domingo, 16 de julho de 2017

Uma canção para um coração partido

Disseste-me adeus diz-se aos mortos, mas que querias que dissesse a não ser um adeus? Não tinha mais que dizer. Não que quisesse matar-te no meu coração, a tiro de revólver. Nada disso. Só queria que deixasses de doer por dentro. Que deixasses de ser essa memória que me atormenta nas noites de insónias. Não tinha mais que dizer. Não tinha como desligar a tua voz na minha cabeça a repetir o meu nome. Porque o pior das tempestades vem depois, quando tudo são destroços e nada parece pertencer ao seu lugar. O depois é incerto, como a letra de uma música que cantamos, sem acertarmos as palavras. Nada pertence. Nada encaixa. Mas acabamos por embalar na melodia e abanar a cabeça, gastando toda essa energia, toda essa força de lágrimas e ais. Não queria dizer-te adeus, mas tive de o fazer. Porque a canção, como tu, também acaba. A canção, como tu, também teve o seu tempo. Não queria matar-te no meu coração, juro. Apenas desligar-te um pouco. Um pouco; um pouco; um pouco. Apagar as tuas fotografias, o teu número de telemóvel, afogar-te em seis copos de um vinho de uma boa casta, uns copos de gim: queria que a tua memória acabasse por ficar dormente. Convidar-te a sair. Adeus, mesmo tendo vontade de dizer um até logo. A minha vontade era essa: soltar um adeus com o som de um até logo. Não sei como podemos amar tanto o que nos destrói. Mas também não me imagino a ser um marinheiro de mares calmos. Sempre me apaixonei pelas tempestades. Mesmo que o depois. Mesmo que depois… E a nossa música continua a tocar. Comigo aqui. Contigo algures pelo mundo. Espero que ainda saibas a letra. Eu continuo a cantá-la e a dançá-la entre os destroços de um coração partido. 


PedRodrigues

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