quarta-feira, 6 de julho de 2016

A bicicleta do Martim

O Martim tem oito anos.
No outro dia, enquanto estávamos à mesa, perguntava-lhe
-Não tens vergonha de ainda andares com as rodinhas na bicicleta?
Ao que, prontamente, ele respondeu
-Não!
-E os teus amigos não gozam contigo?
-Não quero saber daquilo que os outros dizem.
Apesar das dezenas de anos que nos separam, o Martim deu-me uma valiosa lição: seremos sempre julgados por aquilo que fazemos, - ou não fazemos - mas cabe-nos a nós a valorização da opinião alheia. Estaremos, do início ao fim, sujeitos a esse tribunal clandestino. Seremos constantemente bombardeados pelas ideologias dos sábios, dos reguladores da moral e dos bons costumes, dos donos de todas as verdades e dogmas. Seremos julgados independentemente da nossa opinião: quer sejamos apologistas do verde, ou do vermelho, ou da cor de burro quando foge. Todos se acham donos e senhores da verdade porque, no fundo, todos o são. Assim como Tolstói dizia que cada coração guarda um amor, cada cabeça guarda uma ideia. De maneira que o mais importante, no meio deste caos, é que sejamos fiéis à nossa opinião - à nossa verdade - e que não liguemos às buzinas alheias. O resto? O resto é como as rodinhas na bicicleta. Com, ou sem elas, sempre que cair serei gozado. Portanto, vou como me apetecer.


PedRodrigues

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