quinta-feira, 25 de maio de 2017

Lisboa

A cidade, como uma mulher, veste-se lindíssima com todas as cores. Nada nela parece não pertencer. Como uma mulher mantém-se inabalável, inatingível, mesmo que o tempo, mesmo que depois o tempo; e puxa-me, e absorve-me, e mistura-se nos meus olhos, com a luz do sol e o pó das calçadas. A cidade, como uma mulher, puxa-me para o seu centro, para o seu ponto de equilíbrio, e pede-me que não a deixe cair, que não a deixe perder - sou eu que me perco em todas as tuas ruas, não entendes? Como uma mulher ela pede-me que a abrace e que acabe com todos os limites, todas as nossas fronteiras. Pede-me que a conquiste, mas que não destrua todas as suas arestas. Como uma mulher, a cidade deve ser amada e respeitada. E por dentro dela tudo parece demasiado selvagem para ser apenas meu. Por isso passeio no seu corpo com cautela, esperando que ela nunca se esqueça de mim.


PedRodrigues

segunda-feira, 8 de maio de 2017

O mundo era assim:


julgavam todos
ser a certeza que os ligava
E uns e outros esperavam estar certos 
para alguém
Todos se esqueciam que o tempo é inevitável
e que nenhum carro começou a andar
antes de terem inventado a roda.
Descobriram mais tarde
a dolorosa verdade:
não há dois certos que 
permaneçam juntos 
                            na hora errada.

O timing é uma coisa danada.



PedRodrigues

sábado, 6 de maio de 2017

Ela (Maio)



Espero que entendas que nada do que é tragicamente belo mendiga pela tua atenção. A lua nem sempre está cheia; o mar nem sempre se revolta com a areia; os campos voltam a florir na primavera, para nos lembrarem que o inverno não dura para sempre. Então talvez seja melhor parares um pouco e apreciares as cores da lua; talvez seja melhor mergulhares no mar, em vez  de molhares apenas os pés; talvez seja melhor parares de colher todas as flores que encontras nos campos. Nada do que é tragicamente belo é perfeito. Nada do que é tragicamente belo permanece imutável ao longo do tempo. Tudo o que é tragicamente belo precisa de ser visto, tocado, cheirado, provado, ouvido como uma oportunidade única. Ela é tragicamente bela. 


PedRodrigues

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Depois de Coimbra

Não te vou falar no depois. No final, quando tudo acaba, quando rasgas o traje e também rasgas um pouco de ti, um pouco da pele que um dia foi tua. Não te vou falar das noites em que voltas e recordas todos os risos, todas as aventuras, todas as lágrimas choradas porque algo não correu bem, todos os murros na mesa porque algo tinha de mudar. Não te vou falar da saudade. Que durante anos era apenas canção, uma possibilidade remota que um dia talvez chegasse. Não te vou falar nos copos, nas histórias, noutro lugar, noutro fuso horário, sem o sol de Coimbra a queimar-te os poros da pele, a chamar-te para que olhes com atenção o rio, para que decores os traços das pedras, as esquinas de todas as ruas. Não te vou falar do amor às pessoas com quem partilhaste tudo isto, com quem disseste para a vida, mesmo que a vida vos tenha levado para longe, mas que não esqueces e procuras saber se tudo está bem porque durante algum tempo o mundo foi vosso - e continuará a ser. Não te vou falar em serenatas, em choros de guitarras que te correm pelos olhos como um rio que se perpetua ao longo da saudade. Não te vou falar em metamorfoses, em casulos: de todos os miúdos que acabam por ser homens no final, senhores do depois, meninos do agora. Não te vou falar de nada disso. Porque de tudo isso já escrevi. De tudo isso já sangrei pelos dedos em textos à cidade. Em juras de amor eterno a um espaço, a um lugar que para sempre me pertencerá, por ser de mim o que sou, por ser de mim as palavras, os amores, as mágoas. E cujos pés me trouxeram até onde estou, depois desse adeus. Não te vou falar de nada do que vem depois, por não ter o direito de o fazer. Aproveita o momento. Guarda-o com força. Um dia vais perceber, com quantas letras se escreve a saudade. 


PedRodrigues

terça-feira, 2 de maio de 2017

Maio

Falavas-me em Maio, como quem se demora numa conversa que espera nunca mais acabar. Eu ouvia-te com atenção, porque não conseguia deixar de pensar em como podias dar abrigo no teu peito às andorinhas, às chuvas de Abril que nunca chegaram, a todos os grãos de areia de todas as praias que pisámos. Podias dar abrigo a tudo isso, e tudo isso me parecia demasiado pouco para amar, porque os teus olhos se confundiam com um horizonte que teimo em tentar agarrar. Mas tudo de ti me foge ao controlo e talvez seja essa uma das razões para te amar tanto: essa fúria descontrolada que trazes por dentro, esse mar revolto de Janeiro, que quebra com força na areia e nos obriga a parar e pensar que o mundo talvez seja um lugar perigoso, talvez o  mar seja um lugar perigoso, e no entanto é um lugar que procuramos para que nos dê algum conforto, alguma paz. E é desnecessariamente Maio, com todas as suas cores e toda a sua beleza. A cidade sai à rua e tudo se segue em consequência, porque a vida é mesmo assim. Tenho saudades de te ouvir falar de Maio - e de todos os outros meses. Porque enquanto me falavas eu existia em todo esse tempo, era herói e vilão, fazia parte de todas essas histórias que agora recordo com saudade. E acredito que o teu mar não tenha acalmado, mesmo estando nós próximos do verão. Não acredito que todas as tuas tempestades se tenham transformado em céus azuis. Não acredito. Acredito que continues indomável, meu amor: mesmo que seja Maio, ou outro mês qualquer.



PedRodrigues