quinta-feira, 4 de maio de 2017

Depois de Coimbra

Não te vou falar no depois. No final, quando tudo acaba, quando rasgas o traje e também rasgas um pouco de ti, um pouco da pele que um dia foi tua. Não te vou falar das noites em que voltas e recordas todos os risos, todas as aventuras, todas as lágrimas choradas porque algo não correu bem, todos os murros na mesa porque algo tinha de mudar. Não te vou falar da saudade. Que durante anos era apenas canção, uma possibilidade remota que um dia talvez chegasse. Não te vou falar nos copos, nas histórias, noutro lugar, noutro fuso horário, sem o sol de Coimbra a queimar-te os poros da pele, a chamar-te para que olhes com atenção o rio, para que decores os traços das pedras, as esquinas de todas as ruas. Não te vou falar do amor às pessoas com quem partilhaste tudo isto, com quem disseste para a vida, mesmo que a vida vos tenha levado para longe, mas que não esqueces e procuras saber se tudo está bem porque durante algum tempo o mundo foi vosso - e continuará a ser. Não te vou falar em serenatas, em choros de guitarras que te correm pelos olhos como um rio que se perpetua ao longo da saudade. Não te vou falar em metamorfoses, em casulos: de todos os miúdos que acabam por ser homens no final, senhores do depois, meninos do agora. Não te vou falar de nada disso. Porque de tudo isso já escrevi. De tudo isso já sangrei pelos dedos em textos à cidade. Em juras de amor eterno a um espaço, a um lugar que para sempre me pertencerá, por ser de mim o que sou, por ser de mim as palavras, os amores, as mágoas. E cujos pés me trouxeram até onde estou, depois desse adeus. Não te vou falar de nada do que vem depois, por não ter o direito de o fazer. Aproveita o momento. Guarda-o com força. Um dia vais perceber, com quantas letras se escreve a saudade. 


PedRodrigues

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