segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Mapa Cardíaco

- Tenho um mau pressentimento, sei lá - é difícil ver entre o nevoeiro. O mar é demasiado líquido para passearmos entre as lágrimas. - Não sei, deve ser só um pressentimento; uma ideia que ficou - também te cheira a saudade? Talvez um beijo nos salve. Dizias-me que os meus dedos nunca tinham apertado tanto os teus. Mesmo quando me admiravas e contavas os sinais no meu peito, como se fossem as constelações de que falavam na televisão. Eu dizia-te que o frio não era desculpa e afastava-te porque o calor podia derreter o que restava de um velho coração de gelo. Agora os teus dedos fogem-me e eu tento sufocá-los para que não desapareçam entre as ilhas. Vamo-nos afastando e talvez o amor se fique na margem errada. - Não te cheira a saudade? - Acabamos por perder aquilo que não conseguimos guardar entre os dedos. Há quem diga - só damos valor quando perdemos. - Mas eu abomino frases feitas. Sempre abominei. Mesmo que sejam verdade. Só deixa saudade o que podemos perder. Faz parte da génese do verbo. O resto são espaços vazios, onde não cabem tesouros. Não quero que vás embora. Não entendes? - Talvez seja só um mau pressentimento. Ou a saudade a crescer dentro do peito. O sufoco. - E eu não quero usar a cicatriz do teu adeus como o meu norte. A tua mão pode ser para sempre o meu mapa. Neste nevoeiro prometo nunca te largar. Há uma margem onde chegaremos juntos e ficaremos juntos. Decididos a fazer dos nossos beijos pontos marcados no céu, onde outros amores se poderão guiar. 

Hoje,
o céu veste-se
com o teu sorriso
Amor, 
meu Amor.




PedRodrigues

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