domingo, 25 de dezembro de 2016

Desabafo

E tu carregas no botão, como que tentando retroceder para um lugar que já foi teu, onde julgas ainda pertencer. Acabas sempre por lá voltar, como um pássaro teimoso que, mesmo estando longe muito tempo, acaba sempre por regressar. E mudas de roupa, mudas de casa, mudas de canal, mudas de vida, mudas de supermercado, mudas de código postal, mudas de hora, mudas de mês, mudas de ano… Mas não mudas de coração, não mudas de amor. E ouves músicas no Youtube, que deviam ter a advertência baseada em factos reais, por serem a melodia das tuas tragédias. E na televisão dão filmes em que no final todos vivem felizes e tu chateias-te com os filmes porque são sempre a mesma treta e apetece-te gritar: é tudo mentira. Mas estás tão cansado de tudo e todos que nada dizes: eles que descubram sozinhos. E acabas a pensar que o tempo te azedou, como um vinho fraco. Então olhas para cima, para o tecto, desejando as estrelas, a lua, ou apenas um lugar distante onde pudessem sentir a tua falta. Talvez te escrevam um poema, e quem te ama o leia vezes sem conta, para que possas estar mais uns momentos. Somos tão pouco tempo. E não há botão para retroceder aos lugares onde fomos felizes. A vida é mesmo assim, e entramos nela como quem entra numa rua em sentido contrário, com medo do que vem de frente. E danças ao volante, desviando-te dos perigos. Ou talvez não seja nada disto, e tudo o que precisas é fechar a página, fechar o computador, fechar os olhos, fechar o passado numa gaveta qualquer e ir - simplesmente, ir. Porque no fundo a vida é mesmo assim: vamos indo - eventualmente acabamos por chegar ao nosso destino. 


PedRodrigues

2 comentários:

  1. Vira a página. Acaba o capítulo. Guarda o livro da melancolia.
    Deixa fresta para o novo entrar. Sim, estou a falar de Amor. Começa a escrever sobre ele - o novo Amor - esse que te espera no novo ano, na nova casa. Alegre, leve e radiante.

    Tem um ano 2017 bem feliz, renovado de amores, para nos inspirares.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  2. Eu diria que chegaremos sempre ao nosso destino, no final... Portanto, vamos aproveitar com alguma paz e sabedoria o que encontramos pelo caminho!

    ResponderEliminar