quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Coimbra, no momento da partida


Lembro-me da primeira vez que te vi realmente: vestida de negro e iluminada por uma lua enorme cor de pérola. Senti uma certa vertigem cá dentro, um orgulho imenso que ainda hoje não consigo explicar. Nesse momento percebi o verdadeiro porquê das baladas, do choro das guitarras. Observei a disposição de cada edifício; a universidade lá no alto; a cabra a guardar cada canto, cada pedra. Senti-me em casa, no verdadeiro sentido da palavra casa. Como se fosses uma extensão física de mim. Uma necessidade lógica de viver para lá do meu corpo.
Desde esse dia até hoje, passaram-se anos. O tempo é inevitável. Passa por nós e vai-nos transformando aos poucos. Mas há coisas que ficam marcadas por dentro. Coisas que guardamos de forma a que sejam eternamente nossas. De ti guardo todos os momentos que me trouxeram até aqui. Os joelhos esfolados das quedas que me foram tornando mais forte. As conversas partilhadas entre os amigos que me apresentaste e que guardarei para a vida. As gargalhadas e as bebedeiras dessa juventude sónica que parece ter passado a correr. Os primeiros sorrisos dos amores começados à beira rio; as últimas lágrimas choradas em bancos de jardim por esses mesmos amores. De ti guardo esse ponto cardeal que será para sempre a minha juventude. O porto de abrigo necessário que continuarei a procurar e a recordar ao longo da vida. Guardo essa ténue linha que separa essa mesma juventude da idade adulta. A metamorfose de quem entra menino e sai homem. Guardo de ti essa saudade dos passeios nas tardes de primavera. O calor infernal das tardes de Junho. A beleza das tuas entranhas feitas de pedras históricas e conhecimento. A alegria dos cortejos de caloiros e finalistas. Guardo de ti as músicas cantadas em uníssono de copo na mão. A capa negra que me lembrará para sempre dessa primeira noite em que te vi com olhos de gente; a mesma capa que um dia vesti com tanto orgulho.
Ficará muito por dizer. O silêncio guarda as melhores palavras, as melhores histórias.
Dizer adeus a algo - ou alguém - que amamos será sempre doloroso. Deixar para trás o que conhecemos, o que faz parte de nós, exige um esforço sobrenatural. Mas tudo tem o seu tempo. Nada é para sempre. Chegámos ao fim da canção. É hora de partir com a certeza desse passado. Com a certeza desse futuro que começou em ti. Do mais fundo de mim, agradeço-te por tudo. Por me teres acolhido e moldado à tua imagem.
Obrigado, Coimbra. Esta lágrima que choro, é feita de ti.
 
PedRodrigues

4 comentários:

  1. Palavras que podiam ser minhas, soubesse eu escrever assim!!

    Querida cidade.

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  2. O que eu quisera dizer há muito e não consegui. Parabéns ao autor pelo texto.

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  3. Coimbra é isto....
    Esta cidade, que me viu nascer, crescer tem esta capacidade de nos fazer tão felizes. Texto maravilhoso

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  4. Só quem vive a verdadeira essência de Coimbra sente e vive estas palavras

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