a lugar nenhum, porque no fundo ainda estava encalhado na ideia de ti. Mas devagar comecei a perceber: copos partidos não voltam a carregar água - a matar a sede. Nada do que um dia foi, e já não é, voltará a ser. Os teus beijos nunca mais serão os mesmos, o teu riso nunca mais me deixará feliz como dantes, os teus abraços nunca mais voltarão a ser tão apertados. Desatámos o laço que nos unia e, em algum momento, a corda partiu. De maneira que tenho tentado avançar. Com as memórias a pesarem cada vez menos. Ainda me apareces em sonhos; às vezes, em conversa, ainda lembro as nossas façanhas; fomos eternos até ao fim, não fomos? Gosto muito desta frase*: eternos até ao fim. E a vida vai seguindo. Não voltei a ter notícias tuas. As imagens foram sendo cada vez menos, de maneira que não sei se mudaste o corte de cabelo, ou se ainda usas aquelas sapatilhas com cores garridas. Nada sei. Mas isso pouco importa. Tudo pertence ao seu tempo: o nosso ficou onde o deixámos. Eu sigo de mãos dadas com a mudança, temendo, porém, que não haja como voltar a juntar o que parece para sempre quebrado. Mas talvez seja este o dilema de ser de carne e osso: vivemos na ilusão que apenas o amor de alguém nos pode completar. Somos uns parvos. Até amanhã.


PedRodrigues


*a frase original é do JLP

segunda-feira, 17 de abril de 2017

(Para) Ela


Não te vou pedir que me digas a tua cor favorita; que atires as cartas e me expliques os signos; não te vou pedir que me contes todos os lugares onde estiveste no passado -  já todos estivemos em algum lugar, antes de chegarmos aqui. Não te vou pedir que me expliques todas as tatuagens; o que fazes durante o dia, quando nada me dizes e procuro um motivo para que o ecrã do telemóvel se ilumine. Não te vou pedir que decores o comprimento de todos os meus silêncios; que entendas toda a minha confusão. Não vou. Quero ficar a olhar-te e a descobrir o cheiro a sol dos teus cabelos; descobrir, por engano, algum brasil no apertar da tua mão - eventualmente acabamos por chegar, estás a ver? Quero ver-te a adormecer enquanto te leio os textos que mais gosto, os meus segredos mais bem escondidos. Quero ouvir-te a repeti-los com o mar calmo que trazes na tua voz. Ficar a olhar-te, sem ter de me preocupar com as horas - podemos parar o tempo, não podemos? Quero sentir as pregas dos teus lábios, o teu sorriso de menina que acabou de crescer. Há ainda tanto horizonte para descobrir em ti. Há ainda tanto espaço para ser feliz. Vamos ser felizes juntos?


PedRodrigues

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Encontramo-nos onde fores feliz

Não me digas
que queres ter asas
se tens medo de voar

Não me digas 
que queres ter voz
se tens medo que te oiçam

Não me digas
que queres ser diferente
se tens medo da mudança

Não me digas 
que queres chegar
se tens medo de partir

Não me digas
que queres guardar
se tens medo de perder

Diz-me
que apesar do medo
vais voar, vais gritar, vais mudar, vais partir, vais guardar
mesmo que o medo
mesmo com medo
voa, menina
grita, muda, parte, guarda
Não pares.
O tempo não pede licença para avançar
Avança com ele até onde fores feliz.
Diz-me
Tens medo?
Todos temos.

Encontramo-nos lá.



PedRodrigues

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Momento certo

Perguntava-lhe pelo momento certo.
Ela pedia-me que adivinhasse, como quem adivinha o som do mar dentro de búzios antigos. Mas eu nunca acreditei em momentos exactos, com horas exactas. Nunca acreditei haver um momento certo do amor; um momento certo de um beijo; um momento certo para prolongar os meus braços até outro corpo que os receba.
[Ela talvez soubesse]
Sempre acreditei na inevitabilidade das coisas; nos movimentos aleatórios de tudo em minha volta. 
Há partículas condenadas a colidirem. Talvez. Nunca me prendi à linearidade com que se tenta explicar a vida. Os significados inventados para justificar as acções. As abstractas certezas de tudo o que acontece. Nunca acreditei. 
Acredito, porém, nos tons garridos das buganvílias em flor, no despertar azul dos jacarandás, no cheiro doce dos antigos pessegueiros dos quintais da minha infância. Em tudo isso eu acredito: na inevitabilidade das coisas, e no destino que teima em fazer-nos colidir uns nos outros, transformando-nos neste momento: presente, e infinitamente possível. 


PedRodrigues

sábado, 1 de abril de 2017

Abril



O calendário teima em marcar o dia certo.
É desnecessariamente Abril e o sol parece ter perdido toda a vergonha.

Não sei se por desejo, ou necessidade, teimo em inventar vontades 
com nomes e faces
de gente.
A minha vida teima em ser um terminal de aeroporto
onde as pessoas chegam e partem.

Aprendi que não nos devemos prender demasiado a alguém que não sabe onde ficar
- as despedidas são sempre dolorosas.
Mas é inevitável ser quem sou: gosto de abraçar; 
de abrir a porta para que entrem
e se sentem, a conversar.

(Talvez lhes pergunte: “Queres ficar o resto da tua vida?”)

Devo ter um coração demasiado ansioso, com vontade de se entregar
a mãos que nunca aprenderam a segurar
Ainda não aprendi a limpar os estilhaços
das quedas antigas. E é desnecessariamente Abril, no calendário
E gostava de abrigar no peito toda a primavera: o azul do céu; o canto das aves;
o cheiro de todas as flores. Queria que no meu peito fosse sempre primavera, mas

por mais que regue, por mais que o tempo passe, flores de plástico não crescem. 



PedRodrigues

terça-feira, 28 de março de 2017

17:20

Pensou:
“Não há nada pior que alguém que nos mutile.” - não no sentido físico da palavra; não a carne. Não há nada pior que alguém que nos mutile quem somos, a nossa essência, sabes? Alguém que nos faça sentir não pertencermos; não fazermos parte. Alguém que nos obrigue a mudar, ou a ter atenção com o que dizemos, ou pensamos, como se fossem um perigo dispensável. 
Nem sempre encaixamos.
É inevitável cedermos a alguns caprichos quando gostamos, quando temos vontade de ser. Mas nada é tão triste como usar uma máscara; como inventarmos maneiras de encaixar cilindros no espaço de pirâmides. Ou procurarmos maneiras de cortarmos todas as arestas. Não sei se é o pior de todos os males - talvez não seja. Mas é muito mau; demasiado. 
Talvez o meu corpo esteja reservado para um lugar onde pertença. Talvez eu esteja reservado para esse espaço, também. A solidão é um monstro terrível. Deixa-nos assim, com vontade de pertencer cegamente. Com medo de não voltarmos a encontrar espaço entre alguns dedos onde os nossos dedos possam descansar. O desespero leva às maiores loucuras. Uma delas é acharmos que devemos mudar por alguém. Não é solução. Pertencemos ao lugar onde possamos ser inteiros: com todos os nossos defeitos e virtudes. É isso.


PedRodrigues