quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Serenata

Lembro-me da mão do meu padrinho poisada no meu ombro. À minha volta um mar de capas negras. Sentia-me perdido. Naquele momento não entendia nada. Tinha acabado de chegar. Tinha acabado de entrar numa realidade à qual, até ali, não pertencia. Então os primeiros acordes das guitarras fizeram-se sentir. O meu estômago contraiu-se, os meus olhos ganharam vida própria, o meu coração saltou umas quantas batidas. Deixei-me levar pelas vozes que cantavam o teu nome ao vento. Entendi, ali, que há um tempo que ficará comigo para vida, mas que não voltará. Comecei a olhar-te, Coimbra, como mais que uma simples cidade. Havia – aliás, há - algo mais em ti: mistério, aventura, amores, desamores, derrotas, vitórias. Ali, naquele momento, entendi verdadeiramente o que é sentir-te nas veias. És, de facto, mais que uma simples cidade. Agradeço todos os dias os caminhos que me trouxeram até ti. Apesar de todos os passos em falso e das lágrimas choradas, é com enorme alegria que te olho vestida com as cores da lua. Sei que sou apenas mais um dos teus filhos, mas sei, também, que nos amas de igual modo. Hoje receberás mais alguns no teu regaço. Espero que, tal como eu, eles percebam que hoje começa o resto das suas vidas. Recebe-os com carinho. Dá-lhes tempo. Ensina-os. Amadurece-os. Deixa-os viver. Deixa-os sentir. Deixa-os sentir-te. E ao olharem para ti, no momento da partida, eles perceberão: Coimbra não se explica, sente-se.

"Capa negra de saudade
No momento da partida
Segredos desta cidade
Levo comigo p'rá vida"

PedRodrigues



3 comentários:

  1. Tão bom este texto, como todos os outros; mas este, só quem estudou em Coimbra entende com o coração.
    "Quem te não viu anda cego
    quem te não ama não vive"

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  2. Coimbra, minha, não me viste trajar, não deste sequer tempo para que me traçassem a capa. Foste criadora de inúmeros sonhos académicos, quantas vezes sobre o Mondego me imaginei dona de ti, pisar-te envolta na c
    apa negra e ver-te honrar cada passo meu. Ao leve som da tua brisa, fui praxada para que no fim pudesse eu praxar. Trocaram-nos as voltas e quis o destino que eu regressasse à terra de origem que com lágrimas tinha deixado, mas será que já não era evidente a cumplicidade que nutria por ti? Oh, se era... não foi fácil, mas foi maravilhosa! Abraçaste-me nos mais profundos abraços, fizeste-me sentir em casa e soubeste largar-me quando necessário. Já te conhecia o suficiente para saber que em cada esquina escondias segredos dos estudantes que juram nunca te esquecer. Tens um dom próprio, és princesa dos estudantes. És a mãe que nos vê partir e o cais que nos recebe. És no início medo e no fim saudade. :))

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  3. Mais um dos teus textos MAGNIFICOS! Parabens Pedro ;)

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