sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Reflexões a quente

São oito e vinte da manhã. O relógio vacila nas horas que lhe fogem. A noite foi feita de amores desencontrados. De misturas de chocolates com amêndoas ou nozes. Levei com investidas e balas alheias. Fui apanhado no fogo cruzado entre o "eu queria" e o "nunca vou voltar a ter".O tempo dos pistoleiros perdeu-se no tempo. Hoje a minha luta é outra. Hoje estou perdido no mundo, algures em lado nenhum. Mas sei quem quero. Não preciso que me apontem. Eu sei onde está. Apetece-me perder nas almofadas brancas, perpendiculares ao chão, com ela. Hoje os meus sonhos são dela. Dos fracos não reza a história, mas ninguém me disse que tinha uma página nos livros só minha. O meu amor é ouro. O meu amor é prata. O meu amor mata. Olho-lhe nos olhos com esta cara derrotada pela bebida. Com este corpo derrotado pelo tempo. Com este coração perdido algures - não sei onde - por ela. Adoro quando ela sorri. Quando me mostra os dentes mesmo sabendo que eu sou estranho. Nasci complexo como alguns números. Não tenho culpa. Nasci centro de gravidade e atraio problemas, balas, pecados e outras coisas. Neste momento quero que te percas por aqui. Vem até mim. Não me fujas. Esquece o resto que eu nasci escudo. Nasci torre de marfim, pronto a levar com os rios de merda que nos separam. Não me fujas. É de ti que gosto. É em ti que aposto, para nunca mais perder. Já perdi batalhas pelos mensageiros. Não me leves a mal, gosto de me entregar aos meus amigos. Desculpa as mensagens estranhas, ou outras esquisitices. Sou uma pessoa estranha. Tenho a certeza que nasci virado ao contrário - seja lá o que isso for. Não me negues o sorriso e a complicação de quem és. Não nasceste princesa, mas adorava fazer-te rainha. A coroa é tua, a tiara também. Queres que te encoste às almofadas? Sussurro-te ao ouvido, algures nas escadas, que é em ti que aposto. Gosta de mim. Abre o peito às balas, que eu tomo-as por ti. Hoje, o meu peito é de chumbo e a minha vontade é de ferro.


PedRodrigues

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Sonhar não custa...

Esta noite sonhei. Não foi bonito, não foi trágico, não entendi e gostava de me lembrar de toda a panóplia de situações em que estive envolto. Lembro-me do erotismo das oito da manhã - julgo eu. A forma como os nossos corpos se dobravam e moldavam ao espaço envolvente. Lembro-me do rosto dela: olhos castanhos, lábios vermelho sangue e tez morena; as pestanas faziam uma curva perfeita, fazendo lembrar as ondas do mar num dia não mais natural que o normal. O corpo dela era a junção perfeita entre a melhor das virtudes e o pior dos pecados - se pelo menos eu soubesse onde fica a linha que separa ambos. Há deusas entre os homens. Ela sorria para mim - um sorriso perfeito de capa de revista - e amava-me com todos os dentes que tinha. Os sorrisos enganam, mas não aquele. O meu corpo dormente das peripécias da noite, ainda agora se queixa do auge da libido em que me encontrava lá para as dez da manhã. Ela estava sentada algures -  não sei dizer onde. O cabelo castanho claro penteado ao estilo dos anos 70 abanava ao sabor da brisa invernal que se fazia sentir. Não lhe via a pele de galinha, talvez por culpa do calor de nossos corpos. Lembro-me de quando olhei para ela. Perdidos no silêncio, falando entre olhares, encontrámos no brilho mútuo dos olhos o ponto em comum que nos unia. Quem somos? Para onde vamos?
"Segue-me"
A mente dela abria portas que julgava trancadas. O coração acelerava de forma infernal. Cavalos de potência que julgava não existirem. Neste momento não interessava quem somos, apenas para onde vamos. A mão dela pedia-me que a seguisse. O vestido justo ao corpo fazia-me perder por instantes num patamar de indecência que me desviava a atenção do verdadeiro prémio.
"Aqui"
Sussurrava ela com a boca tocando a minha. O eco das palavras vibrando nos meus lábios e reflectindo na garganta. Os nossos corpos tremendo pela vontade de conquistar o êxtase. O vestido levantado pela cintura e as minhas mãos perdendo-se nas coxas dela. As unhas dela rasgando-me a carne nas costas. Os beijos atabalhoados pela vontade de conquistar o corpo um do outro. Cada vez mais intensos; cada vez mais ofegantes. Os movimentos dos corpos harmónicos e cíclicos eram esquecidos e abafados pelo som dos gemidos tímidos. Para onde vamos?
Atingido o clímax o sonho torna-se um pouco confuso. Ela já não está lá. As imagens são tão nítidas como a lua escondida atrás do nevoeiro. Ela já não está lá. Eu não a encontro. Ela faz-me falta; muita falta. Para onde vou? Quem és?


PedRodrigues

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Reflexões a quente

"Sou demasiado"

Não entendi quando ela disse. As palavras fugiam-lhe da boca como o diabo da cruz. Ela olhava para mim, ébria e sem noção de que os próprios olhos a denunciavam. Hoje tive a confirmação: não lhe sou indiferente. Não me quero dar ao acaso, mas hoje o olhar dela deixou-me sem defesas. No meio da confusão senti que ela me queria perto dela: nos bons e nos maus momentos. Sim, ela gosta de mim. Senti a respiração dela junto à minha boca. Beijei o ar que ela respirava e senti-me nas nuvens. O jeito desastrado de quem não tem noção da realidade em que me encontro deixou-me encantado. Não és capaz de usar a boca para dizer o que o teu corpo pensa?

"Vem aqui"

Do meio das cabeças cépticas ela viu-me. Estava perdido entre o tratamento de choque das amigas e a vontade de não a largar por um segundo. Ela gosta de mim. Foi o que senti quando ela me devolveu o sorriso, do auge do estado catatónico em que se encontrava. É de mim que ela gosta. Vão daqui suas aves invejosas. Abutres obesos do amor alheio. Vão!
Não me quero dar de mão beijada, sem um único beijo nesta boca. Mesmo sabendo que ela me sente nas veias. Me palpita no coração. Não me quero dar sem saber. Mapas de enganos já li muitos. Já perdi o norte e não encontrei o sul. Será que gostas mesmo de mim?

"Vai-te embora, então"

O ciúme na ponta da língua a fervilhar no coração. Há coisas que não se dizem. Mulheres que são tabu. Meti o dedo na ferida. Quem sente ciúme gosta, certo? Não gosto de ler erradamente, mas sou humano. Ela transpirava ciúme. Cada vez mais bonita a cada passo. Mais interessante a cada frase. Não me negues o ciúme. Não me negues o sorriso.

"Vim logo a correr"

Foi o que disse ao me ver. Que fugiu de tudo e de todos só para me ver. Só para me olhar nos olhos. Só para imitar meus lábios com os lábios dela. Quem me dera beijar aqueles lábios. Será que um dia vão ser meus?
Ela gosta de mim. Hoje, ela gosta de mim. Desarmada e sem pudor; toldada pelo álcool: hoje ela gosta de mim.


PedRodrigues

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ninguém é de ninguém

Aposto que nunca deste o primeiro passo, fizeste a primeira investida, ou deste o primeiro olhar. Aposto que se alguma vez o fizeste, te deparaste com uma queda vertiginosa de trinta andares. Aposto que não quiseste cair, mas deste o passo, às escuras, na mesma. A queda foi longa e o choque com a realidade terrível. Ainda hoje te lembras do instante em que o pé te escapou para o nada; ou das imagens que te passaram pela cabeça enquanto caías algures em lado nenhum. Os trapézios sem rede têm destas coisas. Alguém disse que te devias atirar de cabeça. Acabaste por te atirar de pés e ficaste sem pernas para continuar. Infelizmente para ti, os braços também se cansam.
Hoje pensas duas vezes antes de te atirar. Os olhos já não fecham e continuam alerta. A história é outra e os tapetes mágicos não são mágicos por acaso. A primeira investida não é tua. Nunca foi, nem devia ser. Às vezes tropeçamos na fogosidade das decisões. Deixamos o corpo à mercê das hormonas. O hipotálamo é o capitão dos maus costumes e o coração é o homem do lixo. No final da festa, quem limpa as nódoas da vergonha?
No dia depois de ontem, a realidade cai sobre as nossas cabeças. O amor volta a ser descartável, mas ninguém quer falar disso. Ninguém parece querer ver que, nos países desenvolvidos, as pessoas amam de ano a ano - isto se conseguirem ficar juntas tanto tempo. Os amores eternos são feitos para quem está no elevador, a subir para o trigésimo andar. No auge do declive a vertigem é grande. A queda é longa e dura. Lá em cima pensamos duas vezes: valerá a pena cair? Na realidade, o amor é o tal ramo de rosas vermelhas que são oferecidas de ano a ano. Nos intervalos fechamos os olhos e andamos às cegas a tropeçar uns nos outros. Ninguém é de ninguém.
Hoje encontro-me cá em cima, a olhar para o chão. A queda é enorme e eu sofro de vertigens. Talvez me atire de cabeça. O meu coração já se habituou a limpar a merda depois das festas.


PedRodrigues

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Cheira bem, cheira a Lisboa

Às portas de Lisboa o cheiro começa a sentir-se. Traz-me à memória as tardes de verão na casa da avó Alice; os finais de tarde no Dafundo, na casa da tia Graça, sentado à varanda a ver as pessoas lá em baixo tão pequeninas. Nessa altura, ia pelo menos duas vezes por ano a Lisboa. Tenho saudades.
As férias em casa da avó Alice faziam parte de um ritual anual de quando era mais pequeno. Adorava o cheiro da casa. O cheiro do soalho antigo, misturado com o dos detergentes e da comida, misturado com o cheiro de Lisboa - embora a casa da avó Alice esteja situada lá para os lados de Cascais. Lembro-me de fazer praia na linha do Estoril. Nessa altura, era novo demais para apreciar de forma decente as formas da silhueta feminina, mas ao meu jeito de miúdo lá sentia uma comichão na zona genital e um frio na barriga quando via aquelas tias semi nuas a apanharem banhos de sol. Lembro-me dos passeios no Parque Municipal de Cascais, das tardes de futebol com o meu padrinho e o meu primo Hugo, na Amoreira. Os bons velhos tempos.
No Dafundo as tardes de verão eram brindadas com visitas ao Aquário Vasco da Gama - ainda me lembro da excitação antes de entrar. Tenho saudades dos jantares na marisqueira e das conversas ao café nas Docas. A vida é simples quando não a entendemos. A vida complica-se quando nos esquecemos das coisas simples. Ás portas de Lisboa o cheiro traz-me a nostalgia. O sol brilha de forma diferente ao passar as portas de Lisboa. As praias da linha ainda me deixam de sorriso no rosto. Que saudades da baía de Cascais.
Hoje a avó Alice chegou de Lisboa. Trouxe amêndoas torradas e marmelada. Não trouxe o cheiro de Lisboa. Hoje restam-nos as histórias de quando a vida era simples. Adoro quando nos lembramos em conjunto, de sorriso no rosto.


PedRodrigues

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Reflexões a quente

Se me perguntarem: quantas vezes te apaixonaste? Não saberei responder. Sinceramente, perdi-lhes a conta. Hoje sinto-me ébrio e cheio de amor. Hoje meti as tripas de fora. Elas ouviram. Ela ouviu. Não acredito em mim. Não peço que acreditem em mim. Hoje sinto-me apaixonado. Hoje sou o melhor. Embora veja os meus amigos com mais cartas que eu. Vejo amigos com antigas namoradas - minhas - amigos a ensinar histórias de embalar. Quem são vocês que acreditam neles?
"Quem não quer estar connosco?"
Não entendo. Estarão a falar de mim também? Hoje fui grande por momentos. Mas prefiro ser pequeno e amar. Hoje as letras fogem-me. Hoje eu estou perdido de amores. Amanhã também. O amor é tão fácil quando o mundo me foge pelos dedos. Hoje lembro-me do cheiro dela. Amanhã não me esqueço. As tripas de fora custam-me o mundo. Ela vale tanto. No meio dos meus amigos sou zero. Ao pé dela sinto-me zero. Ontem fui rei, mas perdi o trono. Ela é tão especial que me foge pelas palavras. Hoje a leitura é minha amiga, a escrita é minha amiga, as letras são minhas amigas - quando não me fogem pelos dedos. Prometi o texto da minha vida, mas sinto-me perdido. Procuro uma musa que já encontrei. Que mãos suaves.  Obrigado por seres quem és. És linda. Hoje sinto-me perdido de amores. Hoje já gritei. Quem és?
Achas que te posso dizer ao ouvido
"És linda"
devagar, como um suspiro. Desculpa a forma abrupta como me apaixono, mas apanhaste-me a meio do caminho. Detesto ser fácil. Adoro quando me tornas difícil. Quem és?
Diz-me que não te conheço, mas que me vais deixar conhecer. Diz-me que também sou uma pedra no caminho que queres meter na tua torre de marfim. Diz que sou lindo, mesmo que me ache feio. Não digas. Deixa-me descobrir. Hoje sou teu. Amanhã também. Se não for...
A minha vida é um tetris... De peças que não encaixam. Hoje sonho com jogos perfeitos. Quem és tu? Dá-me dez minutos para te conquistar, o resto é fácil: deixa o acaso jogar.


PedRodrigues

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Reflexões a quente

A volta a Coimbra trouxe truques na manga. Trouxe uma noite de damas e valetes, numa sequência real onde o rei não é rei. Os amigos pedem detalhes de mulheres, eu dou-lhes nada. Pedem-me detalhes das damas de espadas, mas só lhes dou metade da figura. Não lhes dou as pernas, só a cintura. A carta vale o mesmo, mas a mulher vale metade. O rei não é rei. Não sou príncipe nem quero ser. Adoro os olhares indiscretos e o cio das primeiras noites. Não me dou à despedida, nem sou fã das boas vindas. Estou de folga para o descartável e só penso no permanente. Sou uma mente perturbada e o meu mundo é diferente - não que seja melhor ou pior, infelizmente. O rei não é rei. As damas estão pela metade e não vejo quem queria ver. Não entendo quando elas dizem
"Não é bem assim"
Não é bem como as pessoas querem ver. Vemos as figuras pela metade que nos interessa. Sem pés, mas com cabeça. Jogo com o baralho que tenho. Sem figuras de estilo ou metamorfoses. Onde estavam elas quando a amiga deixou de ser amiga e passou a ser puta? Onde
"Não é bem assim"
o mundo dá a volta e volta a ser mundo. Onde as amigas não são bem amigas por terem dado a metade errada. O erro é visceral e corta-me o peito. Onde está a minha dama?
Hoje o amor e a cabana arderam por aí. Hoje faltam dez minutos para o fim do mundo e ainda não beijei como devia beijar. O último beijo é sempre o melhor. Se o mundo acabar não me lembro de quem beijei. A dama não tinha sinal e não me lembro das pernas, muito menos do rosto. O sabor do beijo deve estar por aí: algures na cabana. Acabei de ser rei e só me sinto pela metade. Amo pela metade errada. O meu espelho não me diz que sou belo. O meu espelho não me mente para me afagar o ego. Se ele me visse pela metade o meu ego não cabia neste quarto. As damas bem me dizem
"Não é bem assim"
que os homens não valem nada. Mas a estatística não cede a favoritismos. Para elas somos cara, para nós elas são coroa. O amor e a cabana já lá vão. A minha ilha sou eu. Não nasci para ser figura, ou amar pela metade. Nasci ás de trunfo. Neste jogo ganho pelos pontos.


PedRodrigues


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

As escadas

A garrafa de vinho sorria para mim - estranha a devoção que às vezes lhe tenho. No jantar lá em casa as gargalhadas ouviam-se na rua e as confissões nas casas dos vizinhos. As paredes ecoavam o falatório dos romances, ou aventuras pelo mundo das mulheres. Cada um ao seu jeito tinha a palavra. Ás vezes, as histórias de uns misturavam-se nas aventuras de outros. O vinho fluía as palavras, mas toldava o julgamento.
Podia alegar falta de sobriedade após o erro que tinha cometido na tarde anterior ao jantar. Infelizmente para mim, tinha sido avistado na baixa ás compras, quando supostamente deveria estar pela Figueira debaixo da saia da minha mãe. As notícias correm rápido por estas bandas e antes do primeiro gole já tinha sido alertado de que estava na lista negra da Ana.
O fim da garrafa de whisky ditou o final do jantar. De espírito leve e corpo dormente seguimos em direcção ao resto da noite.
Felizmente para mim, as rotações do meu cérebro aumentam após a ingestão de bebidas alcoólicas. Não conseguia parar de pensar no que iria dizer para tentar remediar o facto de ter mentido à rapariga por quem estava apaixonado.
Chegado ao convívio que havia nas Químicas nessa noite,  respirei fundo.

"Vou ao convívio de Farmácia"

O estrabismo dos olhares foi substituído por um certo tom de apreensão

"Não vás"

Mas eu tinha de ir

"Ela está chateada contigo, que vais fazer?"

Levar um estalo, enquanto me tento desculpar, quem sabe?

"Vou tentar a minha sorte"

Fiz a caminhada mais longa da minha vida: desde o sítio onde estava com os meus amigos, até ao sítio onde, no meio da multidão, vi os caracóis loiros que a distinguiam do mar negro em que estava mergulhada.
Peguei-a pela mão

"Vem comigo"

Soltou-se

"Não quero"

Insisti

"Dá-me dez minutos para me explicar. Depois disso, se não me quiseres ver mais, vou-me embora"

Desejo concedido.
Ela

"Leva-me a casa"

segurava-me a mão com medo que fugisse sem lhe dar explicações.

"Desculpa"

A minha boca lenta demais para a velocidade dos meus pensamentos.

"Se eu te disser que tenho medo, acreditas?"

Pobre bêbedo que não sabe o que diz. Um misto de raiva e surpresa no rosto dela.

"Medo de quê?"

A velocidade dos meus pensamentos não ajudava. O vento que me batia na cara não ajudava. A noite chuvosa não ajudava. Não conseguia responder.

"Chegámos... É aqui que vivo"

Continuava à espera duma resposta e eu não me lembrava das perguntas.

"Importas-te de te sentar ali, naquelas escadas, comigo?"

Esperei pelo sim, que ela me deu ao guiar-me pela mão até à escadaria em frente à casa dela. Sentámo-nos os dois, lado a lado,  aninhados um no outro de forma a proteger os nossos corpos do frio e da chuva que se faziam sentir. O calor humano ajudou o meu cérebro a encontrar o ritmo certo e a sincronizar-se com a minha boca.

"Tenho medo de te magoar"

Suspense no ar

"Acho que estou apaixonado por ti...Não consigo parar de pensar em ti - acho que isso até já começa a irritar os meus amigos, que já não podem ouvir o teu nome."

A cara dela espelhava as palavras. O sorriso que tanto amava deu sinais de vida.
A chuva começou a cair com maior intensidade, o que nos obrigou a juntar as capas de forma a proteger os nossos corpos dos gélidos pingos.

"Sabes? Tenho medo de errar… Tenho medo de não ser bom o suficiente para ti. Tão bom como tu mereces"

A mão dela apertou a minha. Abracei-a, mas não a beijei. Ela retribuiu o abraço, mas também não me beijou

"Nunca mais digas isso"

A conversa prolongou-se pela noite dentro. No meio da chuva, perdidos algures por Coimbra, ali era o nosso ninho: naquelas escadas, em frente à casa dela.



PedRodrigues