segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Cadernos da cidade nova [09/10/2017]

Às vezes fecho os olhos e penso no lugar onde os meus pés estão pousados. Se estiver a ouvir uma música, essa passa a ser a banda sonora desse momento. Nesse lugar, nesse momento, por vezes, a minha vida é toda um sopro, que acontece num fechar de olhos. E dou por mim a arrepender-me das viagens que não fiz, das bocas que não beijei, das danças que neguei, dos amanheceres que perdi, por estar demasiado cansado. Esqueço os momentos em que fui feliz: os gritos de vitória, os sorrisos, os brindes, as fogueiras na praia noite adentro, os países onde me perdi. Tudo isso se aparenta muito pouco, tendo em conta tudo o resto. Sinto-me preso à ideia que por mais momentos felizes que tenhamos, basta um momento de infelicidade para nos sentirmos as pessoas mais azaradas do mundo. E dou por mim a amaldiçoar todas as bocas que teimam em me tentar esmagar, esquecendo de agradecer todos os ombros que na maior parte do tempo me carregam e me aproximam do céu. Somos uns fatalistas do caraças, penso, enquanto dou um murro na mesa e olho novamente para o chão onde os meus pés estão assentes. Se a vida fosse sempre a direito o nosso coração seria um músculo cansado. São os altos e os baixos que o acordam e o fazem bater com força. Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro, disse-o Freud, com toda a razão. Já que não nos foi dada outra matéria durante a criação, usemos o que temos da melhor maneira. Aprendamos a agradecer o chão que vamos pisando, de sorriso no rosto, dando graças a quem nos carrega em ombros e esquecendo quem nos quer a cabeça junto às pedras da calçada. O nosso tempo é demasiado sumptuoso para ser perdido com ninharias. 



PedRodrigues

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