sexta-feira, 30 de junho de 2017

Poesia

E ela tinha poesia na pele, como uma tatuagem que me contava histórias. Não com palavras, com imagens. Tudo me fazia perder nos caminhos do corpo. Nos labirintos que outros julgaram saber percorrer. Durante um tempo tudo isso era meu. Pertencia às minhas mãos, aos meus lábios, à minha língua, aos meus olhos. Tudo isso eu conseguia ver, cheirar, tactear ao de leve, com a inocência de alguém que não sabe aonde irá chegar. A voz dela embalava-me como o som do mar a ecoar dentro de um búzio antigo. Mas não era apenas isso que me prendia a ela. Não era isso que me fazia ficar. Havia algo nos olhos, um brilho estelar, que me fazia sentir único. E o sorriso. O desarme perfeito. Natural. Tudo isso era poesia. Uma bonita poesia. 


PedRodrigues

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Solteirismo

É Junho, estou sozinho em casa a pensar em velhas conversas. Tenho os acordes e a voz melancólica de Cigarettes After Sex a tocarem no computador, enquanto escrevo as palavras à pressa, com medo que me escapem. Quase tudo me relembra outros Junhos, com músicas mais alegres, com mais sol na pele e menos atrás das vidraças. Efectivamente, a vida muda. Nós mudamos com ela e não há como lhe escapar. Mas há coisas que se arrastam, como as pequenas ondas na maré vazia. Cada coração tem o seu ritmo, ao que parece. E o meu tem vindo a debater-se com o passado, sem vontade de dar ao futuro uma face, com nome e apelido. Não sei se por teimosia. Não sei se por medo. Não sei. Sei porém que, de todos os lados me chegam as pressões de avançar, de encontrar a pessoa ideal. Mas eu respondo que não acredito em pessoas ideais; em obrigações sociais de amar alguém para não estar sozinho; em ideias pré-concebidas quando se trata de assuntos do coração. Não sou alheio de imaginar quem corresponda aos limites que invento, mas a vida tem-me ensinado que não vale a pena me prender às amarras impostas. A qualquer momento chega alguém, completamente diferente de tudo aquilo que imaginei e rouba-me o ar, atira-me ao tapete. É como a ideia de gostarmos muito de uma melodia, mas não sabermos a letra: acabamos por cantar palavras que não existem e, no entanto, tudo parece fazer sentido, no fim da canção. Por isso não me condeno por não andar desesperado em busca de um futuro com nome de gente. Eventualmente, acabamos por chegar aos braços certos. 


PedRodrigues

terça-feira, 6 de junho de 2017

Liberdade

“pássaros criados em gaiolas acreditam que voar é uma doença” 
Alejandro Jodorowsky



De que te vale teres olhos
se te obrigam a ver o que querem que vejas?
De que te vale teres boca
se te mandam calar quando tens tanto para dizer?
De que te vale teres ouvidos
se tudo o que ouves são os sons das correntes?
De que vale teres nariz
se o que cheiras são as cinzas da esperança?
De que vale teres mãos
se não és tu que puxas os fios?
De que vale teres pés
se só vais aonde te mandam?

De que vale teres asas,
se estás preso numa gaiola?

Talvez voar não seja uma doença.


PedRodrigues