quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Crónica(?) ao espelho: adeus dois mil e doze, olá dois mil e treze


Onde andaste tu?
Onde andas tu?
Para onde vais?
Qual é o motor que te move?

Falas de tantas coisas. Escreves que te desunhas. Mordes os lábios quando o texto teima em não se formar. Sofres. Sofres tanto.

Que dor é essa?

Acreditas no amor. Acreditas que o amor é a cura para todos os males. Amaste. Amas. Continuarás a amar. Amas mesmo. Amas mais. Lutas até caíres e, quando cais, teimas em levantar-te – sempre. Esmurras o chão, abres o peito, gritas. Gritas até que a voz te falhe, e mesmo sem voz continuas a gritar – mudo. Ouves baladas de amor durante as viagens de carro e de comboio. Olhas pelo vidro e sonhas que o amor é fácil. Iludes-te. É normal. Todos nos iludimos uma vez por outra. Todos sonhamos que os amores nascem nas árvores. Todos sonhamos que podemos plantar o amor, regar o amor, ver o amor crescer. Todos sonhamos - e tu tens tantos sonhos. Sonhas com mulheres. Sonhas com uma mulher no meio de tantas mulheres. Mulheres de lábios vibrantes cor de sangue. Mulheres de olhos hipnotizantes cor de safira. Mulheres de cabelos de seda. Tantas, tão belas.

Onde andaste tu?
Onde andas tu?
Para onde vais?

Procura-te. Encontra-te. Perde-te. Segue de cabeça erguida. Não olhes para trás. O que passou, passou. Segue em frente. Não tenhas medo. Lembra-te: cada queda é uma oportunidade para te levantares. Não tenhas vergonha: todos caímos.

Qual é o motor que te move?

Dá o teu melhor. Dá o teu pior. Dá-te. Ri mais, chora mais, crê mais, ama mais. Sê mais. Deixa que te guiem. Deixa que te digam. Deixa que te oiçam. Permite-te estar no mundo. Sê esse mundo. Sê o mundo de alguém. Permite que alguém seja o teu mundo. Ninguém é especial sozinho – digo-te e repito-te. Somos aquilo que nos permitimos ser. Somos aquilo que nos permitimos ser aos olhos dos outros. Não acredites em olhos que mentem. Não acredites em bocas que falam sem saber. Ouve-te primeiro. Ouve o teu coração primeiro. Nem sempre estamos certos – mas nem sempre estamos errados. Ouve o teu coração. Ouve o coração dos outros. Há tanta coisa que nos escapa. Tantas madrugadas líquidas que se dissipam com as horas. Tantos dias de sol que nos passam despercebidos. Teimamos em deixar a vida passar por nós. Embarca na vida. Não tenhas medo.

Para onde vais?

Vai para onde te leva o amor. Mesmo que esse amor te pareça estranho. Sabes, temos toneladas de amor entre nós. E eu acabo por pensar que o problema é mesmo esse. São estas paredes que construímos com todo esse excesso que acabam por nos separar. O amor é esta coisa estranha. Em demasia pode matar e em escassez pode levar à loucura. Mas, na quantidade certa, é capaz de te fazer mover montanhas. Vai para onde te leva o amor.

Onde andaste tu?

Atravessaste o deserto onde te deixaram. Hoje estás mais maduro. Hoje estás mais feliz. Hoje estás a caminho das estrelas.

Segue em frente. Não olhes para trás.
Permite-te
Dá-te
Transforma-te
E, quando olhares para dentro de ti, serás o melhor que podes ser.
Acredita!

PedRodrigues


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Dez minutos para o fim do mundo


Estavam os dois sentados à beira do precipício e olhavam-se, cúmplices, como se tivessem vivido o suficiente para saberem todos os segredos um do outro. O mundo desmoronava-se a cada minuto que passava. Caía: uma pedra de cada vez, uma montanha de cada vez, uma pessoa de cada vez, um coração de cada vez. Faltavam dez minutos para o fim do mundo. Dez minutos para que tudo terminasse. Uma vida, um amor, uma jornada: em dez minutos tudo isso seria nada e todo esse nada não seria mais que esquecimento. O universo continuaria sem eles. O universo continuaria sem o amor deles. E como podia o universo continuar sem o motor que o movia? Um dia eles julgaram que o amor deles fazia continuar o universo. E talvez fosse realmente o amor deles - e o amor dos corações que amam - que continuava o universo. Naquele momento tudo o que ficou para trás sabia a pouco. Tudo o que fizeram sabia a pouco. Tudo o que ele queria

-Continuar-me

Tudo o que ela queria

-Continuar-me contigo

Tudo isso parecia pouco. Tudo isso era nada – ou viria a ser nada. Ali estavam eles: na beira do mundo, prestes a tornarem-se em esquecimento. Quem se iria lembrar deles? Quem se iria lembrar que um dia o amor deles existiu? Será que as memórias ficam gravadas nas estrelas? Seriam eles as próprias estrelas? Tantas perguntas. Tanta coisa que ficou por saber, por dizer, por descobrir, por inventar. Acabar com o mundo.

-Os amores deviam ser eternos, não deviam?

(Ela a aninhar-se no ombro dele. A sussurrar entre os cabelos.)

-Quem te garante que os amores não são eternos?

Na cabeça dele a pergunta dela não fazia sentido. Ele não acreditava na eternidade. Acreditava que tudo durava até um dia, mas acreditava também que as coisas são feitas da pequena eternidade que duram. Há eternidades nos segundos: o segundo de um beijo é eterno; o segundo de um amor é eterno. Tudo acaba um dia, mas tudo o que vale a pena, tudo o que nos faz realmente felizes, dura o tempo suficiente para nos parecer uma eternidade.

-Eras capaz de morrer por amor?

Ele

-Todos morremos por amor…

Eis a grande verdade do mundo e das coisas que existem no mundo: todos morremos por amor. Há sempre parte de nós que morre por amor - e por vezes essa parte acaba por ser um todo. O mundo rege-se pelas leis deste amor. Do amor que mata, que mutila, que estilhaça. Há corações estilhaçados por amor: mil pedaços perdidos pelo mundo. No segundo em que o mundo acabar, naquele derradeiro segundo, milhares de corações estilhaçados acabarão com ele. Todos morremos por amor. Todos morremos por amor. Todos morremos. Todos amamos. E, talvez por isso, todos tenhamos esta sensação de que somos eternos. Um segundo de amor. Basta um segundo. Somos eternos nesse segundo.

-São dez segundos de queda livre. Dez segundos para morrermos por amor.

Dez segundos separavam-nos da morte que mereciam. O amor deles acabaria ali. Depois do amor deles, acabaria o mundo. Ninguém se lembraria que um dia eles morreram por amor, mas naqueles dez segundos de queda livre, antes dos corpos se despenharem contra as rochas e se estilhaçarem como corações pelo mundo, eles seriam eternos. A memória do amor deles viveria até ao último segundo. Até ao último milésimo de segundo. Depois disso, o negro do universo encarregar-se-ia de os esquecer.

-Quanto tempo dura o amor?

(Ele apertou-lhe a mão com força, antes de se lançarem.)

-Por ti? Uma vida e dez segundos.

Acredito que, se a eternidade existisse, o amor deles seria eterno.

PedRodrigues

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O último capítulo


Devia ter fugido de ti a sete pés quando disseste

-O amor e a felicidade compram-se

Mas naquela altura tudo o que dizias saía de veludo da tua boca e caía gentilmente dentro de mim. Nada me incomodava. Nada me importava. Podiam dizer o que quisessem sobre ti

-É complicada, mimada, bruta…

Podiam dizer o que quisessem. Para mim tu eras aquela que via e mais nenhuma. Eras aquela e só aquela. Eras um quadro que pintava. Um fogo-de-artifício que explodia de cores e me deixava estático a admirar-te. Eras linda, maravilhosa, fantástica, única. Prendias-me a ti de uma forma estranha. Ainda hoje me prendes e talvez por isso te escreva este capítulo final e te prometa que, daqui para a frente, nada: nem um parágrafo, nem uma frase, nem uma palavra. Esgotei o que tinha de mim para esgotar. Conseguiste esgotar-me. Conseguiste prender-me. Conseguiste

-Amo-te

Que dissesse isto. E no dia em que o disse também devia ter fugido de ti a sete pés. Aliás, fugi mesmo. Percorri o Bairro Alto sozinho para te fugir. Olhei duas vezes para trás, ao fazê-lo. Em nenhuma delas apareceste e na minha cabeça tudo estava confuso da bebida e da raiva daquele momento. Sentei-me à espera que passasse um táxi e nesse entretanto chegaste de rosto carregado a olhar para mim e a dar-me a mão. Resisti aos teus encantos e virei-te a cara. Mas como virar a cara a quem amamos secretamente? Como aguentar todo aquele conjunto de forças contraditórias que ditam a passagem desta coisa, a que chamamos de “Felicidade”, por nós? Não aguentamos, a verdade é essa. Assim sendo olhei-te nos olhos e perguntei-te

-O que sabes sobre mim?

Enquanto que tu, – desta vez tu – estática, olhavas para mim. Não estava em pleno domínio de todas as minhas faculdades, mas a verdade é que conseguia notar o espanto na tua expressão. Levantaste as sobrancelhas e fizeste aquela coisa que fazes com os lábios sempre que és apanhada de surpresa. Respondeste como respondem todas as pessoas que são apanhadas numa situação deste género

-Oh Pedro…

Ainda hoje me recordo de como deixaste de me olhar nos olhos e te perdeste a contemplar as pedras da calçada

-Olha para mim e diz-me o que sabes sobre mim

Tu, a medo

-Sei tantas coisas…

No meu âmago sabia que me mentias porque quem sabe não guarda, especialmente naqueles momentos. Sabia que mentias, mas sabia também que gostavas o suficiente de mim para não me deixares partir. Sei que só vieste ao meu encontro porque um dos nossos amigos te disse que eu era capaz de apanhar o primeiro comboio e deixar-te sozinha por Lisboa. Sei que nada disso importa e que logo após toda esta batalha entre amores e desamores acabaste por me jurar amor e eu segui-te os passos. Disse que te amava e não me arrependo de o ter feito. Foste a primeira a quem o disse. Continuarás a ser a primeira até ao resto da minha vida, e talvez por isso sejas aquela que me custará a esquecer - até ao resto da minha vida. Talvez o melhor seja reformular porque na realidade será impossível esquecer-te. Foste, és e serás a primeira. Serás a maior ferida de todas as batalhas. Serás o meu primeiro

-Amo-te

Gostaria de usar a palavra “gastar”, mas não acredito que gastei nada contigo. Foi bom, fomos bons, poderíamos ainda ser bons, neste momento. Não nos tiro o mérito, mas não nos meto num pedestal. Morremos. Morreste-me. Morri-te. Dói-me tanto que não imaginas. Pensar assim dói-me muito. Pior ainda porque continuo sem entender o porquê da nossa morte. Mas o facto é este: morremos. Hoje tens todas as razões para não me falar. Cometi um dos piores erros da minha vida quando me meti onde não era chamado - após a nossa morte. Não te peço que me perdoes por tê-lo feito. A ignorância nestas coisas do amor pode levar qualquer um à loucura. Tu deixaste-me na ignorância e desde o dia em que acabámos que me trataste com indiferença. Não sei se fui assim tão mau para ti, se te terei feito perder mais de um ano comigo, mas acho não ter sido esse o caso. Não entendo o porquê de me empurrares à força para fora. Não entendo o porquê dos meses de silêncio sem fim: aos meus textos, às minhas mensagens – até mesmo à de parabéns. Não entendo o porquê de correres para os braços de outros homens. Não entendo. E talvez por não entender ande aqui todo estilhaçado. Sinto-me feito de pó: o pó que sobrou da nossa luta. Talvez por isso tantas mulheres

-Esquece-a

Ou

-Segue em frente

Ou até

-Eu ajudo-te a esquecê-la

Talvez por isso se entreguem a mim, mas eu não lhes consiga dar nada em troca. Deixaste-me assim: partido, mutilado, só, depressivo. Deixaste-me na merda.
Lembras-te de quando me disseste

-Eu era cínica em relação ao amor, mas tu apareceste e mudaste isso

Às vezes tinhas destas coisas. Quando pensava que eras demasiado fria, quando me perguntava se a nossa relação fazia sentido, tinhas sempre uma maneira especial de me surpreender: desenhavas corações nas paredes, escrevias-me papelinhos com juras de amor, apimentavas as coisas durante o sexo. Surpreendias-me e eu ficava rendido. Sorria. Sorria muito. Era feliz. Era muito feliz. Apesar de tudo, apesar das diferenças, da forma como me tratavas em público, apesar das frases e dos gestos menos felizes: contigo, só contigo, fui feliz. Talvez por isso me custe tanto, hoje, três meses e alguns dias após a última vez que te falei, escrever este último capítulo sobre ti – sobre nós. Custa-me, mas preciso de o fazer. A nossa relação terminou de forma abrupta. Terminou da pior forma possível. E sempre que julgo que estamos enterrados, há um novo capítulo que salta da boca de alguém e me mata mais um bocadinho.
(Há coisas que não te perdoo e a falta de sinceridade é uma delas.)
De maneira que preciso de um final. Um final a sério. Tenho por obrigação enterrar-nos debaixo de sete palmos de entulho amoroso. Tenho por obrigação seguir em frente e ser feliz – sem ti. Vou amar-te até um dia, mas hoje, para meu bem, preciso de escrever o seguinte:

FIM

PedRodrigues

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Montanhas-russas


No outro dia enquanto mudava os lençóis da minha cama lembrei-me de ti. Lembrei-me de ti porque vi um fio dos teus cabelos que teimava em incrustar-se no tecido. Há dois meses que não mudava fosse o que fosse neste quarto. Tinha medo de mudar-te. Tinha medo de mudar-te de lugar. Tinha medo. Mesmo sabendo que já não estás. Mesmo sabendo que já não te importas. Mesmo sabendo que não sei o que é feito de ti. Tinha medo. Mudava os lençóis e o meu coração saltava uma batida. Mudava a mesinha de cabeceira e o meu coração saltava uma batida. Guardava as nossas fotografias e o resto dos destroços da nossa relação e tu teimavas em fazer o meu coração saltar uma batida.
Nesse dia, ao falar com uma amiga, confessava-lhe

-Namorar com ela era como andar numa montanha-russa

De sorriso disfarçado entre as expressões de tristeza e indiferença que todos evidenciamos nestas alturas. Ela olhava-me com ternura e repreensão. Dizia-me

-Não sabes se lhe hás-de fazer o luto, ou correr-lhe novamente para os braços

E na verdade não sabia. Continuo sem saber. Quando julgo que te esqueço, apareces-me à frente e volta tudo à estaca zero. Tens a mania de te deixar ficar no meu peito. Tens a mania de te demorar a sair. Tens a mania de me incomodar. Namorar contigo era como andar numa montanha-russa. Era excitante, eufórico, vertiginoso e apavorante. Não namorar contigo obriga-me a ressacar por ti. De maneira que não sei o que será melhor. Não sei se te faça o luto e te enterre debaixo de sete palmos de entulho amoroso, ou te corra para os braços e te peça permissão para embarcar numa nova viagem. 

-Não sei que fazer. Juro que não sei que fazer…

A minha amiga

-Consegues imaginar uma vida inteira ao lado dela?

Eu, de sobrolho em riste, a pensar nos prós e nos contras da questão

-As montanhas-russas também cansam…

Por muito que quisesse não te conseguia imaginar ao meu lado durante uma vida inteira. Todos precisamos de estabilidade. Um dia a euforia esgota-se, a excitação torna-se em cansaço e a vertigem torna-se demasiado grande para ser suportada. Todos precisamos de um pouco de estabilidade. Todos precisamos de um factor de equilíbrio. É irónico o amor. Nem sempre aquilo que desejamos é aquilo que nos faz bem. Nem sempre aquilo que nos fascina é aquilo que nos faz ficar.

-As montanhas-russas também cansam, e eu estou cansado

O coração é irónico, tem-me dado o cérebro para equilibrar. Não sei se ainda te amo, ou se tenho saudades de te amar.

PedRodrigues

 (Crónica da edição de Dezembro da revista Algarve Mais)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Nem sempre nos amamos ao mesmo tempo


Este sou eu no pináculo do meu masoquismo.
A história é simples: é só mais uma daquelas histórias de amores desencontrados. Nada que fuja ao banal, ao mundano, àquilo que pode acontecer a qualquer um. Às vezes o amor acontece na altura errada. Neste caso aconteceu sempre na altura errada. Às vezes não queremos quando devemos querer, e depois, quando queremos, não podemos ter. Esta é só mais uma dessas histórias.
O nome dela

-Maria João

O meu nome

-Miguel

Quantas vezes os sussurrámos ao ouvido? Quantas vezes nos deixámos ficar empoleirados um no outro? Quantas vezes vimos a lua e as estrelas deitados na areia? Quantas vezes passeámos juntos ao pôr-do-sol? Quantas vezes reinventámos todo o tipo de chavões amorosos? Sinceramente perdi-lhes a conta. Perdi a conta aos telefonemas, aos sorrisos, às coisas banais e às menos banais que dizíamos e que fazíamos. Perdi-lhes a conta porque, para o bem ou para o mal, quando estava com a Maria João o mundo era apenas barulho, nada mais. Tínhamos tudo para dar certo, não fosse a nossa aptidão para a autodestruição. E assim sendo, como terroristas amorosos que somos, acabámos por destruir todas as hipóteses de felicidade que tivemos. Lembro-me de uma vez lhe perguntar

-Gostas de mim?

Olhos nos olhos e de unhas cravadas na carne com medo que me fugisse. Respondeu-me entre os dentes

-Gosto de ti, mas…

Pedi-lhe que repetisse

-Gosto de ti, mas…

Sentia-a a contorcer-se para que a largasse. Às vezes aquilo que julgamos ser nosso foge-nos entre os dedos. Esta foi uma dessas vezes. Correu para longe de mim, sem olhar para trás, sem querer saber do rasto de destruição que tinha deixado. Nada. Seguiu com a vida dela e eu segui com a minha. Conheci outras mulheres, apaixonei-me por uma delas e chegámos mesmo a namorar. Construi uma vida por cima da chaga que a Maria João deixou no meu coração. Na minha cabeça cheguei mesmo a apagá-la, mas o coração rege-se pelas suas próprias leis e nele a Maria João continuava viva. Os dias passaram, os meses passaram, os anos acabaram por passar também. As rugas instalaram-se, a namorada deixou de ser namorada e passou a ser mulher, nasceram os filhos, esses filhos cresceram e no meio de todo este processo a Maria João continuou uma sombra, e apesar de ninguém lhe ligar, ela teimava em perseguir-me para onde quer que fosse. Foi uma sombra e continuou uma sombra até há uns meses quando a encontrei num restaurante durante um jantar de negócios e trocámos contactos. Desde esse dia que ela se tornou novamente num ser material e num compêndio de complicações: divorciada, viciada no jogo e sem filhos. O protótipo perfeito de uma tempestade sem fim à vista, desdenhosa por um pouco do meu afecto

-Gostas de mim, Miguel?

(Eu a contorcer-me)

-Gosto de ti, mas é só isso.

Ela a chorar, a espernear, a berrar. A insultar-me enquanto me esmurrava o peito. Às vezes o amor acontece na altura errada. E esta seria a pior altura para acontecer. Este sou eu no pináculo do meu masoquismo. Um dia eu amei a Maria João e ela fugiu-me. Um dia a Maria João amou-me e eu fugi-lhe. O amor não tem de acontecer sempre que queremos. Há um tempo para tudo. E às vezes os tempos de amar não coincidem. Mas a vida continua.

-Como é suposto viver daqui para a frente, Miguel?

Respondi-lhe

- A ideia é simples: não deixar morrer o que um dia nos deu alento.

Mal sabe ela que tive de a matar mais de mil vezes, para um dia ser feliz.

PedRodrigues

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O dia em que sonhei ser Fernando Pessoa



26 de Novembro de 1930

Olhamos o sol com medo que nos cegue. Encaramos a vida como devemos encarar: vivendo. O mundo estende-se à nossa volta: infinito e incerto. O sol deita-se na nossa pele e na pele do mundo. Encaramos a vida com medo que um dia ela decida morrer. Tudo o que se estende à nossa volta é infinito e incerto. Nós somos pequenos no mundo. Eu sou pequeno no mundo. Eu sou pequeno para o sol que se deita na minha pele. Sou feito da matéria dos homens, mas não sou como os homens. Sou uma miragem, um reflexo, um desassossego. O mundo estende-se à minha volta e eu sou um fantasma que teima em não existir no mundo. As pessoas esquecem-me para lá das palavras que deixo no papel. Ninguém sabe onde começa o homem e acabam as palavras, ou onde começam as palavras e acaba o homem. Confundem-me com as minhas personagens, com as minhas fotografias, com os meus desenhos. Se um dia quiserem definir-me, definam-me como aquele que gera a confusão. Definam-me como a própria confusão. O Fernando que dá a mão à caneta não é o mesmo que o vidro reflecte. É aquele que dá chão ao sol, mas não aquele que o sol procura. Um dia entenderão estas palavras como as palavras daquele que escrevia para existir. Que a verdade continua a ser esta: eu existo nas palavras que escrevo e para lá dessas palavras sou apenas uma miragem.
Compreendam-me como um ser perturbado, mas nunca louco. A loucura está naqueles que teimam em querer compreender-me. Trancaram-me neste quarto para me apodrecerem a carne. Trancaram-me sozinho, mas esquecem-se que eu nunca ando sozinho. Eu sou aquele que vive estilhaçado pelo tempo. Tenho identidades desconhecidas. Tenho vidas que se multiplicam para lá da própria vida. Sou feito dos deuses que invento e dos homens que me falam baixinho, ao ouvido. Sou um projecto de projectos futuros que, por mais que vocês tentem, nunca irão entender. Nesta escrivaninha coçada pelas unhas dos meus antecessores escrevo-vos o que me permito escrever. Sou o mar que se estende da minha janela e que reflecte o esplendor da vida lá fora. A vida despenha-se na areia com as ondas. Tal como os homens teimam em se despenhar uns nos outros e esquecer os sonhos. Se pudesse inventar um mundo – e posso – inventava-o com homens eternos. Homens que se estendem para lá das ondas e do mar. E onde os sonhos comandam a vida e os homens não têm medo de sonhar.

Fernando



(PedRodrigues)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Amar em tempo de crise


O dia em que parti foi um dos dias mais difíceis da minha vida. Ainda te consigo ouvir

-Não vás

A soluçar entre as lágrimas enquanto me vias entrar no táxi. Se imaginar com muita força, ainda consigo sentir o calor da tua pele, ou o cheiro do teu colarinho. Deixar-te para trás foi a decisão mais difícil que tive de tomar, mas era a única decisão possível. Conhecemo-nos num tempo em que tudo era mais fácil. Foram três anos de bonança. Três anos de despreocupação. Existias tu, os livros, as bebedeiras, os amigos, as viagens. Nada nos faltava e tudo nos era dado de mão beijada. Dividíamos o tempo entre sorrisos, carícias, a Torre Eiffel, o Big Ben, o Coliseu de Roma, uma ou outra discussão, fotografias e mais fotografias e nessas fotografias mais sorrisos e mais carícias. A vida parecia tão simples naquele tempo.
Quando terminámos o curso, ambos achávamos ter destruído um monstro. Terminámos de sorriso no rosto e sensação de dever cumprido. Dali para a frente seria sempre a subir: eu iria começar por baixo numa empresa, mas em poucos anos chegaria ao topo; tu abririas o teu próprio consultório e atenderias centenas de pessoas por ano. Naquele tempo o céu era o limite. Lançámo-nos aos lobos, entrevista atrás de entrevista, mas as coisas teimavam em não acontecer. Nunca desesperámos

-Pensamento positivo

Nunca baixámos os braços. Na televisão os governantes mandavam-nos emigrar, mas nós nunca o faríamos. Deixar para trás tudo aquilo que conhecemos? Depois havia a questão dos teus pais

-A minha menina

Que se contorciam só de nos ouvir falar em ir trabalhar para fora. A tua mãe que entretanto tinha descoberto aquele caroço num seio. Toda uma panóplia situações que nos prendiam às nossas raízes. Deixar para trás o meu país? Deixar para trás aqueles que amo?

-Nunca

Continuámos juntos no meio de toda aquela tempestade. Creio que se não fosses tu, teria saltado na primeira oportunidade. Mas amava-te, como ainda hoje te amo. E é difícil. Aliás, é cruel abandonar quem se ama. Dói, dói muito. Não imaginas como me sinto de cada vez que vejo as nossas fotografias – juntos e felizes -  ou de cada vez que falo contigo por telefone. Sinto aquela parte de mim, que outrora trazia todos os sonhos do mundo na algibeira, a morrer. Sinto-me a forçar os sorrisos e não imaginas o esforço que faço para manter a calma e não me desfazer em prantos desmedidos. Amar em tempo de crise é algo que roça o sadismo. Um dia sonhei casar contigo, mas um dia esse sonho foi-me roubado. Quem foram os sacanas que nos condenaram a este destino? Quem foram os crápulas que nos pisaram os sonhos? Um dia julgámos que a vida era a direito. Hoje podemos ver que não é. No entanto uma coisa te garanto:

-Não desisto

Não desisto de nós. Não desisto dos nossos sonhos. Enquanto tiver saúde e enquanto tiver trabalho

-Não desisto

Espero que desse lado do oceano faças o mesmo. Não baixes os braços, levanta a cabeça. Daqui a uns meses voltaremos a estar juntos. Quem sabe se daqui a uns anos não chegaremos mesmo a casar? O mundo está em crise é um facto. A vida está difícil é um facto. Mas quem ama na tempestade, não esquece na bonança. Não desistas de ser feliz.

PedRodrigues

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ensaio sobre o absurdo


A única luta que trago, a única luta que me permito és tu. O meu quarto ainda tem os contornos do teu corpo nas paredes. Eu sei: parece absurdo. Como poderia a carne moldar o betão duro? Não me perguntes os enigmas da vontade. Não me perguntes os porquês das coisas que não têm explicação. Aceita-as por serem como são e não por aquilo que supostamente deviam ser. A vida é feita de vontades. A minha vontade é feita de vontades. Quase consigo respirar-te. Será que és feita de ar? Em toda a parte as tuas cores são cores de sítio nenhum. Não és, mas aparentas ser, e isso é tão bom. O mundo é este sítio tão louco, é este sítio tão estranho. Se me perguntassem diria que estamos a sul do paraíso e a norte do inferno. Estamos ali no meio a viver no purgatório. Vamos pagando pelos nossos pecados à medida que os cometemos. Se me perguntassem diria que vivemos para pecar todos os dias. Há tanto amor vadio por aí e tanta gente desesperada por algum amor. Tanta gente a morrer por um pingo de amor e tanta gente a matar-se por amar demasiado. Há demasiadas Julietas e outros tantos Romeus que, algures a meio da peça, decidiram emigrar com a jeitosa que lhes piscava o olho da plateia. O mundo é um sítio demasiado estranho. Às vezes contemplamos o céu na esperança de um milagre, o mais triste é que acabamos por ignorar os milagres que nos rodeiam aqui por baixo. Pecamos por ignorar o que nos rodeia e o pior é que o inferno está mesmo aí à porta. O diabo puxa-nos as pernas a cada segundo que nos distraímos. Se me perguntassem pelos Romeus diria que foram puxados para sul pelo diabo. Os homens foram feitos para viverem depressa. A vida de um homem é um segundo na vida de Deus. Mas não é de Deus e dos homens que te falo, pois não? Falo-te da minha luta: a única que trago e a única que me permito. És a minha luta, sabias? Eu sei que parece absurdo, mas nós que vivemos neste purgatório, neste limbo entre o céu e o inferno, temos a mania de contrariar a vontade de Deus e dos anjos e do diabo. A vontade dos homens é viverem eternos. A vontade dos homens é escaparem à luta dos gigantes. O céu não chora quando um homem morre. O céu não ama os homens. O céu é um gigante azul que olha de cima para nós. O meu sonho é ser para sempre olhado de cima pelo céu. É por isso que luto. Tu és a minha luta, lembras-te? Amar-te é ser feito de ar, e o ar não se esgota. O ar é eterno, não é? Espero que sim. Talvez a minha luta se confunda com a luta dos homens. A única diferença é que eles vivem demasiado depressa para serem eternos enquanto que eu já sou eterno no teu amor.

PedRodrigues

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Croniquinha em jeito de poema


À luz dos dias que acontecem, vou-me misturando de cores nos teus olhos. Esses teus olhos que hoje são avelã e amanhã esmeralda. Espero ansioso pela luz dos dias que acontecem. Acontecer nos teus olhos é ser melhor. Acontecer nos teus olhos é multiplicar-me por mil em ti. Ao longe caminhas na direcção dos meus passos. Ao longe o teu perfume dissipa-se no ar. É estranho olhar o mundo espelhado em ti. Às vezes sonho que o mundo desaparece. No final das contas resta a minha imagem nos teus olhos. Nesse momento existimos os dois, nada mais. Já reparaste que, quando não estás, perco eternidades a olhar o relógio? Não reparaste. Como poderias reparar? Não poderias. Acreditas em mim? Acreditas. Eu sei que acreditas. Os meus olhos nos teus olhos não mentem. As minhas mãos nas tuas mãos não mentem. Prometemos não mentir um ao outro e isso fica registado no sangue. Prometemos o mundo um ao outro e isso não é algo que se faça de ânimo leve. Há promessas que merecem ser cumpridas. Há metas que merecem ser alcançadas. Misturar-me na cor dos teus olhos é sentir-me vivo. Encontrar-me nos labirintos da tua pele é ser mais e melhor. Olhar-te ao longe sem poder-te tocar é matar-me lentamente. Já reparaste que, quando não estás, o relógio teima em parar o tempo? Reparaste. Eu sei que reparaste. Consigo ver nos teus olhos a impaciência disfarçada. Consigo ver no teu corpo a vontade urgente de me abraçar. À luz dos dias que acontecem, talvez chegues devagar. Ao longe vejo-te caminhar na minha direcção. Não tenhas pressa de chegar, o amor não tem cronómetro.

PedRodrigues

sábado, 3 de novembro de 2012

Acerca da banalização do Amor


No outro dia na rua

-Eu gosto de ti, mas…

Um casal de miúdos, de mãos dadas, ele para ela

-Gosto de ti, mas não passa disso.

Enquanto ela, desgostosa, de lágrima fácil a pingar do olho, a fugir-lhe com os dedos

-Então por que me iludiste?

E eis que a questão se mantém até hoje na minha cabeça: onde começa e onde acaba essa coisa do gostar com reticências? Depois há aquela coisa do gostar com muitas cores. Dos amores às cavalitas dos arco-íris. Há a ilusão do amor e os ilusionistas do amor. Hoje em dia está na moda o amor assim e assim. Nunca entendi muito bem essa coisa dos amores assim e assim. Nunca entendi aquela coisa do: hoje gosto, mas amanhã logo se vê. Não consigo entender isso porque, para o bem ou para o mal, tenho para mim que o amor é uma espécie de veneno que talvez cure, é uma faca que nos vai mutilando lentamente, ou outra coisa qualquer que nos vai dilacerando as entranhas. Custa-me acreditar nas pessoas que gostam com reticências e que amam com cláusulas contratuais. Custa-me assistir ao declínio do Amor. À banalização dos beijos e à encenação dos gestos românticos – ou vice-versa. De maneira que olho o mundo com uma desconfiança terrível. Assusto-me quando ouço

-Sinto borboletas no estômago

Pessoas de sorrisos nos lábios a trocarem impressões sobre o amor: cheias de certezas e cobertas de dúvidas camufladas. Penso para mim

-Borboletas?

(As imagens de quem amo na minha cabeça.)

Assusto-me novamente. Assusto-me porque nunca senti nada parecido. Todos me falam em unicórnios e estrelas e corações vermelhos e perfeitos. Todos me falam em borboletas, mas eu não sei o que isso é. Eu sinto cólicas, dores, tremores por todo o corpo. E depois há um frio que me gela dos pés à cabeça. Fico estático a olhar para ela. É estranho. Juro que é estranho. Há quem pinte quadros em volta do amor. Eu não encontro cores suficientes para o fazer. Talvez possa descrever o meu coração. Talvez possa dizer que é vermelho carne e que sangra como a carne de quem sente. O amor dói, o verdadeiro amor dói. Mas é essa dor que o torna tão bom. É essa dor que o torna tão intenso. Aliás, é essa dor que o torna real. É essa dor e não

-Sinto borboletas

Os cenários que montam em volta da palavra. É o sentir na carne que se esmaga contra os ossos só de pensar em dizer

-Amo-te

Nunca

-Gosto de ti, mas…

Sentir sem reticências. Olhar e tremer. Tremer muito. Ansiar pelos momentos que virão. Imaginar as estantes cobertas de fotografias. Imaginar-nos a olhar para essas fotografias e sorrir. É nesse momento em que sorrimos sem saber porquê, nesse momento de alegria pura, que descobrimos

-Sou feliz

(E quem nos ama de volta, num princípio de vasos comunicantes, nos retribui esse sorriso

-Eu também sou feliz. Ao teu lado eu também sou feliz.)

O que é o Amor. Não há cores suficientes para pintar o amor. Não há fórmulas mágicas para amar. Mas se te conseguires imaginar emoldurado, a sorrir eternamente ao lado da mesma pessoa, podes acreditar que estás no bom caminho…

PedRodrigues

sábado, 27 de outubro de 2012

O que vou sabendo sobre as mulheres...


São as mais fantásticas criaturas do universo e nós temos a sorte de partilhar o mesmo espaço que elas. No entanto…
São umas chatas do pior e não nos deixam ver o futebol em paz. São bipolares como o caraças e nunca estão satisfeitas com nada. São mestres do disfarce: têm sempre uma máscara para quem não gostam. Têm opinião sobre tudo, mesmo quando não entendem nada do assunto. Conseguem engordar-nos de mimos ao jantar e matar-nos de problemas ao deitar – ou vice-versa. São estranhas, problemáticas, caóticas. Metem o dedo na ferida como ninguém, e se possível vão até ao osso. Têm prazer em ver-nos sofrer quando estamos doentes, ou quando teimam em nos espremer as borbulhas e os pontos negros

-Tem calma, está quase

(De sorriso sádico na cara)

- Não sejas maricas

Enquanto nós, por outro lado, nos vamos contorcendo no meio de toda aquela carnificina. Para elas somos uns piegas, uns meninos da mamã, uns mariquinhas pé de salsa. Somos um compêndio de defeitos e coisas más. Nunca estamos bem, mesmo quando estamos bem. Nunca estamos no sítio certo, mesmo quando estamos no sítio certo. Não as compreendemos, nem temos um pingo de compaixão por elas. Não lhes distinguimos o

-Não…

Quando o

-Não…

Quer dizer

-Sim!

Trocam-nos as voltas com uma facilidade sobrenatural. Acabam onde começam e começam onde acabam. Amam-nos quando somos bons e não deixam de nos amar quando somos maus. Choram de alegria e sorriem de tristeza. São estranhas. Tanto nos esmurram o peito, como se aninham no nosso ombro. Olham-nos com vontades homicidas quando nos enganamos em coisas triviais. Mutilam-nos mentalmente quando nos esquecemos de coisas banais. Para nossa sorte gostam de artigos defeituosos. Queixam-se que se danam. Berram, insultam, esbofeteiam, esperneiam. Caminham sempre no limbo entre a bonança e a tempestade. São perfeitas nos defeitos e nós pecamos por não lhes dizer que o são. Trabalham numa frequência diferente da nossa, mas procuram sempre a sintonia. Esbofeteiam, esperneiam, berram e insultam. Felizmente para nós acreditam em histórias de princesas. Infelizmente para elas, nem todos os sapos escondem um príncipe. Inventaram aquele momento em que os olhares se misturam e os lábios tremelicam, aquele momento em que no meio de beijos e abraços, faça chuva ou faça sol, solta-se um

-Amo-te

Abafado entre lágrimas e sorrisos e um silêncio apavorante.

(Na expectativa de um

-Eu também te amo)

Inventaram os amores de cinema, de telenovela e da vida real. Inventaram o amor, ou o amor foi inventado a partir delas. Felizmente para nós, gostam de artigos defeituosos. Talvez por isso se diga que todos os cães têm sorte.

PedRodrigues


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Carta de agradecimento à família TEDxCoimbra 2012


Tive o prazer de, no dia vinte deste mês, participar no TEDxCoimbra. Vou-vos ser sincero: no momento em que recebi o convite da Ana, fiquei um pouco espantado. Li a mensagem duas ou três vezes até ter a certeza que todas as letras estavam no lugar e nada tinha aparecido do ar. Respirei fundo e sorri. Respirei novamente e o sorriso não desapareceu. Liguei de imediato à minha namorada – agora ex-namorada - e contei-lhe a novidade. Sentia-me a explodir de alegria e o meu corpo era a prova viva disso. Respondi à mensagem um pouco relutante. Pensava para mim: “será que eles têm noção que eu tremo só de ouvir a palavra “palco”?”. No entanto, o desafio era demasiado grande, demasiado desafiante e demasiado bom para ser recusado. Propus-me a subir a um palco e falar  para duzentas pessoas sobre aquilo que trazia cá dentro.
Nos meses que antecederam o grande dia, dei por mim a imaginar-me a falar para multidões. A inventar cenários desastrosos – uns mais que outros. Como descalçar esta bota? Como pegar numa plateia de pessoas cultas e levá-la ao êxtase? Tudo se tornou ainda mais apavorante quando recebi a lista de oradores que iriam falar no evento. Os nomes eram enormes e eu era tão pequeno no meio deles. Engoli em seco e comecei a minha jornada de preparação mental. Falei com os meus pais sobre o assunto e recebi deles a primeira injeção de confiança. É incrível como os pais nos conseguem projetar a quilómetros daquilo que imaginamos ser. Decidi descansar um pouco da ansiedade e deixei-me ficar abrigado num nirvana onde o TEDx era apenas uma miragem.
Os dias passaram a correr até ao mês de Outubro. Durante esse período recebi todo o apoio e confiança por parte da Ana e do Frederico. Foi incrível sentir como aquelas pessoas, que até ao momento eram-me completamente desconhecidas, e com as quais não tinha tido qualquer contacto físico, depositavam tanta esperança em mim. Não sei como faziam, mas à maneira deles lá iam matando as inseguranças que me atormentavam.
No dia dezanove – algumas horas antes do grande momento – tive a felicidade de conhecer o resto da família TEDxCoimbra. E é esta a palavra certa para os descrever: família. No seio daquele conjunto de pessoas há amor e carinho e um enorme respeito que não passa despercebido a quem tem o prazer de os conhecer. Ali há entrega e paixão: desde o elemento mais novo – o pequeno Tomás – ao elemento mais velho. Todos trabalham pelo objetivo comum: criar um evento sem barreiras físicas ou sociais. Todos trabalham com um altruísmo imensurável. Desde o primeiro contacto que tive com todos eles que me senti parte daquela família. E quem não gostaria de se sentir parte de algo tão especial?
Nos momentos que antecederam a minha subida ao palco vi nos olhos de todos eles a esperança que haviam, meses antes, depositado em mim. Estava desfeito em nervos. O meu corpo latejava de ansiedade e assim ficou até pisar o último degrau que me levou ao sítio onde falaria. Quando olhei a plateia a minha cabeça voltou a funcionar. Deixei-me naquele sítio. Deixei-me inteiro naquele sítio. Tinha decidido subir sem qualquer apoio. Ser o mais genuíno possível, pois esse é o mote com que vivo e escrevo. Esse era o mote da minha TED Talk. Talvez esse acto ingénuo de subir ao palco – diga-se que pela primeira vez na minha vida – desarmado e sem qualquer tipo de preparação, acabou por ditar o final prematuro da minha apresentação. Mas, naqueles escassos minutos, bombardeei o público com as emoções que guardava dentro de mim. Não tive medo de partilhar tudo o que tinha cá dentro. Acho que, nesse aspecto, ninguém me pode condenar.
Ao descer as escadas e ser abraçado pelo meu pai – que me olhava orgulhoso - ouvi da boca de alguns dos oradores, e outros membros da família, palavras de carinho e de congratulação pela minha prestação em palco. Desde então que os elogios têm vindo a multiplicar-se. Hoje sinto-me um bocadinho maior que há uns meses atrás – não muito, mas um bocadinho – e por isso tenho-vos a agradecer uma vez mais.
Sei que este texto não dirá nada a metade do público que o ler, mas é o agradecimento que precisava de fazer. Um dia fui acolhido por uma família adoptiva. Nesse dia o meu pai esteve lá e constatou esse mesmo facto. Também ele me pede para vos agradecer. Obrigado à família TEDxCoimbra: organização, oradores e performers (não meterei nomes, pois corro o risco de me esquecer de alguém.). Obrigado ao público presente. E como vos disse naquele dia tão especial: “Não tenham medo de ser felizes. Encontramo-nos por aí…”

PedRodrigues

domingo, 21 de outubro de 2012

A janela


Sabes aquele arrepio no estômago de cada vez que passas à janela dela? Ainda não desapareceu.
Hoje ainda me sinto feito de vento de cada vez que lá passo. Torturo-me, arrelio-me, combato-me, mas a verdade é que continuas-me na carne. Quando vais embora?
Não vale a pena fechares a janela. Não vale a pena. Sempre que passo à tua janela, vejo-te acenar. Vejo o meu coração na tua mão: a acenar-me. Amo-te, mas não quero amar-te. Vejo-te, mas não quero ver-te. Os meus tendões contraem-se uns contra os outros de forma caótica. A minha carne – tu – esmaga-se contra os meus ossos. Dóis.  Hoje dóis muito.  E vão passar meses e anos e tu continuarás a doer. Ninguém desaparece do corpo de ninguém. Ninguém se apaga do coração de ninguém. Vivemos marcados pelos estigmas do nosso coração. Eu e tu, tu e eu. Ontem perguntaram-me se era capaz de voltar para ti. Respondi

-Claro que não!

Com toda a convicção do mundo. É estranha esta forma que temos de mentir aos outros quando falamos dos dilemas do coração. É estranha a forma como nos mentimos sempre que o assunto são os dilemas do coração. A verdade é que quero seguir em frente. A verdade é que seguindo em frente tu não estarás. Hoje não estás; amanhã não estarás; depois de amanhã não estarás. A tua janela continua no mesmo sítio, mas tu não. O meu coração continua no mesmo sítio, mas tu não. Se hoje me perguntassem

-Voltavas para ela?

Diria

-Claro que não!

Na esperança que os meus amigos, de palmada nas costas, me reconfortassem com um

-Ela não te merece…

E na minha cabeça tu não me mereces. Na minha cabeça eu finjo que nunca me mereceste. Mas há alturas em que o coração fala tão alto que não conseguimos ouvir nada, nem ninguém. Nessas alturas lembro-me da primeira vez que usei a expressão

-Amo-te

Com todas as letras e sem lapsos. Nesse momento amava-te. Apesar de tudo, ainda te amo. Amo-te porque fazes parte dos estigmas do meu coração. Mas vais desaparecendo lentamente. Eu vou seguindo em frente com a corrente. E a corrente traz sempre coisas belas consigo. Quem me garante que a minha felicidade não está à distância de uma palavra, ou de um olhar indiscreto? Quem me garante que a minha felicidade não me sorriu por aí?
Não sei se me estás a ler, mas… Sabes aquele sorvedouro no peito e aquele arrepio na pele? És tu.

Hoje ainda te amo. Amanhã não sei.

PedRodrigues

(Texto parcialmente escrito durante o TEDxCoimbra)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A síndrome de Peter Pan


Um dia crescemos. Um dia esquecemo-nos dos arco-íris e dos foguetões e das estrelas e dos desenhos-animados que passavam na manhã de Sábado. Guardámos tudo num baú e seguimos em frente com a nossa vida. De repente apareceram as miúdas: o primeiro beijo, as primeiras gargalhadas, as primeiras carícias. Depois as miúdas cresceram e tornaram-se raparigas: vieram os primeiros dramas, os primeiros desgostos, as primeiras vontades suicidas e homicidas que julgamos fazer em nome do amor. Nessa altura julgávamos já ter visto tudo, já ter sentido tudo, já estarmos acima de todas as coisas do passado. O amor não tinha segredos para nós. Amar era tão simples como respirar. Nesses dias o amor passeava-se pelas pedras da calçada: em cada olhar indiscreto, ou em cada saia subida. Os primeiros decotes faziam tanto sentido como o amor. Amávamos como amávamos aqueles decotes. As raparigas eram tão simples, mas tão psicóticas: queriam o amor, mas não queriam os rapazes. Naquele tempo, em que para nós o amor era tão simples, amar no sentido feminino da expressão tornava-se na mais terrível das dores de cabeça. As raparigas não queriam os rapazes. As raparigas sonhavam que os rapazes fossem homens. Enquanto que nós, o lado masculino da coisa, sonhávamos ser os mesmos meninos, reformulo: os mesmos miúdos dos primeiros beijos, ou até do Sábado de manhã no sofá, em frente ao ecrã da televisão. Custa-nos crescer, mas lá vamos crescendo e metendo tudo no mesmo baú. Acabamos por esquecer as miúdas e as raparigas e chegamos à conclusão que precisamos de uma mulher. Por vezes demoramos eternidades, mas ninguém nos pode condenar. Somos bichos teimosos; somos bichos cegos; somos bichos lentos. Sofremos da síndrome dos meninos perdidos da terra do nunca. Mas acreditem em mim quando vos digo que acabamos por crescer. Um dia todos nós precisamos de entender o amor. Um dia todos nós precisamos de uma mulher que nos ensine o que é o amor. As miúdas e as meninas e as raparigas acabam por um dia ficar no baú. É impossível doirar a pílula para sempre. Os primeiros amores são algumas das mais bonitas recordações que guardamos, mas nada chega aos calcanhares de um grande amor. Nada chega aos calcanhares do amor que é para a vida: na saúde e na doença, até ao final. Alguns de nós demoram eternidades a entender isto, mas não nos levem a mal. A nossa bússola amorosa é um instrumento complicado: nem sempre o Norte está no sítio certo. Às vezes julgamos que a felicidade é maior se nos esquecermos do tempo e do mundo e das mulheres. Somos, de facto, um bicho fodido. Mas até o mais fodido dos bichos necessita de amor. Se nos acharem dignos: amem-nos pelo homem que somos – e não pelo menino que julgamos ser. Se realmente formos dignos: amar-vos-emos como se deve amar: com o coração e as tripas de fora. Todos acabamos por crescer. Acreditem. Não tenham pressa em nos amar.

PedRodrigues

sábado, 6 de outubro de 2012

À minha futura namorada...


Não sei quem és. Não sei onde estás. Não sei nada sobre ti. Talvez já te tenha visto por aí. Talvez tenha esbarrado contra ti numa esquina qualquer. Talvez tenhamos partilhado olhares, ou até mesmo um ou outro sorriso. Não sei se já falei contigo, ou se virei a falar contigo brevemente. Quem me garante que nunca te toquei? Quem me garante que nunca olhaste para mim secretamente? Às vezes gostava de poder rever a minha vida. Sinto sempre que me escapou alguma coisa. Vivemos tão depressa. O tempo foge-nos pelos dedos. O mundo aparece e desaparece à nossa volta e não damos conta. Às vezes gostava de parar o tempo. Às vezes sonho que o tempo pára e eu te encontro. Onde estás? Quem és? Quando vens?
Sabes, sou um poço de confusões. Sou profundamente defeituoso. Consigo ser uma catástrofe humana, um parque de diversões psicótico e toda uma panóplia de coisas estranhas que tu talvez não consigas imaginar. Como todos os homens, sou péssimo quando adoeço. Entro em prantos desmedidos quando as gripes me batem à porta e sonho com apendicites agudas quando me dói a barriga. Tenho a mania de falar enquanto durmo, mas felizmente não ressono. Não ligues se às vezes parecer ausente: estou apenas a escutar a vida que me rodeia e as vozes que não se calam na minha cabeça. Detesto que me interrompam enquanto escrevo, mas para ti abrirei uma excepção. Não sei se sabes isto sobre mim, mas adoro escrever sobre aqueles que amo. Um dia, se estiveres disposta, escreverei para ti. Escreverei sobre o nosso amor e aquilo que poderá ser o nosso amor. Nunca censures os meus sentimentos. Gosto de amar com as tripas de fora – aliás, quem ama, ama com as tripas de fora. Gosto de me deixar no papel: em cada letra, em cada vírgula, em cada ponto. Se me permitires, escrevo-te de mãos dadas comigo em todos esses textos. Não te prometo os grandes gestos utópicos dos filmes de Domingo à tarde. Prometo-te os pequenos gestos. Aqueles simples, mas reais e honestos: puxar a cadeira para te sentares, olhar-te sempre com ternura, fazer-te sorrir quando o mundo pede que chores, beijar-te ao adormecer e beijar-te ao acordar. Prometo-te tudo o que posso prometer. E no entretanto entre essa promessa e a realidade, prometo ficar a ver-te crescer em mim, enquanto eu me vou incrustando em ti.
Vou ser sincero contigo: hoje o meu coração está feito em pedaços. Se realmente estiveres disposta a embarcar nesta viagem comigo terás de colar todos os bocadinhos. Não será fácil. Acredita em mim quando te digo: não será fácil. Conheço demasiado bem o meu coração. No entanto, se realmente fores digna, se realmente fores a metade certa, não desistirás de o fazer. Há uma coisa que sempre disse: o amor não foi feito para aqueles que desistem. Aliás, o amor é um sentimento que gera uma sensação de eternidade. E nessa eternidade o mundo pode parecer-nos estranho, mas nós estaremos sempre certos um para o outro.

Quem és?
Onde estás?
Quando vens?

Ainda não te conheço, mas já te escrevo.

Pedro 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O dia em que quis vender o meu coração


No dia em que meti o meu coração à venda percebi que ele vale pouco ou quase nada. Disseram-me que os corações partidos não valem tanto como os outros.

-Quem quer uma coisa partida?

 Mostraram-me as modas atuais: os corações de pedra, os corações de ouro, os corações à prova de bala, e toda uma infinidade de derivados do coração que eu desconhecia totalmente. Expliquei-lhes que o meu não era de ferro, que não era de ouro, que não era à prova de bala e que sangrava como os outros. Riram-se de mim.

-Quem quer uma coisa estragada?

A verdade é que ninguém quer um coração estragado e eu não quero o meu coração. Não o quero. Aleija-me, magoa-me, mói-me, irrita-me. Estou farto do meu coração. Juro que estou farto. Parece que não aprende. Aliás, não aprende mesmo. Bate por tudo e por nada e às vezes acelera sem razão aparente. Acelera, acelera, acelera… Até ao ponto em que fatalmente acaba por se despenhar. Depois estilhaça-se por todo o lado: um bocado ali, outro bocado acolá e eu a apanhar os cacos. A colar tudo de novo. A colar tudo como se desta vez fosse para sempre. Nunca é.
Um dia destes falaram-me de alguém que plantava corações.

-Ninguém planta corações

Todos plantamos corações, mas nem sempre nascem os amores que queremos. Há quem os plante em conjunto e os deixe crescer em conjunto e durante esse processo os corações amam-se. Não há nada mais belo que um coração cheio de amor. Não há nada tão doloroso como um coração partido por amor. Às vezes esquecemo-nos que para dar o nosso coração, temos de receber um coração em troca. Nem todos estamos preparados para ver as coisas como elas são. Mas o mundo está aí, está à vista de todos e mesmo assim teimamos em olhar para ele e não o ver. Os nossos corações são tão cegos como os nossos olhos. Gostamos de acreditar no amor cego. E que amor será mais cego que o amor das coisas belas? O amor que é Amor vem do coração, mesmo dos corações que estão estragados, despedaçados, partidos, ou estilhaçados. O amor vem maior desses corações.

-Quem quer um coração desfeito?

Ninguém quer um coração desfeito, mas a verdade é que o mundo é feito de corações desfeitos. Até os corações de ferro um dia acabam por enferrujar. Um dia o meu coração partido será um coração chagado e nesse dia estarei disposto a deixá-lo acelerar de novo. Hoje estou fulo, irritado, mal-humorado. De maneira que hoje apetece-me vender o meu coração. Ele até pode não valer muito, pode até não valer nada, pode não ser de ferro, ou de ouro, ou outra coisa qualquer, mas não o vendo ao desbarato. O nosso desejo de amor é insaciável, mas nem por sombras ofereço (novamente) o meu coração.

PedRodrigues

(Crónica da edição de Novembro da revista Algarve Mais)

sábado, 22 de setembro de 2012

O amor que respiramos


Amamo-nos à distância do ar que respiramos. Aqui em casa, amamo-nos à distância do ar que respiramos. Se nos imaginar de olhos fechados sinto-nos no ar. Cada um de nós tem o seu espaço. Cada um de nós ocupa esse espaço como se fosse seu – e é. Na verdade estamos distantes, mas continuamos juntos. Às vezes não nos falamos durante a eternidade dos minutos, mas estamos juntos e estamos felizes quando estamos juntos. Às vezes somos quatro, outras vezes somos três, outras vezes somos dois e às vezes estamos sozinhos por aí. Nunca nos separamos totalmente porque a distância não é inversamente proporcional ao amor. Amamo-nos sempre. Amamo-nos à distância do ar que respiramos: essa é a grande verdade. Nem tudo na vida nos corre bem. Nem sempre o vento sopra a favor. Nem sempre somos quatro aqui por casa. A verdade é que somos parte do mundo, mas o mundo acontece à nossa volta. Somos um núcleo. Somos um núcleo compacto. O mundo teima em acontecer e nós teimamos em ficar unidos. Unimo-nos mesmo quando somos apenas um. Nada nos separa, porque nada nos consegue separar. Um dia fomos cinco. Nesse dia éramos mais felizes, mas esse dia acabou por passar. Hoje somos quatro mais um. Não estamos os cinco, mas continuamos a respirar do amor dos cinco. E é isso que nos torna tão especiais, é isso que nos torna tão completos: amamo-nos à distância do ar que respiramos. Enquanto um de nós respirar, nós seremos um núcleo compacto de amor que não se esgota. Enquanto um respirar, viveremos todos, seremos todos aquilo que somos. Não acredito na morte pela distância, nem na rotura pela solidão. Enquanto respirarmos amor não vivemos sozinhos. Tenho pena daqueles que não entendem a fibra do amor. Tenho pena dos que vivem dos quases e de todos os outros que têm dificuldade em perceber a receita do amor. Nem tudo o que brilha é ouro. Nem tudo o que aparenta ser amor, é amor. Não nos contentemos com metades. Não nos deixemos enganar pela irracionalidade dos impulsos que nos movem. Agradeço todos os dias o meu lugar neste núcleo. O amor que respiramos é inesgotável. O amor que respiramos faz-nos felizes. Um dia fomos cinco, mas esse dia passou. Hoje somos quatro mais um. Não estamos os cinco sentados pela sala, mas continuamos a ser cinco no interior de cada um.

PedRodrigues

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Crónica pequenina sobre o sol egoísta


Entrei no quarto com medo de te ver. É verdade. Para quê mentir? Entrei devagar, espreitei primeiro, olhei bem, tremi um bocado, mas a verdade é que não estavas. Ou por outra: estavas, mas permaneceste escondida. Desfiz o malote e arrumei a roupa no armário. Tu continuavas escondida. Olhei em volta, suspirei uma vez, suspirei novamente e tu permaneceste escondida. Olhei para a parede, mesmo por cima dos meus livros e lá estavas tu: escondida nos papelinhos colados com post-its . Lembrei-me de ti. Lembrei-me de ti porque o sol esgueirava-se pelos buracos da persiana e despenhava-se nos teus papelinhos. Lembrei-me de ti porque um dia foste o meu sol. Foste o sol do meu sol e brilhavas muito. Brilhavas tanto, tanto. Continuas a brilhar, mas agora o meu quarto está escuro. Apagaste-te aqui e eu não sei se consigo viver nesta escuridão. Um dia pedi-te que brilhasses para mim. Um dia brilhaste para mim. Mas a verdade é que me cansei de girar na tua órbita, de me deixar à deriva enquanto me vias passar do alto do teu pedestal celeste. Um dia acreditei que o sol podia girar à volta de alguém. Estupidamente acreditei que o sol podia girar à volta de alguém. Continuo a acreditar que o impossível é possível porque acredito que sou feito de sonhos. Enquanto durmo tu estás comigo. Enquanto durmo permaneces escondida atrás das almofadas. Depois acordo de noite: uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, cinco vezes. Nesse momento tu já não estás. Permaneces escondida nos papelinhos, permaneces nas caixas das sapatilhas, permaneces enraizada na roupa que deixaste por aqui. Permaneces. E enquanto eu conseguir sentir o teu aroma a kiwi e coco tu vais aparecendo pelas frechas das persianas. A minha vida continua estranha sem ti. O teu silêncio continua confuso na minha cabeça. Onde quer que estejas, com quem quer que estejas, por favor deixa de brilhar. Um dia foste o meu sol e não estou preparado para te partilhar assim. Um dia foste o meu sol e estupidamente esqueci-me que o sol não gira à volta de ninguém. Por favor não brilhes. Se levantar a persiana és bem capaz de me abraçar. E depois, como serei capaz de me esquecer de ti?

PedRodrigues

domingo, 9 de setembro de 2012

Breve introdução ao fim das coisas


Eventualmente tudo acaba. Nada fica como um dia foi porque tudo está sujeito a uma mudança. Tudo nos parece passageiro, porque tudo é passageiro. Um dia deixámos de ser dois estranhos e passámos a ser dois conhecidos. Um dia passámos a ser mais que conhecidos: fomos amantes, cúmplices, compinchas, comparsas, companheiros de crimes de cabeceira. Hoje somos o pó que sobrou dessa luta. Tudo se transforma, a verdade é essa. No dia em que as coisas acabam rastejamos cada um para o seu lado conscientes que temos toda a razão do mundo. Esperneamos, esbracejamos, berramos bem alto, choramos de raiva. As coisas acabam, mas nunca acabam por nossa culpa. Passamos a batata quente para o outro lado. Não queremos saber de nada, nem de ninguém. Fechamo-nos em insultos vãos. Achamos que estamos melhor assim, mas nunca estamos.  Temos medo. Não temos medo de ficar sozinhos. Não temos. O nosso medo é o medo da superação. Temos medo que avancem sem nós. Encaramos a situação como um jogo e como bons jogadores que somos, temos medo de perder. Mas há coisas que vão ficando connosco e não nos deixam avançar. Mudamos o nome da lista telefónica, esperançosos que isso nos ajude nessa jornada. O que um dia foi a alcunha amorosa, hoje é o simples nome: seco, sem chama, mortiço. As mensagens que um dia foram o motivo de maior orgulho, hoje são apenas recordações dolorosas. Apagamos tudo, mas nem tudo permanece apagado. Há marcas que continuam vibrantes na carne, há roupas que teimam em aparecer nas gavetas, há tudo aquilo que sobra daqueles dias em que o sol brilhava e a lua era cor de pérola. Há essas coisas e aquilo que fomos nessas coisas. E a verdade é que quando a poeira assenta nós temos saudades de tudo. Temos saudades das roupas, das marcas, dos sorrisos, das alcunhas… Temos saudades de tudo porque um dia tivemos tudo. E ninguém está preparado para ficar com nada depois de ter tido tudo. Quando olho para trás consigo ver-me mais feliz que hoje. Quando olho para trás consigo ver-me mais completo. Não ligues a tudo o que digo da boca para fora, ou aos sorrisos que invento na urgência de me mascarar. Sabes, as aparências iludem e aparentemente sou péssimo a disfarçar.

PedRodrigues 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Croniquinha feita de dúvidas


Não consigo. Juro que não consigo. Aliás, não entendo. Juro que não entendo. Que queres que faça? Queres que sorria? Que queres que te diga? Preferes que te minta? Não consigo. Apetece-me escrever e não consigo. Apetece-me dormir e dou voltas na cama até adormecer por segundos e acordar sobressaltado com um barulho qualquer. Que queres que faça? Tento apagar-te. Tento apagar-nos. Está tudo bem. É tudo muito bonito. Acabámos, é um facto. Cada um para seu lado. Cada um estilhaçado para o seu lado. Cada um no seu canto a lamber as suas feridas. Ninguém nos pode tirar o mérito. Tentámos. Levámos as coisas até onde pudemos. Caminhámos lado a lado e fomos construindo o nosso caminho. Fizemos a nossa cama e deitámo-nos nela. A vida foi bonita enquanto estivemos bem. A vida continua bonita agora que não estamos. Cabe a cada um de nós abrir os olhos. Cabe a cada um de nós acordar. A vida continua bonita mesmo quando não estás comigo. Mas que queres que faça? Continua bonita, só isso. Continua a passar por mim e continuo a vê-la passar cá do meu canto. Sinto-me indestrutível por dentro, enquanto o mundo se desmorona lá fora. A verdade é que me sinto feito de ferro. A verdade é que até o mais forte dos ferros acaba por vergar com o tempo. O tempo pesa, mas o tempo demora. E neste momento tu ainda dóis bastante. Bastante, mesmo. Juro que não entendo como seguiste em frente sem mim. No meu canto o tempo passa com os segundos, e os segundos duram eternidades – que o digam os minutos. Não consigo. Juro que não consigo. Ainda tentei escrever algo alegre, mas é difícil esquecer os males que nos atormentam. Especialmente quando esses males dormem connosco, jantam connosco, almoçam connosco. É difícil. Não sei como conseguiste seguir em frente. Não sei se o tempo acelera quando lhe pedes. Um dia julguei que eras tu que controlavas o tempo. E nesse dia senti-nos indestrutíveis, enquanto o mundo teimava em desmoronar-se à nossa volta.

PedRodrigues