sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

As razões por que te amo


 É Inverno e as folhas já não estão nas árvores, estão no chão.

Conheci-te na Primavera. Apareceste de repente, sem aviso, ou razão aparente. Há quem diga que as coisas boas acontecem assim, de uma forma espontânea. Eu sou uma dessas pessoas. Meteste conversa comigo usando o tempo como desculpa – eu sei, estou a exagerar. Comentaste por comentar, nunca com segundas intenções – e ainda bem que o fizeste. Agradeço todos os dias que o tenhas feito porque, ainda hoje, essa conversa continua. Vem-se continuando pelos segundos dos minutos das horas dos dias e dos meses que nos trouxeram até aqui.

 Resolvi escrever este texto para te explicar as razões por que te amo. Poderia dizer que te amo porque não vejo razões para não te amar, mas estaria a ser redundante. Já to disse mil vezes. Mas não me importo de to dizer mais mil, ou dez mil, ou cem mil. A verdade é que te trago tatuada por dentro. Sei que não gostas que fale em tatuagens

-Já és perfeito como és. Para quê estragar o que é perfeito?

Dizes-me, sempre, no teu jeito empertigado. Dizes-me e eu guardo a sete chaves num sorriso. Amo-te por isso. Porque me fazes sentir certo quando julgo que estou errado. Porque me achas perfeito sabendo que sou um compêndio de defeitos. E amo-te, sobretudo, porque não tens medo de mo dizer. Mas não é só por isto que te amo. Comecei a amar-te no dia em que te perdi. Reformulo: comecei a amar-te no dia em que imaginei como seria perder-te. Imaginei como seria se nunca mais te visse a fumar à janela, tão senhora de ti; se os teus braços nunca mais se enlaçassem no meu tronco enquanto cozinho

-Cheira bem.

(Eu orgulhoso)

Se os teus olhos nunca mais tentassem procurar mundos nos meus; se a tua voz deixasse de ecoar nos meus ouvidos; se as tuas paranóias e birras deixassem de fazer parte do meu dia a dia; se a tua mala e as tuas tralhas deixassem de ficar espalhadas pelo chão do meu quarto; se o teu sorriso deixasse de ser para mim; se os teus beijos deixassem de fazer um par com os meus; se o teu amor e o meu amor deixassem de ser o nosso amor. Imaginei tudo isto e tudo isto pode parecer muito pouco. Mas acredita quando te digo que não é. Gosto de pensar que te tenho para mim. Que ao fechar os olhos na noite anterior e ao abri-los na manhã seguinte tu continuarás comigo.

O céu parece desabar lá fora. O vento teima em abanar tudo. As estações mudam vencidas pelo cansaço do tempo que passa por nós. Somos uma gota neste oceano. Eu, tu e todos os outros que vivem no nosso tempo. Daqui a alguns anos seremos recordações. Memórias. Se tiver(mos) sorte recordar-nos-ão juntos. Não nos imagino um dos grandes amores da história, mas seremos um dos amores da história. E isso chega-me e faz-me feliz.

É Inverno e as folhas já não estão nas árvores. Contigo não sinto necessidade de olhar para baixo à procura das folhas caídas no chão. Contigo olho o desabrochar das flores e as cores garridas da Primavera e do Verão. Somos dois errados num mundo que se julga certo. Quem sabe se juntos não seremos mais que uma simples excepção.

 

PedRodrigues

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Crónica de Natal

Neste Natal não dês prendas, dá Amor.

A minha mãe sempre me disse que o Natal é quando o homem quiser. Há gestos que devem ser repetidos todos os dias. O amor deve ser partilhado em partes iguais por todos os trinta e um milhões quinhentos e trinta e seis mil segundos do ano. Aqui em casa, este ano, somos cinco. Já fomos mais. Quando era miúdo vivia o ano inteiro para esta data. Natal era sinónimo de prendas, casa cheia, alegria. Com o passar dos anos as coisas foram mudando. A família foi encurtando. O amor foi-se mantendo. As prioridades foram mudando. Pouco me preocupo com as prendas. Aprendi que os bens materiais não têm vida própria. Que as melhores prendas respiram aqui, comigo, ao meu lado. Olhar a alegria dos meus pais e avós chega-me. Senti-los. Sentir o amor deles. Ouvir as histórias. Partilhar os momentos. Construir memórias. Recordar quem um dia aqui esteve ao nosso lado. Quando olho à minha volta, vejo que tenho, de facto, razões para sorrir. Eles sorriem comigo. Cai uma tempestade lá fora, cresce um Natal cá dentro. E tem cores vivas e alegres, feitas de sonhos e esperanças e amor. Connosco sorriem todos os que um dia partiram. Não sei como explicar, mas consigo senti-los. Mesmo agora, enquanto escrevo esta crónica. Consigo senti-los a sussurrarem-me ao ouvido palavras carregadas de carinho. Daqui a algumas horas comeremos o bacalhau e as couves, como é habitual. Depois sentar-nos-emos nos sofás a ver televisão. Talvez nenhum de nós diga seja o que for, mas todos saberemos: é o amor que sentimos uns pelos outros que nos une. Que esse amor seja uma constante nos restantes dias do ano. E que se multiplique nos nossos corações, como se dele dependesse a nossa existência. Feliz Natal (hoje e sempre).

 

PedRodrigues

 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Amo-te

Amo-te, devagar, sem pressa. Amo-te. Escrevi para que saibas. Para que não haja dúvidas. Para que, quando o silêncio se intrometer entre nós, não te esqueças. Amo-te. Realmente. Mesmo quando te faço chorar. Mesmo quando te irrito – sou estranho, eu sei. Sou irritante, eu sei. Mas amo-te. Repito aqui, para o mundo. Repito mil vezes, se for preciso. Quero que todos saibam. Apetece-me soletrar-te ao ouvido. Primeiro um “A”, de mansinho, a desassossegar o lóbulo da tua orelha. Depois um “M” a deixar-te arrepiada. Depois um “O” com toda a pompa e circunstância. Depois um “T” e um “E” cheios de certezas. Porque é a ti que amo. É contigo que partilho os dias bons – e os menos bons. Somos sombras a namorarem a mesma luz. Somos histórias. Somos parceiros de lutas, irmãos de armas e toda uma panóplia de terroristas do amor. Caímos mil e uma vezes, mas levantamo-nos sempre. Gostamos do desafio. Somos um desafio. Não jogamos com as probabilidades. Não nos deixamos impressionar. Atiramo-nos às balas. Somos à prova de bala. Somos um amor à prova de bala. Amo-te era só isto que te queria dizer. Amo-te hoje. Amo-te amanhã. Amo-te como se deve amar. Deixemo-nos de rodeios. Sejamos realistas: amo-te. Era isto que te queria dizer. Desculpa por me ter deixado levar pelas palavras. Só queria dizer que te amo. É só isso que tens de reter: amo-te. Como haveria de não te amar?


PedRodrigues

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Repete comigo

Não escrevo o teu nome na areia
O mar pode apagá-lo
Não o pinto nas paredes da cidade
Todos o poderão ler.
Escrevo-o numa folha de papel, junto ao meu.
Desenho um coração à volta. Ficamos presos nesse coração.
 
Guardo-te comigo.
Guardo-nos.
Guardo as nossas imperfeições
Guardo as nossas discussões
Guardo os dias menos bons
Guardo tudo.
Não te largo
Não te deixo
Não te esqueço.
Somos tempestades
Abanamos, remexemos, destruímos.
Acalmamo-nos, abraçamo-nos, reconstruímo-nos.
 
Começamos do zero
Até chegarmos ao infinito
Demoramos na viagem
Nada disso me preocupa
Nada disso te parece preocupar
Tens a certeza que caminharemos juntos
(Também eu tenho essa certeza)
É isso que realmente importa
És tu que me importas
Sou eu que te importo a ti
Seguiremos juntos
Juntos, unidos, ligados.
Subiremos à montanha
Não com a certeza de chegar ao seu topo
Mas com a certeza de, onde quer que cheguemos,
Chegarmos juntos.
 
Somos a primeira pessoa do plural
É essa a verdade
Que vale a pena ser repetida
Repete comigo.
Repete-te comigo.
 
 
PedRodrigues

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Ao primo Tó Moinhos

Dizem que quando morremos deixamos de ser homens e passamos a ser estrelas no céu a olhar pelos outros. Nunca acreditei muito nisso porque as estrelas no céu brilham lá ao longe e não se parecem preocupar com a nossa pequenez. Tu não eras assim. Brilhavas na terra, como as estrelas no céu, mas, ao contrário delas, preocupavas-te com todos à tua volta. Eras dono e senhor de uma alegria contagiante que se multiplicava em todos nós. Sempre que te recordo, acabo por sorrir. É impossível não o fazer. Depois vem o vazio, o choque com a realidade. Hoje não estás. Hoje não me vais dizer que o meu avô tem a mão pesada para o sal, ou que a minha mãe é uma encrenca. Hoje não me vais abraçar com força contra ti. Tenho saudades. A morte tem a tendência sádica de nos separar. Mas enquanto um de nós viver, nenhum de nós será esquecido. Tu continuarás a viver em cada um de nós: em cada memória, em cada lágrima, em cada sorriso. O amor que nos deixaste continuará a crescer e a ser passado de geração em geração. As tuas histórias continuarão a ser contadas. A alegria contagiante do teu sorriso continuará a ser maior que as lágrimas choradas. Não te esqueceremos. Nunca te esqueceremos. Um abraço apertado de quem te ama, Encrenca.


PedRodrigues

(Crónica publicada no jornal "Portuguese Times")

domingo, 3 de novembro de 2013

Canção de algum Amor

Para mal dos meus pecados
És um pecado de mulher
Uma metade feita de loucura
Outra metade de prazer
Nos teus olhos cor de mel
Consigo ver um carrossel
De sensações e desejos
Devaneios e beijos
Ou outra coisa qualquer

Não me deixes à beira do abismo
Que eu juro que não finjo
Quando estou perto de te amar
Não me olhes com desdém
Que o amor quando vem
Acaba sempre por me atropelar

Para mal da minha vida
Acabas sempre aqui despida
A pedir-me por favor:
“Dá-me só um beijinho
Um abraço ou um carinho
Ou um pouco de amor”
Mas se há coisa que não tenho
É vontade ou engenho
Para te meter a andar
E neste tango desmedido
Acabo deitado e vencido
Implorando não te amar

Não me deixes à beira do abismo
Que eu juro que não finjo
Quando estou perto de te amar
Não me olhes com desdém
Que o amor quando vem
Acaba sempre por me atropelar

No final da brincadeira
O coração faz asneira
Não temos como nos safar
Acabamos despidos
Talvez um pouco perdidos
Cheios de razões para suspirar…

PedRodrigues


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Não estás, meu amor?

Há seis meses que estamos juntos. Seis meses que contados em dias, em horas, em minutos, em segundos parecem uma eternidade. Olhamos para trás e tudo parece tão distante: o primeiro olhar, o primeiro beijo, o primeiro sorriso, o primeiro toque. Tudo isso se multiplicou. Repetimos mil vezes os mesmos gestos. Mil e uma, mil e duas, mil e três: não nos cansamos de os repetir. E isso é tão bom.
Trago-te nos meus dias, assim como tu me trazes nos teus. Trago-te porque me fazes bem. Porque, neste momento, por mais que quisesse imaginar-me sem ti, não conseguiria. Os dias que passo contigo, são dias de felicidade. Ver-te sorrir faz-me bem. Às vezes – e isto tu não sabes – invento textos enquanto olho para ti. Invento-os e guardo-os para mim. É um acto egoísta da minha parte, mas não gosto de te partilhar. Sei que, ao leres isto, vais achar que esta é uma daquelas liberdades que às vezes tomo nos textos, mas não é. Na minha cabeça escrevo histórias paralelas à nossa história. Depois sorrio baixinho, por dentro, para que ninguém saiba, nem mesmo tu, que nos estou a escrever de mãos dadas ao longo do tempo.
Agora que estou aqui sozinho a escrever sobre nós, a saudade resolveu aparecer. Olhei para o teu lado da cama e lembrei-me que ainda ontem acordaste junto a mim. Sorri. Foi um sorriso de saudade. Como se te conseguisse materializar aqui, encostada ao meu peito. Não consigo. Mas posso pensar em ti. E isso reconforta-me e deixa-me feliz. Porque sei que, desse lado, ao leres este texto, também estás a pensar em mim. Não estás, meu amor?


PedRodrigues

domingo, 20 de outubro de 2013

Para bom amor, meio coração não basta

Pede um amor por encomenda. Mete no correio uma carta. Espera que te respondam. Procura o amor pelas ruas. No canto dos pássaros. Nas folhas castanhas caídas no chão. Procura o amor nas entrelinhas. Nos pontos finais. Nas vírgulas. Nas reticências. Escolhe as letras certas para soletrar o amor

-A-m-o-r

Repete novamente, sílaba a sílaba

-A-mor

Escolhe o nome de quem amas e junta-lhe amor. Cria frases, cria histórias, tranforma-te, reiventa-te. Sê feliz. Procura essa felicidade nos mais pequenos gestos. Nos delírios do dia a dia. Sê feliz. Mesmo que tudo pareça uma merda. Mesmo que te digam que é impossível, que a vida é uma desilusão, que as coisas são sempre iguais e que já não há volta a dar. Sê a diferença. Pensa para ti: incógnita ou constante? Reflecte bem. Diz

-Incógnita.

Repete

-Incógnita.

Com convicção, bem alto, repete

-Incógnita!

Agora que és a diferença, procura o amor. Se não o encontrares, pede um pelo correio. Pede um coração pelo correio. Um que venha inteiro. Não procures metades. Não queiras metades, porque tu mereces tudo. Lembra-te: para bom amor, meio coração não basta. Para bom amor, coração inteiro. E tu tens um coração inteiro. Mesmo que tenha uma ou outra chaga. Mesmo que esteja maltratado. Mesmo que te leve a cometer loucuras. Sê louco. Dá-te ao amor. Dá-te ao amor inteiro, de coração inteiro. Escreve uma frase com o nome de quem amas e a palavra amor. Mete-te nessa frase. Ri com essa frase. Mesmo que um dia voltes a chorar. Ri com essa frase. Mesmo que te digam para não rires, porque o amor é uma merda. Ri com essa frase. Mereces. Finta os obstáculos que aparecem no teu caminho. Grita-te bem alto ao mundo. Para que te oiçam. Para que não te esqueçam. Tens muito para dizer. Tens muito para fazer. Dá a mão a quem amas. Olha bem no fundo dos olhos dessa pessoa. Decora-lhe os traços. Fixa o momento. Espera pela luz certa. Aperta-lhe a mão gentilmente. Espera pelo

-Diz

E nesse momento, só nesse momento, avança

-Que queres que diga se só posso dizer que gosto de ti?

Espera pelo sorriso. Decora esse sorriso. Guarda-o para ti como se fosse a coisa mais preciosa do mundo – porque no fundo é mesmo. Dá-lhe um beijo. Dá-lhe um abraço. Sente o tamborilar dos corações. Aí tens o teu amor por encomenda. De coração inteiro. Feito à tua medida. A vida é feita de instantes – nunca te esqueças. Quando os profetas da desgraça te quiserem desanimar, lembra-os que estão a um instante de serem felizes. Não custa nada: basta acreditarem e darem o primeiro passo.

PedRodrigues


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Serenata

Lembro-me da mão do meu padrinho poisada no meu ombro. À minha volta um mar de capas negras. Sentia-me perdido. Naquele momento não entendia nada. Tinha acabado de chegar. Tinha acabado de entrar numa realidade à qual, até ali, não pertencia. Então os primeiros acordes das guitarras fizeram-se sentir. O meu estômago contraiu-se, os meus olhos ganharam vida própria, o meu coração saltou umas quantas batidas. Deixei-me levar pelas vozes que cantavam o teu nome ao vento. Entendi, ali, que há um tempo que ficará comigo para vida, mas que não voltará. Comecei a olhar-te, Coimbra, como mais que uma simples cidade. Havia – aliás, há - algo mais em ti: mistério, aventura, amores, desamores, derrotas, vitórias. Ali, naquele momento, entendi verdadeiramente o que é sentir-te nas veias. És, de facto, mais que uma simples cidade. Agradeço todos os dias os caminhos que me trouxeram até ti. Apesar de todos os passos em falso e das lágrimas choradas, é com enorme alegria que te olho vestida com as cores da lua. Sei que sou apenas mais um dos teus filhos, mas sei, também, que nos amas de igual modo. Hoje receberás mais alguns no teu regaço. Espero que, tal como eu, eles percebam que hoje começa o resto das suas vidas. Recebe-os com carinho. Dá-lhes tempo. Ensina-os. Amadurece-os. Deixa-os viver. Deixa-os sentir. Deixa-os sentir-te. E ao olharem para ti, no momento da partida, eles perceberão: Coimbra não se explica, sente-se.

"Capa negra de saudade
No momento da partida
Segredos desta cidade
Levo comigo p'rá vida"

PedRodrigues



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A consequência das escovas de dentes

Gosto de pensar que o mundo não é apenas o que acontece à nossa volta. Que há um sentido romântico em vários acontecimentos. Que, se realmente vivermos atentos, há pormenores que definem vários substantivos – sem que seja necessário abrirmos um dicionário para procurar o seu significado. Tenho para mim que a atenção ao detalhe faz de nós pessoas melhores. Que entender é melhor que não entender. Olhar com atenção é uma forma de mostrar amor por quem se ama. Querer perceber os vários significados de um sorriso, ou os trejeitos de um olhar, ou os tiques mais discretos é mostrar amor pela pessoa amada. São as pequenas coisas que definem os casais. A partilha das situações mais triviais do dia-a-dia define o nosso nível de compromisso. É talvez por isso que sorrio baixinho sempre que vejo a escova de dentes dela misturada com a minha. Sinto que, esse namoro das escovas de dentes, define o nosso namoro. Gosto de pensar que há, realmente, um sentido romântico neste pequeno pormenor. Que o simples facto dela ter deixado a escova por aqui, me fez perceber que sonha acordar amanhã ao meu lado - e depois de amanhã, e depois de depois de amanhã, e assim sucessivamente até ao fim dos nossos dias. Todos os actos têm consequências e, neste caso, gosto de pensar que a consequência das escovas de dentes é um amor para vida. O ponto de partida para uma longa jornada. O primeiro grande acto – num pormenor tão pequeno. É que isto dos amores é uma coisa simples que nós tornamos complicada. Numa relação para a vida não basta querermos adormecer juntos, também temos de querer acordar juntos. Partilhar as olheiras, o mau-hálito matinal, as ramelas, os bocejos. Partilharmo-nos no nosso estado mais vulnerável. O amor é mesmo isso: partilharmo-nos no nosso estado mais vulnerável. Não é?


PedRodrigues

domingo, 29 de setembro de 2013

Menu Outono


Escrever o teu nome ao contrário. Dizê-lo de trás para a frente sem me engasgar. Repetir uma vez. Repetir outra vez. Ouvir a chuva a embalar-me. O vento a abanar tudo lá fora. Uma orquestra de sons outonais. Imaginar-te em tons de castanho, amarelo, roxo, vermelho, laranja. Imaginar-te a oscilar como as folhas secas nas árvores, prontas a cair. Tu a aterrares suavemente nos meus braços. Escrever-te nas cores do Outono garrido que acontece lá fora: ao contrário do Verão que és. Tu ainda bonita. Tu sempre bonita. Vejo-te feita dos pingos de chuva. O teu cheiro a confundir-se com o cheiro da terra molhada. Imagino-te a sorrir com esta última frase porque disse que cheiravas a terra molhada. Aposto que achaste que estava a ser depreciativo. Não estava. Tinha saudades do cheiro a terra molhada, assim como tenho saudades tuas. A saudade é o sentimento de amar um amor ausente. É o espaço que fica entre nós. Cai um Outono de ventos e chuvas e amores, lá fora. Gostava de estar ao teu lado para te poder abraçar. Sei que tens medo dos temporais. Não tenhas medo. Abraça-me – ou sonha que me abraças. Eu protejo-te. Palavra de honra que protejo. Mesmo estando longe, mesmo não estando aí, eu protejo-te. Não me perguntes como, que não te sei responder. Nestas coisas não há uma explicação lógica. Não há Física que chegue para explicar o amor. Nem espaço grande o suficiente para me afastar de ti.

 

Que o tempo continue a passar
Que as estações continuem a mudar
Que nós continuemos assim
Parados num momento
Só nosso.

Nosso

 

PedRodrigues

sábado, 21 de setembro de 2013

Ensaio sobre o medo de não escrever


Todos os momentos singulares me trouxeram até aqui. Aqui estou. Olho para trás e percebo cada segundo vivido, cada escolha feita, cada caminho não percorrido. Penso para mim

-E se...

Relembro os passos em falso. Relembro as consequências de vários erros. Relembro as lágrimas dos insucessos, os nervos dos quase sucessos, o caos dos falhanços à queima roupa. Todos os momentos singulares me trouxeram até aqui. Todos os murros me trouxeram até aqui. Aqui estou. Cerro os dentes, esperneio um pouco, olho o grande plano que me está reservado. Corre-me sangue nas veias. Correm-me sentimentos no papel. Sou um produto inacabado. Sempre serei. Serei sempre. Deixarei para trás um arquipélago de palavras e de noites mal dormidas. Às vezes dou por mim a pensar

-E se tiver perdido a capacidade de criar?

Imagino-me um Hemingway debruçado sobre um mar de textos antigos, de arma na mão à espera de uma intervenção divina: a escrita, ou a morte. E ao imaginar esse cenário compreendo que escrever é o acto de morrer e viver através das palavras. É o acto de exprimir os sentimentos, despertar os corações mais adormecidos. Escrever é dar vida aos que se julgam mortos. É dar voz a quem se julga mudo. É dar a mão a quem se sente sozinho. Escrever é isto. Escrever é estar aqui, com a televisão em silêncio a dar-me luz, enquanto passo a limpo aquilo que sinto. Escrever é estar aqui. Aqui estou. Espero estar sempre. Este é o caminho

-E se não for?

Este é o caminho. Esta é a ordem natural das coisas. Escrever. Escrever palavras. Escrever silêncios. Mesmo quando a mão teima em estar paralisada. Mesmo quando a mente teima em ficar vazia. Mesmo quando a inspiração me manda à merda. Todos os momentos me trouxeram até aqui. E neste momento em que me encaro a mim mesmo, no meu estado mais vulnerável, dizer-me

“Ontem não te vi em Babilónia e hoje gostava muito de te lá ver.”

 

PedRodrigues

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Porto - Coimbra


12:57

Bom dia meu amor. Como estás? Tenho saudades tuas. Adoro-te

12:59

Bom dia pequenina. Sonhei novamente contigo. Daqui deste lado as saudades também apertam. Estou bem, mas estaria infinitamente melhor se acordasse contigo ao meu lado. Adoro-te

13:04

Sonhaste novamente comigo? Conta-me.

13:10

Lembras-te das fotos que te mostrei daquele sítio no sul de França? Sonhei que nos tínhamos mudado para lá. Só eu e tu e as águas cristalinas e o os sons de um mundo certo para nós. Sonhei com uma casa e um alpendre com vista para uma marina. Os teus cabelos balançavam levemente com a brisa. Beijaste-me. Eu saboreei o teu beijo. Sentei-te no meu colo enquanto terminava uma frase – não me lembro da frase, só me lembro que queria à força que aquele sonho fosse real.

13:13

Que bonito amor. Adorava mudar-me para o sul de França contigo. Tenho tantas saudades dos teus beijos, dos teus abraços, das nossas conversas de cabeceira, das tuas piadas parvas nos momentos mais inoportunos. Tenho saudades tuas. Muitas, mesmo.

13:15

A distância é uma merda. Uma merda mesmo. Fecho os olhos sempre na esperança que ao voltar a abri-los ela já tenha diminuído ou desaparecido, mas ela continua lá.

13:17

Detesto a distância. Detesto estar longe de ti. Detesto!

13:20

Calma amor. Já falta pouco para voltarmos a estar juntos.

13:25

Esse pouco parece demorar tanto... Tenho de ir almoçar, amor. Beijinho

13:27

Beijinho meu amor! Bom almoço!

14:02

Já almocei. Que fazes?

14:03

Tento escrever.

14:05

Continuas bloqueado?

14:09

Continuo. Não sei que se passa comigo: sempre que me sento para escrever sinto-me vazio. Escrevo um pouco, depois apago, recomeço, apago. Não sei que se passa. Tenho medo de ter perdido o dom. Juro-te que tenho medo. Sinto-me um inválido em termos criativos. Nada. Zero. Nem a ponta de um corno. As palavras parecem fugir de mim a sete pés. Não sei que faça para desbloquear...

14:11

Eu sei o que te falta...

14:12

Tu.

14:15

Exactamente. Falta-te a tua musa.

14:18

Pois falta. Mesmo sabendo que a tenho – ou melhor: que te tenho. Mesmo conhecendo cada contorno do teu corpo. Mesmo sabendo todos os teus tiques e reacções. Fazes-me falta. Fazes-me muita falta.

14:24

Não penses que sou só eu que te faço falta a ti. Tu também me fazes muita falta a mim. E eu não tenho a capacidade que tu tens para te expressares. Às vezes acho que não te consigo demonstrar tudo aquilo que sinto por estar tão longe. Por não ter o dom da palavra. Tenho medo que não entendas e te deixes perder.

14:29

Só há uma forma de me perder: em ti. Eu sei que gostas de mim e sei como gostas de mim. As palavras escondem sentimentos e isso não depende da forma -  mais ou menos complexa - como são escritas. Não precisamos de escrever grandes obras literárias para que entendam o que sentimos. O amor também está nas coisas simples. E eu adoro a forma simples como as tuas palavras me vão mostrando o quanto gostas de mim.

14:33

Estúpido. Oh, fizeste-me corar.

14:34

Adoro

14:35

Te

14:37

E eu a ti, meu amor.

14:40

Vou estudar, amor. Vais sair?

14:42

Vou até à praia e depois volto à minha luta.

18:53

Amor?

18:54

Sim

18:57

Como correu essa luta? Venceste?

19:00

Acho que ganhei o primeiro assalto. Vamos lá ver se isto continua.

19:02

Claro que sim! Entretanto podes dar-me beijinhos?

19:03

Quantos queres?

19:04

Muitos.

19:05

Infinitos beijinhos, namorada.

21:03

Estou mesmo a morrer de saudades tuas. Fazes-me tanta falta.

21:18

O espaço que nos separa é proporcional ao amor que nos une. Às vezes acordo de noite e vejo que não estás. Fecho os olhos e tento abraçar o vazio ao meu lado. Sinto um arrepio miudinho na barriga porque sei que não estás. Mesmo que imagine com muita força, ou peça com muita força, tu não estarás. Sei que desse lado tu fazes o mesmo, e isso reconforta-me um pouco. Partilhamo-nos à distância e namoramos à distância, mas o nosso amor não diminui. Somos o reflexo um do outro. Existiremos enquanto plural porque os reflexos não existem por si só. Espero, ansioso, pelo dia em que esta distância que nos separa seja apenas uma recordação. Já falta pouco, eu sei e tu também sabes. Compensamos depois o tempo perdido. Temos o resto das nossas vidas para o fazer.

21:19

Adoro-te!

00:17

Amor vou dormir.

00:19

Vou escrever mais um pouco e depois vou ver um filme para adormecer.

00:20

Abraça-me

00:21

Sempre.


PedRodrigues

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O bê-a-bá da coisa

Se olhar para ti, para ti realmente, não para uma foto, – embora uma foto seja um segundo de ti – se olhar com certeza de te ver, de mais tarde te poder tocar, se olhar mesmo, consigo imaginar-nos juntos para o resto das nossas vidas. Sei que parece um bocado forçado, de uma rapidez quase supersónica, mas a verdade é que nos imagino lado a lado: eu a escrever livros sentado à janela e tu debruçada sobre mim à tua procura nas entrelinhas. Sonho dedicar-te livros e contos e textos. Dedico-te este – como já dediquei outros. Espero colher contigo todos os frutos dos anos que passarmos juntos. Ver-te envelhecer: uma ruga de cada vez. Não me olhes assim – imagino que me estejas a olhar com vontades homicidas por falar nas tuas rugas. Conheço-te. Para o bem, ou para o mal: conheço-te. É bom conhecer-te. Entender os espaços entre as palavras. A amargura em certas frases. Tu sabes e eu sei: não há relações que vivam sempre na bonança. Todos temos defeitos, todos erramos, todos acabamos por falhar num ou noutro momento. Somos seres falíveis, mas é no meio das nossas falhas que nos vamos compreendendo. E compreendendo-nos, amamo-nos. É este jogo do gato e do rato, esta apanhada desmedida entre barreiras e obstáculos que torna as relações tão especiais. Às vezes precisamos de tropeçar para nos podermos levantar mais e melhores. Precisamos de perceber que temos forças escondidas, e que, bem lá no fundo, vale a pena lutar. Quem ama: luta. Este jogo não foi feito para os desistentes, para os choramingas, ou os fracos de espírito. O amor é uma fonte de esperança, uma vontade cega de acreditar que, apesar dos defeitos, alguém nos merece e nós merecemos alguém. O amor é um puto altruísta que partilha o que tem com o parceiro do lado. O amor és tu nas entrelinhas deste e doutros textos. São os teus cabelos que escrevo, são os teus olhos que escrevo, são as tuas mãos que escrevo, os teus lábios que escrevo, a tua pele que escrevo, os teus seios que escrevo. És tu. O amor é querer-te a respirar contra o meu pescoço enquanto te ponho no papel. Sentir o teu perfume pela casa enquanto me levanto para esticar as pernas e as costas. Amar-te é escrever-te. É sangrar em cada palavra: o meu sangue e o teu sangue: o nosso sangue. Imaginas-te ao meu lado daqui a uns anos? Eu, vaidoso, de óculos futuristas poisados no nariz, de robe vestido diante do computador. Tu ao meu lado, tão serena, tão bela, a veres os filmes de Domingo à tarde. Imaginas o meu beijo na tua testa – eu sei que gostas e que achas romântico. Imaginas? Não sou um mago das relações, nem um profissional do amor, mas creio que este seja o bê-a-bá da coisa. E se olhar para ti, realmente para ti, isto te posso garantir: consigo imaginar o resto das nossas vidas: juntos. O amor deve ser – também – isto, não?


PedRodrigues

domingo, 11 de agosto de 2013

Croniquinha egocêntrica

Sinceramente? Sou bom. Sou o melhor. Sou o tal. Sinceramente? Não há quem me ganhe. Não há quem me derrube. Não há. Eu sou o melhor. Sou Deus. Sou os homens. Sou aquilo que acontece e que vejo e que se derruba nas horas que teimam em passar. Sou. Não me nego. Embarco. Se tiver de chorar? Foda-se, choro. Limpo as lágrimas, olho o mundo, penso: não deixarei nada por fazer. Paro. É mentira. Deixarei tanto por fazer… Mas farei muito. Farei mais que todos os outros. Serei mais, serei melhor, serei eterno. Sou aquilo que posso ser. Aquilo que me permito ser. Sou a dor do actos. A angústia da espera. Sou a bílis da incerteza. O vómito carne do desespero. Sou o não saber. Sou o amor. Sou aquilo que amo e quem amo. Tudo junto.  Sou os mexericos, a merda que sai de boca em boca, a consequência de ser algo ou alguém. Sou como devo ser e não me multiplico em aventuras utópicas. Amo-me  e sei por que razão me devo amar. Sou uma pedra em muitos sapatos. Sou uma pedra partida em vários sapatos. Sou dores no corpo. Aquele sorvedouro e aquele aperto miudinho no peito. Sou o bom e o mau. O vilão e o herói. Tenho ondas de palavras e espero ansioso pelas marés. Vejo-me e entrego-me a mim. Espero pelas balas do escárnio. Pelas setas da inveja. Espero como um homem. Espero de peito feito com coragem. Amo-me hoje e detesto-me amanhã. Mas amo-me. Gosto de mim, porque é bom ser quem sou. E eu sou tão bom. Se me pudessem ver como sou, escreveriam histórias eternas. Se me pudessem ver como sou, fariam de mim quem todos esperam que seja. Mas eu sou. Porque devo isso a mim. E se eu não for, mais ninguém será. Olho-me e vejo-me e sonho-me. Um dia serei quem devo ser. Amanhã talvez seja quem devo ser.


PedRodrigues

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Aos falsos amigos

Irritam-me os falsos amigos. Aqueles que sorriem connosco quando tudo está bem e  que, num passo de magia,  teimam em desaparecer quando as coisas dão para o torto. Irritam-me os complôs e os mexericos que se vão multiplicando de boca em boca. Irritam-me as pessoas que inventam histórias da carochinha sobre tudo e sobre todos. Irritam-me, especialmente, os maus-olhados, os quebrantos e todos esses vudus fulminantes. Há quem nos julgue à distância e nos transforme num herói, ou num vilão. É engraçado como temos a tendência suicida de julgar tudo na vida. Não deixamos acontecer porque tem de acontecer. Não deixamos ser porque tem de ser. Julgamo-nos a nós e aos outros, como se tudo na vida necessitasse de um julgamento. Julgamos e somos julgados. Mas, no final das contas, nunca somos tão maus como nos pintam, nem tão bons como imaginamos.  Ou vice-versa. Há muitas bocas a mendigar por um pingo de atenção. Há disparos homicidas em cada tertúlia das cinco da tarde. Há cinismos que nos corroem devagarinho como um ácido. Há os vampiros das amizades e toda uma cambada de seres fantásticos que vivem das desgraças alheias. Uma escória de camaleões que jogam com todas as cores. Não sei qual o motor que os move, nem por que razão são como são, mas acredito na infalibilidade da terceira lei de Newton: uma acção está sempre sujeita a uma reacção oposta de igual intensidade.


PedRodrigues

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Isto não é uma carta de amor

Não te escrevo uma carta de amor porque as cartas de amor estão sobrevalorizadas. Escrevo-te um texto. Deixo-te o meu coração nesse texto. Deixo-te aquilo que tenho e não invento o que não tenho. Escrever, para mim, é um acto sagrado. É uma espécie de confissão – e as confissões devem ser sinceras. Deixo-me em cada palavra e espero que me encontres nessas mesmas palavras. Procura-me.
É estranho como os meus pensamentos teimam em girar na tua órbita. Não é estranho. Na verdade não é, nem um pouco, estranho. Gosto verdadeiramente de ti, e é por isso que te procuro quando não estás. Encontro-te e guardo-te, porque a minha memória fotográfica me permite que assim seja. Ficas comigo, mas imaginar-te não chega. Talvez por isso te escreva este texto – este pequeno texto. Porque necessito de te recordar que imaginar-te não me chega. Porque necessito de te recordar que espero ansiosamente o toque de veludo dos teus lábios, o calor do teu corpo, a textura da tua pele. Espero por ti. Se puderes, não demores. Se demorares, lembra-te de mim.

Até já.
Mesmo que demores,
Até já.


PedRodrigues

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Finais felizes (5)


Somos aquilo que o mundo convencionou como um final feliz. Somos a primeira pessoa do plural. Amamo-nos na bonança e não deixamos de nos amar na tempestade. Quando não estamos juntos, temos saudades. Tentamos diminuir a distância a todo o custo: conversamos horas ao telemóvel, trocamos fotos dos nossos dias, abusamos dos beijos virtuais e das juras de amor. Quando estamos juntos o mundo parece diluir-se à nossa volta. Somos felizes, porque a felicidade deve ser este sentimento de parecermos indestrutíveis, à prova de bala, de tempestade e de tudo. Ser feliz deve ser esta coisa de nos rirmos com o corpo todo. Deve ser o sorriso dela e o meu sorriso, ambos, misturados. Deve ser este gosto pelas pequenas coisas, pelos pequenos gestos, por tudo aquilo que parece trivial e banal e mundano. Deve ser
-Eu amo-te – estas palavras ditas com sinceridade e recebidas com sinceridade. Porque a felicidade é um sentimento sincero. É uma condição de ser e de estar sincero. É dizer
-És linda. – sem a necessidade de ouvir algo de volta. É saber que somos porque há palavras no silêncio. Saber partilhar o silêncio e saber conversar no silêncio. Amar de olhares fundidos num só. Aprender todos os dias, ou melhor: querer aprender todos os dias: cada expressão, cada gesto, cada palavra. Porque o amor obriga-nos a querer aprender com a pessoa amada.
-Achas que temos o que é preciso para sermos felizes?
(Silêncio)
-Tu és o que preciso para ser feliz.
(Sorriso)
-E quem me garante que amanhã não mudas de ideias? Quem me garante que daqui a alguns anos não sou o teu passado?
-Quem te garante que daqui a alguns anos não és o grande amor da minha vida?
São estas dúvidas que nos fazem continuar. São estas dúvidas que nos fazem querer acordar todos os dias ao lado um do outro e dizer baixinho
-Continuas a ser o amor da minha vida. – dizermos isto com a certeza absoluta de que as coisas são mesmo assim e que o contrário seria impossível. Porque na realidade ainda há finais felizes.
-Acreditas em finais felizes?
-Acredito. E tu?
-Digo-te e repito-te: és o meu final feliz.
Há finais felizes nos filmes, nos livros, nas músicas. Há aqueles que defendem que não há finais felizes porque entendem a expressão como uma contradição. Há os céticos, os snobes do amor, os filósofos das relações. Há toda uma cambada de artistas que nos fazem duvidar. É normal. Mas eu continuo o tolo que acredita em finais felizes. Ela fez-me acreditar nisso. Ela fez-me acreditar que, a cada entretanto que passamos juntos, vivemos um final feliz. E todos os dias lhe agradeço por isso.


PedRodrigues

terça-feira, 16 de julho de 2013

Finais felizes (4)


Agora que te tenho, que seria de mim sem ti? Tornaste-te nas minhas manhãs, nas minhas tardes, nas minhas noites. Tens-me, tenho-te, temo-nos.
-Obrigado. – dizia-lhe ao ouvido, enquanto as minhas mãos percorriam as costas dela. Sentia-lhe a pele arrepiada. Há suores que ficam guardados nas narinas. Cheiros que se incrustam na memória. O teu cheiro é esse cheiro eterno que vive nas minhas almofadas, nos meus lençóis, nas minhas camisas – que teimas em usar todas as manhãs. O teu batom é o batom que me suja os colarinhos. Não suja, porque o que é bom e nos faz bem não suja. Os teus lábios despidos de mim são uma tentação à escala mundial. Percorro-te o corpo e digo-te
-Obrigado. – porque é bom ter-te e sentir que me tens. Porque é óptimo amar-te e sentir-me amado. Porque aquilo que fazemos - o amor que fazemos – é poesia entre os corpos. Sentir o teu sangue a palpitar nas veias, os teus gemidos de prazer, a sofreguidão dos teus beijos. Amar-te antes, durante e depois. Ser o porto seguro onde a tua cabeça se atraca. O meu coração é esse porto seguro. Fica um pouco mais e deixa o mundo acontecer, sem nós, lá fora. Conta-me todos os teus segredos. Ou deixa-me contar-te todos os meus segredos. Guarda-os. Guarda-me. Deixa-me guardar-te.
-És tu. És mesmo tu.
-Não sabes como é bom ouvir isso.
-Fica comigo só mais um pouco. Fica comigo e diz-me que sou tudo para ti.
-És tudo para mim. És o meu final feliz, porque eu sempre acreditei em finais felizes. És a peça certa. És o final da busca. És linda, mas não és apenas linda: és o todo. – dizer-te isto desarmado e esperar pelo teu sorriso. E um sorriso teu é resposta suficiente. A sinceridade do teu sorriso é tudo o que posso pedir. Há gestos que nos definem. Tiques que não nos deixam mentir. Não há bluff no brilho dos teus olhos. Não há enganos no teu sorriso.
-Sentes como eu sinto que cada momento que passamos juntos parece eterno?
-Não acredito na eternidade. Mas acredito que um segundo de amor pode parecer uma vida – ou vice-versa. - beijou-me e calou-me. Por vezes precisamos destes pontos finais que escrevemos com os lábios. Precisamos que alguém marque o ritmo da composição. Ela é o meu ritmo. Ouviste? És o meu ritmo.
Agora que te tenho, que seria de mim sem ti? Pergunto-me repetidamente enquanto olho as curvas dos teus seios despidos. Pergunto-me e tento responder, mas há perguntas que não têm resposta. Há coisas que não fazem qualquer sentido. Imaginar-me sem ti é roçar o absurdo.
-Parece que te olho sempre pela primeira vez.
-Ainda bem. Enquanto assim for, estamos no caminho certo.
Só queria que vissem o sorriso dela. Só queria que vissem a sinceridade do sorriso dela.

(...)

PedRodrigues

sábado, 13 de julho de 2013

Finais felizes (3)

Dei por mim levado pela maré dos amores de Verão. Apaixonei-me dezenas de vezes. Descobri que, afinal, se nos permitirmos, podemos ser felizes. Descobri que a adrenalina da busca se torna num afrodisíaco poderoso. Apaixonei-me por todo o tipo de mulheres. Partilhei várias conversas de cabeceira. Expus os meus medos e ouvi os medos delas. Algumas vezes partilhávamos os mesmos medos. Alertavam-me que já não acreditavam no amor. Que tinham desistido de procurar o homem certo
-São todos uns cabrões. Desculpa, mas são. – eu ouvia atentamente e por vezes calava-me a olhar para lado nenhum. Outras vezes respondia
-Nós somos uma espécie de máquina de gerar insatisfação. Estamos errados, mesmo quando estamos certos. A meu ver, nem tu podes dizer que todos os homens são cabrões, nem eu posso dizer que todas as mulheres são um veneno. Há biliões de pessoas em todo o mundo, como é que podemos dizer que aquilo que conhecemos é uma regra? Não podemos. Eu acredito que a pessoa certa para mim está por aí e quando a encontrar o resto será só isso mesmo: o resto. Nós fomos formatados para encaixar em alguém. Tudo na vida se resume a um par. Pode parecer uma filosofia barata, mas é nisto que acredito. – algumas olhavam-me com desconfiança, como se soubesse realmente de algo que elas não sabiam. Não sabia, apenas acreditava e acredito no amor. Sempre tive quem olhasse de lado para mim por acreditar no romantismo como uma forma de vida, mas isso nunca me interessou. Era a minha forma de encarar a vida, a minha forma de estar cá e sentir que vale a pena estar cá.
Procurar. A nossa vida é uma procura constante: pelo amor, pela felicidade, pelo sentimento de plenitude, por algo, por alguém. Somos aquilo que procuramos. Somos o produto daquilo que procuramos. Somos poesia em forma de ossos e de carne e de confusão. Às vezes dou por mim à deriva – aliás, como agora. Dou por mim mais confusão que carne e que ossos. Porque é essa confusão que nos faz avançar. É essa confusão que nos faz procurar. E eu tenho procurado.
-Ela pode estar em qualquer lado. Quem me garante que já não esbarrámos um no outro? – dizia eu numa dessas noites de conversa com os amigos.
-Ninguém te pode garantir isso.
É esta a verdadeira piada da busca, da procura, da jornada: a incerteza. O não saber se chegámos à Índia, ou ao Brasil. Se há terra à vista, ou se estamos encalhados no meio do nada. É o não saber. É o sentir um par de olhos na nossa direcção. Sentir esses olhos nos nossos olhos: a lerem-nos a alma. Porque é esta a coisa engraçada dos olhos: lêem a alma. Entender nos lábios
-É giro. Vai falar com ele.
Sentirmos que somos o “ele” que os lábios gesticulam. Sentirmos e sermos. Olharmos para ela e pensarmos baixinho como que às escondidas de nós mesmos: “Vem falar comigo. Por favor, vem falar comigo.” Esperarmos no nosso canto, isolados dos nossos amigos. Ficar? Avançar? Que fazer? Deixarmo-nos envolver pelo momento e pelo tom moreno hipnotizante da pele. E cegos de razões, talvez fulminados pelo brilho avelã do olhar, seguirmos em frente – sem medo.
-Quem me garante que não és tu?
-Devo ser eu.
-Espero que sejas tu.
-É agora que me dizes que és o homem da minha vida?
-Não, é agora que te digo que és a mulher da minha.


 (...)

PedRodrigues

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Finais felizes (2)

Acordei com a sensação de tudo estar certo no mundo. Alinhei o meu coração com o relógio. Decidi verdadeiramente esquecer-me dela. Levantei-me com a certeza de a ter enterrado no passado. Guardei o que havia para guardar numa caixa: juras de amor, roupas, bijuteria, fotografias. Guardei o fantasma do amor passado numa caixa e jurei nunca mais a abrir. Jurei a mim mesmo, a pés juntos
-Aqui acabou o nosso amor. – e assim sendo, enterrei-a no fundo da despensa, junto do pó e das coisas que não têm valor. O mundo continuou a parecer-me certo. Na rua tudo continuava como dantes: pessoas, carros, árvores, calçada, mais pessoas, mais calçada, um gato vadio e todas as outras constantes que fazem parte de todas as ruas. Olhei o mar da janela - sim, conseguia ver o mar da minha janela. Respirei fundo: uma vez. Respirei fundo: novamente. Tudo estava certo no mundo. O meu coração batia em harmonia com as horas do relógio. Harmonia. Que saudades dessa sensação de tudo estar no seu devido lugar. Um dia julguei que, sem ela, o mundo deixaria de ser mundo. Felizmente estava errado.
Há os amigos e depois há elite dos melhores amigos: aqueles que estão quando estamos bem e que não desaparecem quando estamos mal. Aqueles que nos dizem
-Erraste. – quando pensamos que estamos a percorrer o caminho certo. Ou que simplesmente nos ouvem nos momentos de confusão. Porque por vezes é mesmo isso que precisamos: alguém que nos oiça. Alguém que alinhe nos nossos monólogos e acene com a cabeça. Todos os grandes amigos são excelentes ouvintes.
-Hoje enterrei-a no fundo da despensa. Ficou lá, junto das esfregonas e das coisas que não utilizo. Sei que não foi a ela que enterrei, mas sinto como se tivesse sido. Enterrei a memória dela, entendes? – ele entendia, claro, mas permanecia mudo, a ouvir-me. Eu continuava – Dediquei-lhe uma vida. Sete anos são uma vida, ou pelo menos pareceram uma vida. E segundo ela os amores desgastam-se com o tempo. Segundo ela: por muito que se goste de uma canção, passado algum tempo, fartamo-nos de a ouvir. – parei para respirar e beber um pouco do fino que transbordava de espuma à minha frente – Cansou-se de mim. Sou uma canção velha e repetitiva, já viste?
Acenou com a cabeça, brindou comigo e disse-me
-Lembras-te de uma vez te ter dito que andava a ler Robert Frost?
-Sim. O que tem?
-Uma das citações mais famosas dele diz o seguinte: “In three words I can sum up everything I’ve learned about life: it goes on.”
E realmente é verdade: a vida continua. Connosco: comigo, com ele, com ela, com todas as outras pessoas. Continua: com ou sem nós. Podemos continuar com a vida: todos, ou cada um por si. Não há como fugir a isto. A minha vida continua sem ela. Continua.
-Aquela rapariga está farta de olhar para ti… - dizia-me ele convidando-me ao desafio. Olhei-a. Vi-a. Era bela, ou a luz do sol reflectida nos cabelos dela tornava-a bela. Escondia os olhos atrás dos óculos e os dentes atrás dos lábios. Sorriu. Continuava bela. Naquele momento, entre o sorriso e a devolução do sorriso, senti um sorvedouro miudinho no estômago. Duas ou três incertezas: será que o sorriso era mesmo para mim? Que estará a pensar de mim? Como abordá-la? Tantas dúvidas e tão poucas certezas. Tanta coisa que nos escapa e que teimamos em tentar entender. Tanto medo de falhar. Tanto medo de não alcançar. Tanto medo de não corresponder.
-Confesso-te que estou destreinado.
-Não penses demasiado.
-Como é que isso se faz?
-Olhas para ela e deixas-te perder.
-E se não me encontrar?
-É bom sinal. – sorriu, como se guardasse todos os segredos do mundo nele. E como não acreditar em quem guarda todos os segredos do mundo? Respirei fundo, terminei o fino, levantei-me da cadeira e atirei-me ao desafio. Pensei para mim
-Que se lixe! Ninguém segue em frente sem dar o primeiro passo.

(...)

PedRodrigues


terça-feira, 9 de julho de 2013

Finais felizes (1)

Claro que depois de ti continuarei a ser. Claro. Embora me custe, embora me doa, embora tudo pareça estranho, confuso, dramático. Continuarei a ser: serei.
-Amar-te foi um passo que dei em vão. – disseste-me: alto e em bom som, para que as palavras entrassem e ficassem cá dentro. Para que não as esquecesse. Não as esqueço. Mesmo que as tivesses murmurado não as esqueceria. Dissemos muita merda um ao outro. Deixámos as coisas chegarem ao ponto em que não há retorno possível. Mutilámo-nos. Hoje estou para aqui aos bocados. Continuo a ver-te ocasionalmente – será que também me vês? Vejo-te e recordo-te como eras quando ainda estava contigo. Depois suspiro
-Sou um merdas… - porque no fundo devo mesmo ser. Vi-te partir e deixei-te ir na tua mão. Fiquei estático. Não me ocorria nenhuma deixa que te fizesse voltar. Não me ocorria nada a não ser o timbre do sangue a fervilhar nas veias. A vontade de desaparecer, ou de te fazer desaparecer. Ferveu-me o sangue até me aperceber que sem ti posso ser, mas não serei o mesmo. O amor tem destas coisas: entregamo-nos a alguém e esperamos que essa pessoa guarde o que lhe entregamos para sempre. Mas, para nosso azar, nada dura para sempre. Para meu azar nada dura mais que aquilo que deve durar.
Hoje continuo a ser. Vagueio pela cidade numa busca incansável por algo que me preencha. Algo, alguém, tudo, nada. Não entendo. Não me entendo. Procuro, encontro e durante o processo estou vazio. Colecciono números de telemóvel e conversas aleatórias. Deito-me a contemplar o tecto. Penso
-Será que um dia? – talvez um dia. Talvez um dia tudo volte ao normal. E que pensamento ridículo, sem pés nem cabeça: o que é o normal? Quem me garante que eras um ponto final? Quem me garante que depois de ti a história acaba? É como aquela coisa do “não me digas que o céu é o limite, quando há pegadas na lua”. Quem me garante que o normal não começou agora? Quem me garante que não foste a fase anormal da minha vida? Hoje estou vazio, é certo. Mas esse vazio é espaço suficiente para que alguém, um dia, me preencha. Vejo-me, neste momento, como uma oportunidade. Uma oportunidade de ser feliz e de fazer alguém feliz.
No telemóvel desdobro-me em encontros casuais com amores de ocasião. Nunca me senti tão mal nesta coisa da busca pelo amor perfeito. Para ser sincero falta-me o jeito de outros tempos. Falta-me a adrenalina de não entender o que quer que fosse. O desejo de partir em busca do desconhecido. Falta-me a juventude dos atos. Dediquei-te sete anos da minha vida. Durante esses sete anos foste o meu engate diário. Tentei reconquistar-te todos os dias. Tentei e julgo que consegui. Descobrir-te foi uma jornada. Entender-te foi uma aventura. Mas hoje tudo é tão diferente. Contigo sabia que pontos apertar. Entendia as tuas feições como se fossem uma equação simples. O tom rosado do teu sorriso em crescendo quando estavas feliz, os tiques nos olhos quando estavas irritada, a falha nas palavras quando estavas triste. Fui-te descobrindo e guardando os pormenores do teu jeito de ser até tudo se tornar simples. Reconquistar-te, todos os dias, tornou-se tão natural como respirar. Infelizmente, hoje, as coisas não são assim tão simples. Cada mulher é um desafio diferente. Cada uma tem as suas particularidades. Cada uma tem algo que a distingue de todas as outras. Era tão mais fácil que todas fossem como tu.
-Foda-se! – ainda bem que nenhuma é como tu. Não te vejo como um erro. Claro que não o és. Mas a verdade é que não gostaria de te repetir. A verdade é que foste aquilo que acabou. És o que ficou para trás. Preciso de um novo mundo. Preciso de uma nova aventura que me leve à loucura – saudável. Uma companheira de todo o tipo de crimes amorosos. Um ombro amigo, uma boca beijoqueira, uma tola – sim uma tola -, uma doida varrida – sim uma doida varrida – na cama. Preciso de alguém que me leve do oito ao oitenta em menos de um segundo. Alguém que me faça feliz: verdadeiramente feliz. Porque eu mereço. Porque, no fundo, eu mereço ser feliz. Mereço um romance. Mereço uma folga dos amores de bolso. Mereço ser como este sonho que de mim se aproxima. E mereço deixar-me dormir nesta hora. Porque amanhã começo a busca pela certeza do amor. A certeza, real, do amor.

(...)

PedRodrigues

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A cantiga do bandido


É a velha máxima do

-Eu gosto de ti...

Dito assim, na brincadeira. Vai na volta às vezes até lhe sai com sinceridade. Às vezes a coisa vem mesmo de dentro - sabe-se lá de onde. Tanta gente a falar naquela coisa do amor. As raparigas que desenham corações e o tentam prender dentro desses corações. Tanta coisa que ele não entende. Elas para ele

-Fazes-me sentir especial

Enquanto ele vai piscando o olho a outra, ou trocando mensagens às escondidas. Porque as coisas são mesmo assim e uma pessoa não se pode ficar pela monogamia. Dizem que vai contra o metabolismo dos homens. Dizem que somos uns porcos e uns estúpidos e que não temos coração

-Coração?

E eis a pergunta que vai ficando na cabeça de muitos: coração? A ideia com que se vão enganando

-Eu amo-a. Posso ter três ou quatro amantes, mas no final das contas eu amo-a.

Vão brincando ao amor porque não o entendem – ou não querem entender. Vão colecionando mulheres porque é assim que deve ser. Porque são fascinantes e desafiantes e são a melhor coisa do mundo. E à medida que as colecionam fazem-nas sentirem-se especiais. Vão-nas mimando e guardando, até se fartarem delas. Quando o fascínio desvanece e o desafio acaba, elas passam de melhores do mundo a um simples empecilho

-Eu gosto de ti, mas amo outra e não posso fazer nada quanto a isso. Tu entendes, não entendes?

Elas não entendem. Como poderiam entender?

-Como pude ser tão parva?

(Lágrimas, lamentos, súplicas)

-A culpa não é tua, é minha...

Assim dito como quem sente realmente a coisa. Como quem sabe o que é sofrer. Isto sempre num tom melancólico

-A culpa não é tua

A culpa é do metabolismo. A culpa é das hormonas que andam aos saltos - e das mulheres que as fazem disparar. Mas no fundo, no fundo, a culpa é mesmo daquela característica que os distingue do restante reino animal: são uns românticos incuráveis: apesar de partilharem a cama com várias, amam apenas uma. E entre flores e beijos lá vão cantarolando a cantiga do bandido. Lá vão espalhando o amor pelas freguesias

-O amor?

Ou outra coisa qualquer que ainda não lhe sei o nome. Lá se vão desdobrando em mil e esperando que a coisa não dê para o torto. Mal sabem esses artistas que a mentira tem perna curta. E que a parvoíce feminina começa onde a nossa termina.
 

PedRodrigues

segunda-feira, 17 de junho de 2013

À avó que me morreu

Morreste-me. Há sete anos: morreste-me. Ainda me lembro de tudo: do cheiro a Verão à hora de jantar, do timbre da voz que nos deu a notícia, do pôr-do-sol a esgueirar-se pelos vidros das janelas, da cara da mãe, da cara do avô. Lembro-me de tudo e nada disso me traz conforto. Morreste-me. Há sete anos que me pergunto todos os dias como seria se ainda por cá estivesses. Se continuarias a sorrir como sorris nas fotos que encontrei nas caixas lá por casa. Adoravas quando o mundo sorria – quem não adora, não é? Ainda hoje me pergunto como seria se cá estivesses para me dar força. Como seria se cá estivesses para dar força à mãe e ao avô. Sentimos todos a tua falta. Sentimos muito a tua falta. Lembro-me que há sete anos, ao saber da notícia, corri para a praia em busca do conforto de uma resposta que julgava estar enterrada na areia, ou escondida no barulho das ondas a vergarem-se sobre si. Procurava uma resposta para a perda. Tinhas-me morrido. Nunca mais te iria ver. Nunca mais iria sentir as tuas rugas a beijarem-me a cara. A tua voz não voltaria a chamar o meu nome. Quantas vezes chamaste o meu nome? Um milhão? Dois milhões? Não o chamaste vezes suficientes. Sinto tanta falta de ouvir a tua voz a chamar o meu nome. Hoje és as lágrimas que choro. És as lágrimas que choramos. Morreste-nos, mas o nosso amor por ti não morreu contigo. Jurei há sete anos que iria visitar a tua campa sempre que pudesse. Não tenho cumprido essa promessa. Desculpa-me. Há uma tristeza que se veste de mim de cada vez que entro no cemitério. Quando olho a tua fotografia imagino-te a repousar serena em algum lugar distante. Imagino que um dia voltarás e me beijarás novamente e dirás que tudo está bem. Imagino o sorriso do avô ao ver-te. Imagino isso tudo e depois percebo que não passa disso, da minha imaginação. Choro por dentro e aguento um pouco para que a mãe não me veja a chorar. Não quero que ela chore. Não quero que ela me diga que chorar faz bem e depois tente aguentar as lágrimas dela de modo a se mostrar forte. Perder quem amamos é como perder uma parte de nós. Há algo que parte e não volta. Há um luto que vive connosco e sobrevive cá dentro com as recordações que guardamos. Se fizer força ainda te consigo ouvir a chamares-me para jantar. Todos os dias falamos em ti. Todos os dias recordamos com saudade o teu lugar na mesa. O avô tem sido um guerreiro na tua ausência. Mas todos os guerreiros acabam por cair. Tenho medo de o ver cair. Não me imagino sem ele, assim como não me imaginava sem ti. Pergunto-me tantas vezes como me tenho aguentado sem ti. Morreste-me. Há sete anos morreste-me. Há sete anos proibiram-me de te ver a repousar serena de pálpebras fechadas. Pediram-me que me lembrasse de ti a sorrir. E é isso que tenho feito. Recordo-me sempre de ti em todo o teu esplendor. Recordo-me de ti com toda a saudade que é humanamente possível guardar. Amar-te-ei sempre na mesma quantidade. Passem mais sete anos, ou setenta, viverás guardada em mim. A sorrir. Sempre a sorrir. No que de mim depender, não serás esquecida. Sentimos a tua falta, avó. Onde quer que estejas, olha por nós. Olha por mim. Não te esqueças de mim. Nunca te esqueças de mim. Tenho tantas saudades tuas. Avó. És esta lágrima que desce o meu rosto. Morreste-me. Há sete anos morreste-me, mas eu não te esqueço. Avó. Amo-te. Avó.


PedRodrigues