sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Dez minutos para o fim do mundo


Estavam os dois sentados à beira do precipício e olhavam-se, cúmplices, como se tivessem vivido o suficiente para saberem todos os segredos um do outro. O mundo desmoronava-se a cada minuto que passava. Caía: uma pedra de cada vez, uma montanha de cada vez, uma pessoa de cada vez, um coração de cada vez. Faltavam dez minutos para o fim do mundo. Dez minutos para que tudo terminasse. Uma vida, um amor, uma jornada: em dez minutos tudo isso seria nada e todo esse nada não seria mais que esquecimento. O universo continuaria sem eles. O universo continuaria sem o amor deles. E como podia o universo continuar sem o motor que o movia? Um dia eles julgaram que o amor deles fazia continuar o universo. E talvez fosse realmente o amor deles - e o amor dos corações que amam - que continuava o universo. Naquele momento tudo o que ficou para trás sabia a pouco. Tudo o que fizeram sabia a pouco. Tudo o que ele queria

-Continuar-me

Tudo o que ela queria

-Continuar-me contigo

Tudo isso parecia pouco. Tudo isso era nada – ou viria a ser nada. Ali estavam eles: na beira do mundo, prestes a tornarem-se em esquecimento. Quem se iria lembrar deles? Quem se iria lembrar que um dia o amor deles existiu? Será que as memórias ficam gravadas nas estrelas? Seriam eles as próprias estrelas? Tantas perguntas. Tanta coisa que ficou por saber, por dizer, por descobrir, por inventar. Acabar com o mundo.

-Os amores deviam ser eternos, não deviam?

(Ela a aninhar-se no ombro dele. A sussurrar entre os cabelos.)

-Quem te garante que os amores não são eternos?

Na cabeça dele a pergunta dela não fazia sentido. Ele não acreditava na eternidade. Acreditava que tudo durava até um dia, mas acreditava também que as coisas são feitas da pequena eternidade que duram. Há eternidades nos segundos: o segundo de um beijo é eterno; o segundo de um amor é eterno. Tudo acaba um dia, mas tudo o que vale a pena, tudo o que nos faz realmente felizes, dura o tempo suficiente para nos parecer uma eternidade.

-Eras capaz de morrer por amor?

Ele

-Todos morremos por amor…

Eis a grande verdade do mundo e das coisas que existem no mundo: todos morremos por amor. Há sempre parte de nós que morre por amor - e por vezes essa parte acaba por ser um todo. O mundo rege-se pelas leis deste amor. Do amor que mata, que mutila, que estilhaça. Há corações estilhaçados por amor: mil pedaços perdidos pelo mundo. No segundo em que o mundo acabar, naquele derradeiro segundo, milhares de corações estilhaçados acabarão com ele. Todos morremos por amor. Todos morremos por amor. Todos morremos. Todos amamos. E, talvez por isso, todos tenhamos esta sensação de que somos eternos. Um segundo de amor. Basta um segundo. Somos eternos nesse segundo.

-São dez segundos de queda livre. Dez segundos para morrermos por amor.

Dez segundos separavam-nos da morte que mereciam. O amor deles acabaria ali. Depois do amor deles, acabaria o mundo. Ninguém se lembraria que um dia eles morreram por amor, mas naqueles dez segundos de queda livre, antes dos corpos se despenharem contra as rochas e se estilhaçarem como corações pelo mundo, eles seriam eternos. A memória do amor deles viveria até ao último segundo. Até ao último milésimo de segundo. Depois disso, o negro do universo encarregar-se-ia de os esquecer.

-Quanto tempo dura o amor?

(Ele apertou-lhe a mão com força, antes de se lançarem.)

-Por ti? Uma vida e dez segundos.

Acredito que, se a eternidade existisse, o amor deles seria eterno.

PedRodrigues

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