sábado, 3 de novembro de 2012

Acerca da banalização do Amor


No outro dia na rua

-Eu gosto de ti, mas…

Um casal de miúdos, de mãos dadas, ele para ela

-Gosto de ti, mas não passa disso.

Enquanto ela, desgostosa, de lágrima fácil a pingar do olho, a fugir-lhe com os dedos

-Então por que me iludiste?

E eis que a questão se mantém até hoje na minha cabeça: onde começa e onde acaba essa coisa do gostar com reticências? Depois há aquela coisa do gostar com muitas cores. Dos amores às cavalitas dos arco-íris. Há a ilusão do amor e os ilusionistas do amor. Hoje em dia está na moda o amor assim e assim. Nunca entendi muito bem essa coisa dos amores assim e assim. Nunca entendi aquela coisa do: hoje gosto, mas amanhã logo se vê. Não consigo entender isso porque, para o bem ou para o mal, tenho para mim que o amor é uma espécie de veneno que talvez cure, é uma faca que nos vai mutilando lentamente, ou outra coisa qualquer que nos vai dilacerando as entranhas. Custa-me acreditar nas pessoas que gostam com reticências e que amam com cláusulas contratuais. Custa-me assistir ao declínio do Amor. À banalização dos beijos e à encenação dos gestos românticos – ou vice-versa. De maneira que olho o mundo com uma desconfiança terrível. Assusto-me quando ouço

-Sinto borboletas no estômago

Pessoas de sorrisos nos lábios a trocarem impressões sobre o amor: cheias de certezas e cobertas de dúvidas camufladas. Penso para mim

-Borboletas?

(As imagens de quem amo na minha cabeça.)

Assusto-me novamente. Assusto-me porque nunca senti nada parecido. Todos me falam em unicórnios e estrelas e corações vermelhos e perfeitos. Todos me falam em borboletas, mas eu não sei o que isso é. Eu sinto cólicas, dores, tremores por todo o corpo. E depois há um frio que me gela dos pés à cabeça. Fico estático a olhar para ela. É estranho. Juro que é estranho. Há quem pinte quadros em volta do amor. Eu não encontro cores suficientes para o fazer. Talvez possa descrever o meu coração. Talvez possa dizer que é vermelho carne e que sangra como a carne de quem sente. O amor dói, o verdadeiro amor dói. Mas é essa dor que o torna tão bom. É essa dor que o torna tão intenso. Aliás, é essa dor que o torna real. É essa dor e não

-Sinto borboletas

Os cenários que montam em volta da palavra. É o sentir na carne que se esmaga contra os ossos só de pensar em dizer

-Amo-te

Nunca

-Gosto de ti, mas…

Sentir sem reticências. Olhar e tremer. Tremer muito. Ansiar pelos momentos que virão. Imaginar as estantes cobertas de fotografias. Imaginar-nos a olhar para essas fotografias e sorrir. É nesse momento em que sorrimos sem saber porquê, nesse momento de alegria pura, que descobrimos

-Sou feliz

(E quem nos ama de volta, num princípio de vasos comunicantes, nos retribui esse sorriso

-Eu também sou feliz. Ao teu lado eu também sou feliz.)

O que é o Amor. Não há cores suficientes para pintar o amor. Não há fórmulas mágicas para amar. Mas se te conseguires imaginar emoldurado, a sorrir eternamente ao lado da mesma pessoa, podes acreditar que estás no bom caminho…

PedRodrigues

5 comentários:

  1. Bom dia Pedro,
    As borboletas, são a metáfora dos poetas para a revolta do estômago, que tenho a certeza (pela que te leio) também sentes.
    Um beijo, dos simples!

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  2. As borboletas são simplesmente as metaforas vertiginosas da paixão, na procura incessante da metamorfose do amor

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  3. Borboletas todos sentem, amor, poucos sabem o que é!

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  4. Adoro a maneira como o Pedro se expressa!! Muitos parabéns pelos lindos escritos :)

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