segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O dia em que sonhei ser Fernando Pessoa



26 de Novembro de 1930

Olhamos o sol com medo que nos cegue. Encaramos a vida como devemos encarar: vivendo. O mundo estende-se à nossa volta: infinito e incerto. O sol deita-se na nossa pele e na pele do mundo. Encaramos a vida com medo que um dia ela decida morrer. Tudo o que se estende à nossa volta é infinito e incerto. Nós somos pequenos no mundo. Eu sou pequeno no mundo. Eu sou pequeno para o sol que se deita na minha pele. Sou feito da matéria dos homens, mas não sou como os homens. Sou uma miragem, um reflexo, um desassossego. O mundo estende-se à minha volta e eu sou um fantasma que teima em não existir no mundo. As pessoas esquecem-me para lá das palavras que deixo no papel. Ninguém sabe onde começa o homem e acabam as palavras, ou onde começam as palavras e acaba o homem. Confundem-me com as minhas personagens, com as minhas fotografias, com os meus desenhos. Se um dia quiserem definir-me, definam-me como aquele que gera a confusão. Definam-me como a própria confusão. O Fernando que dá a mão à caneta não é o mesmo que o vidro reflecte. É aquele que dá chão ao sol, mas não aquele que o sol procura. Um dia entenderão estas palavras como as palavras daquele que escrevia para existir. Que a verdade continua a ser esta: eu existo nas palavras que escrevo e para lá dessas palavras sou apenas uma miragem.
Compreendam-me como um ser perturbado, mas nunca louco. A loucura está naqueles que teimam em querer compreender-me. Trancaram-me neste quarto para me apodrecerem a carne. Trancaram-me sozinho, mas esquecem-se que eu nunca ando sozinho. Eu sou aquele que vive estilhaçado pelo tempo. Tenho identidades desconhecidas. Tenho vidas que se multiplicam para lá da própria vida. Sou feito dos deuses que invento e dos homens que me falam baixinho, ao ouvido. Sou um projecto de projectos futuros que, por mais que vocês tentem, nunca irão entender. Nesta escrivaninha coçada pelas unhas dos meus antecessores escrevo-vos o que me permito escrever. Sou o mar que se estende da minha janela e que reflecte o esplendor da vida lá fora. A vida despenha-se na areia com as ondas. Tal como os homens teimam em se despenhar uns nos outros e esquecer os sonhos. Se pudesse inventar um mundo – e posso – inventava-o com homens eternos. Homens que se estendem para lá das ondas e do mar. E onde os sonhos comandam a vida e os homens não têm medo de sonhar.

Fernando



(PedRodrigues)

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