domingo, 27 de maio de 2012

Pequena autobiografia


Sou da opinião de António Lobo Antunes quando diz que as biografias “contam factos, acumulam testemunhos, relatam acontecimentos mas é tudo por fora”. E assim sendo, é-me penoso, quase antinatural, escrever o que quer que seja sobre mim num contexto autobiográfico. Estaria a enganar-me e a enganar quem me lê, se o tentasse fazer. Far-me-ia mais alto, mais bonito, mais interessante. Faria de mim um personagem, enquanto eu, Pedro Miguel Pimentel Rodrigues, ficaria sentado na cama a ver-me como gostaria de ser visto. Claro que há factos irrefutáveis: nasci a um de Março de oitenta e sete na Cova-Gala, Figueira da Foz, frequentei o Jardim Escola João de Deus, fiz o meu ensino primário na Escola da Gala, passei pela EB 2/3 Dr. João de Barros, bem como pela Escola Secundária Dr. Joaquim de Carvalho e, neste momento, encontro-me a concluir o Mestrado em Engenharia Civil na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, mas tudo isto é sintético, factual, sem nada dizer sobre mim. E acabo com a noção de que quem lê esta sequência pouco saberá sobre quem sou. O meu gosto pela escrita vem de longe: começou na primária, continuou no ciclo, onde entrei em alguns concursos de poesia, e entretanto foi adormecido pelo desejo súbito de me tornar num homem das ciências, mais que num homem das letras. Continuei a escrever, mas a faísca de escritor que havia em mim esmoreceu. Passaram-se dias, passaram-se meses, passaram-se anos e tudo o que escrevia era muito pouco: um poema, ou uma carta de vez em quando. Ouvia muito, falava pouco e guardava em mim cada conversa, cada discussão, cada súplica, cada grito de revolta. Fui vivendo com o corpo atulhado de vozes que, quero crer, a minha juventude e ingenuidade calaram. Reprimi o que havia para reprimir até ao dia em que a minha avó morreu. Nesse dia, nesse fatídico dia, o meu corpo tornou-se pequeno para a vida que havia em mim. Escrevi. Escrevi páginas inteiras tingidas de lágrimas. Dei de mim ao papel tudo o que tinha cá dentro. Nesse dia percebi que não mais conseguiria calar as vozes, não mais as calaria. Passaram quatro anos desde a morte da minha avó até ao dia em que criei Os Filhos do Mondego, em Novembro de dois mil e dez. Quatro anos em que escrevi para mim, ou melhor, para as minhas gavetas. Hoje, graças ao meu primo Luís Filipe, escrevo para dar vida às minhas palavras. Escrevo para dar vida às vozes que trago cá dentro. Escrevo para o mundo, se o mundo me quiser ler. Desde o dia em que publiquei pela primeira vez algo no blogue que me sinto a evoluir diariamente enquanto escritor – perdoem-me a presunção. A prova está nos convites que têm surgido, entre os quais o da Algarve Mais, revista para a qual escrevo mensalmente desde Janeiro deste ano, e nas críticas tão positivas de quem lê os meus textos. Hoje ainda sou um projeto do Pedro Rodrigues que gostaria de biografar um dia. Hoje, sem rendilhados, sou apenas mais um rapaz com faísca e meia dúzia de textos editados. Espero que um dia essa faísca dê lugar a um incêndio e o seu clarão se veja a quilómetros e quilómetros de distância.

PedRodrigues

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A vida dói


-É a vida

Realmente, é verdade: é a vida. Às vezes muda sem nos pedir licença, sem nos avisar. Às vezes, aquilo que tinha tudo para correr bem, acaba por correr mal. Fazem-se escolhas. Vivem-se essas escolhas e depois

-É a vida

Ficamos admirados a contemplar a vida a atropelar-nos. Acabamos abraçados às paredes de queixo partido, de dentes partidos, de pernas partidas, de braços partidos, de coração partido. Acabamos. Desfeitos. Acabamos. E é nos finais que sentimos a vida no corpo. A despenhar-se na nossa direção a duzentos quilómetros por hora. É nessa hora, nesse preciso momento, que a sentimos nos ossos e nos músculos e nas veias. A vida dói. Vai passando por nós sem pedir licença. Levando o que amamos consigo.

-Vai.

Matando-nos devagarinho: centímetro a centímetro.

-Não queres que fique?

(Um olhar no vazio.)

-É por querer tanto que fiques, que te peço que vás.

O relógio da estação a teimar em parar o tempo. Cada segundo mais longo que o outro. Até o ar parecia parar, teimando em não entrar nas narinas, em não chegar aos pulmões.

-Mas eu quero ficar. Quero ficar contigo. Como é suposto ser feliz sozinha?

Ao ouvi-la os meus ossos a racharem lentamente. Cada palavra um murro no estômago. As pessoas a desviarem-se, ágeis,  ignorando o meu sofrimento. Os comboios chegavam e partiam sem que nada os fizesse parar: nem o relógio, nem as lágrimas, nem o meu corpo quase desfeito em pó de giz. Nada os fazia parar. Nada fazia parar a vida. E enquanto ela seguia o seu rumo atropelava-me uma e outra vez. Inconsciente do meu sofrimento, ou do sofrimento da Luísa. Ignorava-nos. Ignorava as lágrimas dela

-Nunca serei feliz sem ti

Ignorava as minhas dores.

-Então sê feliz por mim. Peço-te: sê feliz. Faz isso por mim.

-Esperas?

A mão dela tremia na minha. Sentia-a a apertar-me com as forças que lhe restavam. Os nossos dedos abraçavam-se eternamente. Sentia as unhas dela na minha carne. A marcarem-me uma última vez. Queria guardar na pele uma chaga que fosse que me lembrasse dela. Não queria encarar aquele momento como um final, ou um adeus. Queria que fosse só mais um entretanto. Que é aquilo que realmente somos: entretantos. Olhei-a nos olhos e limpei-lhe suavemente as lágrimas do rosto. A cara dela brilhava de tristeza e isso matava o que ainda restava de mim. A mão dela teimava em não largar a minha, com medo da falsa eternidade que sabia unir-nos. Engoli um trago de saliva e lágrimas. Olhei-a nos olhos, como se olha quem se ama, e respondi-lhe

-Por ti? Uma vida. E se existir outra continuarei a esperar.

Ainda me lembro daquele último sorriso de papel vegetal: leve, frágil, transparente. Sorri com ela e ajudei-a a subir para o comboio. Beijámo-nos ao som do sinal de partida e nesse momento senti-me como se fosse feito de pó, a espalhar-me pelo mundo: um braço aqui, um pulmão ali, o coração acolá. Sentia-me mutilado, partido, incompleto. O meu amor, o meu grande amor de oito anos, acabara de desaparecer atrás de uma vidraça, à velocidade de um alfa pendular. E eu corri para não a perder de vista. Corri sem condições de a alcançar.

(-É a vida)

Espero que realize todos os seus sonhos e um dia volte para me completar.

PedRodrigues



domingo, 6 de maio de 2012

Amar assim: a quente


Faz hoje um ano que falei contigo pela primeira vez. Sem saber, embarquei na mais alucinante aventura da minha vida. Lembro-me perfeitamente que não gostavas de mim. Achavas-me só mais um pretensioso com queda para a escrita. Tratavas-me como se fizesse parte da escória da sociedade. No entanto, nunca desisti de ti: nem quando me atiravas pedras, nem quando me davas a mão às escondidas. Nunca desisti. Aguentei todas as tuas investidas, com peito de ferro e mente à prova de bala. Levantei-me quando me atiravas ao chão e continuei. Continuei, sempre, até ao ponto em que começaste a ceder: as chapadas tornaram-se carícias, as palavras deixaram de funcionar como facas, o escárnio tornou-se em afeto. Pela primeira vez na minha vida, alguém cedeu antes de mim. Por ti, fui mais lutador que amante. Por ti. Acredita que não foi fácil. Não é fácil, mas o amor é difícil. O amor é difícil e vale a pena. Ainda há pouco me veio à memória a noite em que te pedi em namoro – uma dessas noites. Dessa vez disseste que sim. Não sei se reparaste, não sei se realmente foi assim que aconteceu, mas os meus olhos cresceram até não me caberem na cara, os meus lábios ganharam vida própria e não paravam de sorrir e o meu coração deixou de ser só o meu coração: conseguia senti-lo no teu corpo, também. Amo-te. Pela primeira vez amei alguém como se deve amar. Foste a catalisadora do meu melhor. Agradeço-te por toda esta viagem. Agradeço-te por tudo. Amar sempre foi o sentimento mais complicado do mundo até te conhecer. Acredita. É verdade e será sempre verdade. Não te juro amor eterno, não acredito na eternidade. Juro amar-te hoje e amanhã e, se cá estiver, depois de amanhã. Não passo um dia sem ti. Já não consigo. Fazes parte das minhas fundações. Incrustaste-te em mim. Não sei como, nem porquê. Foste crescendo sempre. Sempre. Amar-te será a jornada de uma vida. Digo e repito: não mudava nada: nem uma vírgula, nem um ponto. As outras raparigas, as outras mulheres, parecem-me incompletas. Acredita. Não por culpa delas. Nunca por culpa delas. São lindas. Acredito cegamente que sejam fantásticas. Mas não são como tu. Nunca serão como tu. Estás debaixo da minha pele, sinto-te no meu sangue, corres-me pelas veias e sais-me do coração. És linda e eu não te digo que o és vezes suficientes. Não me culpes. Não o faço por negligência, ou outra coisa qualquer. Se quiseres repito-te ao ouvido mil vezes: és linda, és linda, és linda. Se não for suficiente, tatuo na pele: és linda. Se continuar a não ser suficiente, abro o peito e mostro-te o meu coração: se procurares bem encontrarás algures escrito: és linda. Amar será sempre aquilo que farei por ti. Será o sentimento mais real que terei por ti. Não há “adoro-te”, ou “gosto muito de ti” que seja suficiente. Sinceramente, amar não chega para descrever o que sinto. É o único verbo que conheço para descrever, na sua – quase – total plenitude, aquilo que me fazes sentir. Acredita. Hoje, um ano depois, venho dizer que és a mais fantástica jornada da minha vida. Continua. Eu continuarei a caminhar por ti.

Amor,
Hoje,
Até um dia,
Amor
Amor

PedRodrigues

quarta-feira, 2 de maio de 2012

As soluções de Domingo


Todos os Domingos a mesma coisa. Deixa a mulher em casa e vai para o café ver o futebol com os amigos. Entra, religiosamente, uma hora antes do jogo, compra um maço de cigarros e pede uma cerveja. Senta-se sempre na mesma mesa, junto à televisão. Acende o primeiro cigarro e começa o falatório habitual de fim-de-semana com os seus companheiros de bancada. Falam do tempo

-Isto anda tudo mudado…

(De cigarro pendurado nos lábios num trapezismo apavorante)

-Onde já se viu?

Que antigamente é que isto andava tudo nos eixos: no inverno chovia, no verão fazia sol.

-Agora anda tudo mudado…

Acaba-se o assunto com a cerveja e vão pedindo mais uma rodada de forma a aguçar a língua e hidratar as gargantas - que ainda há muita conversa para meter em dia e não vale a pena esforçar as cordas vocais. Entre cigarros e cervejas vão discutindo o dia-a-dia do país num tom imperativo de quem sabe o que está dizer. Sempre com um brilho de ministro-das-finanças nos olhos. Cheios de soluções nas algibeiras. Confrontam-se num duelo de titãs da economia a desbobinar casos da vida lá da vila. Do vizinho que foi posto na rua pelo senhorio porque não tinha dinheiro para pagar a renda, ou do outro que era dono do talho mas também abriu falência, e depois lá vem a exceção que confirma a regra: aquele das heranças que se farta de construir prédios por aí. Vão desmascarando todos os males, solucionando todos os problemas, contando que as cervejas continuem a chegar à mesa e os cigarros não lhes faltem.

-Ai se eu estivesse no governo…

Acredito piamente nas palavras deles. Digo mais: votava neles. Inspiram-me confiança, têm cara de quem sabe o que faz. E, a menos que faltem as cervejas ou os cigarros, ideias e soluções nunca serão um problema.

(Na televisão começa o jogo)

As rodadas continuam a chegar e o assunto agora é outro. No meio das goladas cada vez mais sôfregas vão amaldiçoando o árbitro, por roubar sempre os mesmos; os jogadores, por nunca jogarem bem quando é preciso; o treinador, que é um trauliteiro que ali anda, sem saber que fazer com os jogadores. De maneira que, no final das contas, eles deveriam estar a treinar uma equipa de futebol

-Ai se eu fosse o treinador…

E eu continuaria a acreditar neles. Não duvido que seríamos campeões com as táticas deles. Tenho para mim que os jogadores com eles jogariam o dobro. E a corrupção, de que tanto se queixam, seria apenas uma miragem. Dêem-lhes cerveja e cigarros.

-Comigo é que eles jogavam…

No final do jogo sobra-lhe o cartão do maço de tabaco. Todos os Domingos a mesma coisa. Levanta-se da mesa a cambalear, despede-se efusivamente dos seus camaradas, mete as cervejas na conta que está por pagar há mais de uma semana e segue a sua vida. Quando passo à porta da casa dele oiço sempre a mesma gritaria com a mulher. Se ela soubesse o que eu sei, recebia-o de cerveja na mão e cigarro na boca. Ninguém resolve problemas de garganta seca e língua enferrujada.

PedRodrigues

(Crónica da edição de Maio da revista Algarve Mais)