quarta-feira, 1 de abril de 2015

Os Invisíveis


Então corri a calçada da cidade como se me pertencesse. Olhei. Pessoas apressadas, de passada larga, pessoas de outras terras, outros lugares, a admirarem tudo à sua volta, de máquina fotográfica em posição de disparo: monumentos, casas, estradas, o céu. Admiravam tudo, menos aqueles que julgavam invisíveis. Almas perdidas pelos cantos da cidade. De palmas abertas à procura de uma esmola: para matar a fome: de comida, de droga, de álcool, de tabaco. Alguns pareciam-me perdidos no momento. A pobreza e a solidão não têm relógio, ao que parece. As noites são frias, os dias são quentes. O mundo acontece à sua margem. Alguém se esqueceu deles. Talvez porque a pobreza seja um embaraço. Talvez porque o medo da queda, para quem olha de cima, é enorme. À sua volta há gargalhadas. Miúdos de sacos carregados de coisas que provavelmente não necessitam. De telemóvel na mão, a mandarem a próxima mensagem sem sentido. Quem os pode censurar? Não têm preocupações ou necessidades, mas a culpa não é deles. Não foram os seus telemóveis topo de gama que apagaram estas pessoas da sociedade; não foram eles que os marginalizaram. A culpa morreu solteira – sempre ouvi dizer. A cidade é um organismo vivo que nos absorve. Há quem caia e quem se levante. Há quem viva para as fotografias nas redes sociais, e quem nem saiba o que isso é. Ninguém pode culpar uns, ou outros. É a ordem normal do mundo. O desequilíbrio que me custa engolir. Neste momento, enquanto escrevo esta crónica no meu computador, há quem  esteja a contemplar o céu, nesta noite amena de primavera. Imagino-os a sonharem com outro tecto sobre as suas cabeças. Imagino que não sonhem com a sua fotografia nas redes sociais, ou com a sua cara no jornal das oito. No entanto, acredito que eles queiram ser vistos. Nem que seja aos poucos, como se as pessoas estivessem agora a acordar, de olhos ainda remelosos. Sempre me disseram que todas as coisas que existem têm uma sombra. Talvez eles sejam a sombra desta sociedade injusta. Quanto maiores formos, maiores serão as nossas sombras – é física, pelos vistos.

 

 

PedRodrigues

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