domingo, 21 de outubro de 2012

A janela


Sabes aquele arrepio no estômago de cada vez que passas à janela dela? Ainda não desapareceu.
Hoje ainda me sinto feito de vento de cada vez que lá passo. Torturo-me, arrelio-me, combato-me, mas a verdade é que continuas-me na carne. Quando vais embora?
Não vale a pena fechares a janela. Não vale a pena. Sempre que passo à tua janela, vejo-te acenar. Vejo o meu coração na tua mão: a acenar-me. Amo-te, mas não quero amar-te. Vejo-te, mas não quero ver-te. Os meus tendões contraem-se uns contra os outros de forma caótica. A minha carne – tu – esmaga-se contra os meus ossos. Dóis.  Hoje dóis muito.  E vão passar meses e anos e tu continuarás a doer. Ninguém desaparece do corpo de ninguém. Ninguém se apaga do coração de ninguém. Vivemos marcados pelos estigmas do nosso coração. Eu e tu, tu e eu. Ontem perguntaram-me se era capaz de voltar para ti. Respondi

-Claro que não!

Com toda a convicção do mundo. É estranha esta forma que temos de mentir aos outros quando falamos dos dilemas do coração. É estranha a forma como nos mentimos sempre que o assunto são os dilemas do coração. A verdade é que quero seguir em frente. A verdade é que seguindo em frente tu não estarás. Hoje não estás; amanhã não estarás; depois de amanhã não estarás. A tua janela continua no mesmo sítio, mas tu não. O meu coração continua no mesmo sítio, mas tu não. Se hoje me perguntassem

-Voltavas para ela?

Diria

-Claro que não!

Na esperança que os meus amigos, de palmada nas costas, me reconfortassem com um

-Ela não te merece…

E na minha cabeça tu não me mereces. Na minha cabeça eu finjo que nunca me mereceste. Mas há alturas em que o coração fala tão alto que não conseguimos ouvir nada, nem ninguém. Nessas alturas lembro-me da primeira vez que usei a expressão

-Amo-te

Com todas as letras e sem lapsos. Nesse momento amava-te. Apesar de tudo, ainda te amo. Amo-te porque fazes parte dos estigmas do meu coração. Mas vais desaparecendo lentamente. Eu vou seguindo em frente com a corrente. E a corrente traz sempre coisas belas consigo. Quem me garante que a minha felicidade não está à distância de uma palavra, ou de um olhar indiscreto? Quem me garante que a minha felicidade não me sorriu por aí?
Não sei se me estás a ler, mas… Sabes aquele sorvedouro no peito e aquele arrepio na pele? És tu.

Hoje ainda te amo. Amanhã não sei.

PedRodrigues

(Texto parcialmente escrito durante o TEDxCoimbra)

8 comentários:

  1. Não há palavras para as tuas palavras. Adorei!

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  2. Obrigada pelas belas palavras que continuas a tornar transparente da tua mente e coração. Simplesmente lindo. Continua assim :)

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  3. Tenho identificado a tua dor com a minha própria dor, e gosto muiuto das palavras que usas para te exprimires. Continua, penso que estás no bom caminho. Pelo menos é o que me dizem os meus amigos.

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  4. É tão puro, tão perfeito *.*

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  5. "É estranha esta forma que temos de mentir aos outros quando falamos dos dilemas do coração. É estranha a forma como nos mentimos sempre que o assunto são os dilemas do coração."
    Nunca me tinha apercebido, ou talvez simplesmente não quisesses aceitar mas, esta é das coisas mais verdadeiras que já alguma vez foi dita. É no mínimo irónico que, o Homem, o animal mais racional de sempre, padeça perante 'as coisas do coração'.
    Talvez seja a nossa natureza, o instinto de sobrevivência, de auto-preservação... O que mais uma vez é contraditório porque viver isolado é impossível e anti-natura.
    Nego e renego as 'as coisas do coração', pensava que era bom; fizeste-me ficar na dúvida...

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    1. "É estranha esta forma que temos de mentir aos outros quando falamos dos dilemas do coração. É estranha a forma como nos mentimos sempre que o assunto são os dilemas do coração. A verdade é que quero seguir em frente. A verdade é que seguindo em frente tu não estarás. Hoje não estás; amanhã não estarás; depois de amanhã não estarás. A tua janela continua no mesmo sítio, mas tu não. O meu coração continua no mesmo sítio, mas tu não."

      Por isto e por todo o trabalho, parabéns! :)

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